O Flamengo venceu o Atlético-MG por 3 a 2, no Maracanã, e recuperou a liderança do Brasileirão com uma virada decidida por pênalti nos acréscimos, mas o resultado não elimina as dúvidas deixadas pela atuação rubro-negra. Quatro dias depois da eliminação na semifinal da Libertadores, a equipe de Leonardo Jardim apresentou duas versões distintas: uma primeira etapa de intensidade, pressão e volume ofensivo, seguida por um segundo tempo em que perdeu organização, permitiu a reação atleticana e precisou recorrer à insistência para escapar de um novo resultado frustrante diante de sua torcida.
O triunfo tem um peso importante na disputa pelo título. Com 70 pontos, o Flamengo voltou a ficar um à frente do Palmeiras e evitou que a eliminação continental contaminasse ainda mais a reta final da temporada. No entanto, a maneira como a equipe chegou ao resultado merece atenção. O time produziu muito, criou oportunidades suficientes para construir uma vantagem mais confortável, mas voltou a demonstrar dificuldades para administrar o jogo quando deixou de controlar o ritmo da partida.
A vitória, portanto, dá alívio imediato, mas não representa uma resposta completa às questões que surgiram após a queda na Libertadores. O Flamengo recuperou a liderança e mostrou capacidade para reagir, embora a queda de rendimento depois do intervalo indique que ainda precisa encontrar maior estabilidade ao longo dos 90 minutos.
A intensidade do primeiro tempo mostrou o caminho para o Flamengo
O início da partida apresentou uma equipe consciente da necessidade de dar uma resposta rápida. Diante de um Maracanã lotado e de um Atlético-MG disposto a defender em bloco baixo, o Flamengo assumiu o controle da posse de bola, pressionou a saída adversária e tentou acelerar as jogadas com movimentações constantes no setor ofensivo. A equipe não ficou restrita à circulação lateral: buscou infiltrações, atacou os espaços e procurou criar situações de superioridade perto da área atleticana.
A proposta de Leonardo Jardim funcionou especialmente bem porque os jogadores da frente trocaram de posição e dificultaram o trabalho da marcação. O Flamengo conseguiu empurrar o adversário para trás, recuperou a bola rapidamente em diferentes momentos e acumulou oportunidades. Mesmo quando saiu atrás no placar, a equipe manteve a iniciativa e não demonstrou depender exclusivamente de uma jogada individual para ameaçar o gol de Delfim.
O gol de Bernard, em um contra-ataque que explorou o espaço nas costas de Alex Sandro e a falha de Léo Pereira no bote pelo meio, representou um golpe inicial, mas não alterou o comportamento rubro-negro. O Atlético-MG encontrou uma maneira eficiente de aproveitar uma das poucas oportunidades que teve, enquanto o Flamengo continuou atacando e acumulando finalizações.
Pedro teve uma chance logo no primeiro minuto, em uma disputa com o goleiro, e o time ainda desperdiçou boas oportunidades pelo alto com o próprio centroavante e Erick Pulgar. A insistência acabou produzindo o empate aos 33 minutos, quando Plata cruzou para a área e a bola terminou no fundo da rede. O lance teve uma parcela de acaso, mas também foi consequência da presença constante do Flamengo no campo ofensivo.
A virada, aos 40 minutos, sintetizou melhor a qualidade da atuação. Arrascaeta recebeu em condições favoráveis, partiu para cima da marcação e encontrou o espaço necessário para finalizar com precisão. O uruguaio voltou a mostrar como sua capacidade de decidir em espaços reduzidos pode fazer a diferença quando o adversário concentra muitos jogadores perto da área.
O Flamengo ainda teve oportunidade de ampliar antes do intervalo, mas não conseguiu transformar o domínio em uma vantagem maior. Essa foi uma das primeiras questões que apareceram na partida: mesmo diante de um adversário que oferecia poucos recursos ofensivos e passava boa parte do tempo defendendo, o time rubro-negro não conseguiu aproveitar todas as chances que criou para encaminhar o resultado.
Ainda assim, o primeiro tempo foi uma demonstração do potencial da equipe quando consegue combinar intensidade sem a bola, movimentação no ataque e recuperação rápida da posse. O problema é que esse nível de desempenho não se sustentou depois do intervalo.
A queda de rendimento mudou o cenário da partida
O segundo tempo começou com uma oportunidade de Arrascaeta, que não conseguiu concluir após cruzamento de Léo Pereira, mas o Flamengo rapidamente perdeu a fluidez apresentada antes do intervalo. A equipe passou a encontrar mais dificuldades para acelerar as jogadas, diminuiu a pressão sobre a saída atleticana e deixou de recuperar a bola com a mesma frequência. Com isso, o Atlético-MG encontrou espaço para avançar e passou a acreditar que poderia buscar o empate.
A mudança não aconteceu apenas por uma melhora individual dos visitantes. O próprio Flamengo contribuiu para alterar o cenário ao perder compactação e permitir que o adversário encontrasse caminhos entre o meio-campo e a defesa. O time de Leonardo Jardim deixou de controlar a partida por meio da pressão e passou a depender mais de ataques isolados, com cruzamentos para a área e disputas pelo alto.
O desperdício de oportunidades também teve influência. Léo Ortiz e Bruno Henrique tiveram chances importantes de cabeça, mas não conseguiram marcar. Se o Flamengo tivesse ampliado a vantagem, provavelmente obrigaria o Atlético-MG a assumir riscos ainda maiores, criando espaços para contra-ataques. Como o placar permaneceu apertado, os visitantes continuaram vivos e ganharam confiança à medida que o tempo passava.
Eduardo Domínguez percebeu a necessidade de mudar o comportamento da equipe e promoveu as entradas de Castaño e Reinier, inicialmente preservados por causa da sequência de compromissos. As alterações aumentaram a qualidade das ações atleticanas e deram ao time mais capacidade para sair da defesa e trabalhar a bola no campo ofensivo.
O empate surgiu justamente dessa mudança. Victor Hugo, que teve participação importante na construção das jogadas do Atlético-MG, encontrou Renan Lodi com um lançamento para a esquerda. O lateral finalizou de primeira e deixou o placar igualado aos 14 minutos. A jogada mostrou que o visitante não precisava abandonar completamente sua estratégia inicial, mas apenas encontrar melhores condições para transformar a recuperação da bola em ataques organizados.
As mudanças de Domínguez produziram efeito, enquanto as substituições de Jardim não conseguiram devolver ao Flamengo a intensidade do primeiro tempo. A tentativa de renovar o fôlego da equipe acabou deixando o time mais espaçado e com menos conexões entre os setores. Em vez de recuperar o controle por meio da circulação e da pressão, o Flamengo passou a insistir em bolas levantadas na área.
Esse contraste é um dos principais pontos de atenção para Leonardo Jardim. O treinador conseguiu preparar uma equipe agressiva e dominante para o início da partida, mas teve dificuldades para reagir quando o Atlético-MG alterou sua postura. Em uma reta final de Campeonato Brasileiro na qual cada ponto pode definir o título, administrar diferentes momentos de um jogo será tão importante quanto construir um bom plano inicial.
O Atlético-MG encontrou uma resposta, mas pagou caro pelos espaços concedidos
A estratégia de Eduardo Domínguez foi compreensível diante do calendário e das características do adversário, mas também carregava riscos evidentes. O Atlético-MG chegou ao Maracanã com compromissos importantes contra o Cruzeiro e o Grêmio, pela semifinal da Copa do Brasil, e optou por preservar algumas peças. A equipe começou com uma postura conservadora, apostando na capacidade de resistir à pressão e explorar os contra-ataques.
O gol de Bernard parecia validar o plano. Ao abrir o placar logo no início, o Atlético ganhou a possibilidade de defender com ainda mais jogadores atrás da linha da bola e obrigar o Flamengo a encontrar soluções contra uma defesa fechada. Durante parte do primeiro tempo, a estratégia funcionou, mas a quantidade de oportunidades concedidas mostrou que a equipe não conseguia neutralizar o volume ofensivo rubro-negro de maneira consistente.
A dificuldade ficou evidente quando o Flamengo passou a pressionar com maior intensidade. O Atlético encontrou problemas para manter a posse, errou passes e teve dificuldade para sair do próprio campo. Victor Hugo ainda teve uma oportunidade para ampliar a vantagem atleticana, mas finalizou em cima de Rossi. Pouco depois, a perda da bola pelo próprio meio-campista originou a jogada da virada rubro-negra.
A falha foi importante porque aconteceu justamente em um momento no qual o Atlético precisava preservar a organização para chegar ao intervalo em condições de reorganizar o plano. O Flamengo recuperou a posse e encontrou Arrascaeta em uma situação favorável, transformando uma perda de bola no meio-campo em uma oportunidade decisiva.
A entrada de Castaño e Reinier no segundo tempo corrigiu parte dos problemas. O Atlético passou a oferecer mais opções para a construção e deixou de depender exclusivamente de jogadas rápidas depois de recuperar a bola. O time conseguiu avançar, encontrou espaços pelos lados e chegou ao empate com uma combinação de qualidade no passe e precisão na finalização.
Por alguns minutos, o resultado pareceu atender aos interesses dos visitantes. O empate manteria o Atlético-MG próximo da disputa pelas primeiras posições e permitiria que a equipe deixasse o Maracanã com um resultado relevante antes de uma sequência exigente. O time ainda precisou suportar a pressão final do Flamengo, mas conseguiu afastar boa parte das investidas até os acréscimos.
O problema foi a forma como a equipe lidou com o momento decisivo. Renan Lodi foi imprudente ao atingir o pé de Léo Pereira dentro da área, e o árbitro assinalou o pênalti. Carrascal assumiu a responsabilidade e bateu com precisão, garantindo a vitória rubro-negra no último minuto.
A derrota não apaga a capacidade de reação do Atlético-MG, mas evidencia o preço de uma estratégia que exige concentração defensiva durante praticamente toda a partida. O time conseguiu se reorganizar depois do intervalo, porém não sustentou a atenção necessária nos minutos finais. Em jogos desse nível, uma única decisão equivocada pode anular o trabalho realizado durante boa parte dos 90 minutos.
Carrascal decidiu, e a torcida sustentou o time em um momento delicado
A cobrança de pênalti de Carrascal teve importância que ultrapassa o placar. O colombiano chamou a responsabilidade mesmo com Lucas Paquetá e Bruno Henrique em campo e converteu a oportunidade com categoria, encerrando uma noite que poderia ter terminado em frustração para o Flamengo. A escolha também reforça a qualidade técnica do jogador em um momento de pressão, quando a margem para erro era mínima.
O lance inevitavelmente remete à decisão de Leonardo Jardim de retirar Carrascal antes da disputa por pênaltis contra o Estudiantes, na semifinal da Libertadores. A cobrança contra o Atlético-MG mostrou que o colombiano possui recursos para executar esse tipo de tarefa, embora um único acerto não seja suficiente, isoladamente, para determinar que a escolha anterior tenha sido equivocada. O que fica evidente é que Carrascal tem qualidade para assumir responsabilidades em momentos decisivos e merece ser considerado dentro desse contexto.
A reação da torcida também teve papel importante. O reencontro com o time aconteceu poucos dias depois da eliminação continental, e o ambiente carregava sinais claros de insatisfação. Houve vaias direcionadas a Jardim antes do início da partida e uma faixa com a mensagem de que o Campeonato Brasileiro era obrigação. Ainda assim, o público continuou apoiando a equipe mesmo depois dos gols sofridos.
Essa postura ajudou a manter o Flamengo conectado à partida quando o segundo tempo se tornou mais difícil. O apoio não elimina as cobranças nem significa que a torcida tenha deixado de demonstrar descontentamento com a eliminação, mas mostra que a disputa pelo título nacional continua mobilizando o ambiente rubro-negro.
O pênalti convertido no último minuto transformou essa tensão em alívio. A equipe recuperou a liderança, evitou um novo tropeço em casa e ganhou a oportunidade de chegar ao clássico contra o Vasco em uma condição mais favorável. Ao mesmo tempo, o resultado não deve servir para encobrir os problemas de desempenho apresentados depois do intervalo.
A liderança voltou, mas o Flamengo ainda precisa encontrar estabilidade
O placar final contrasta com a dimensão do domínio rubro-negro nos números. O Flamengo terminou a partida com 66% de posse de bola, 26 finalizações, 14 escanteios e ampla superioridade na circulação de passes. O Atlético-MG, por sua vez, finalizou apenas quatro vezes e não conseguiu conquistar nenhum escanteio. Os números confirmam a superioridade territorial do time de Leonardo Jardim, mas não explicam sozinhos a dificuldade para transformar o controle em uma vitória mais tranquila.
A diferença entre os tempos é o aspecto mais relevante. No primeiro, o Flamengo conseguiu pressionar, acelerar e criar chances em sequência. No segundo, perdeu intensidade, permitiu que o Atlético crescesse e precisou encontrar uma solução nos acréscimos. O resultado foi positivo, mas a atuação deixou claro que a equipe ainda pode melhorar a maneira como administra a vantagem e reage às mudanças promovidas pelo adversário.
A vitória também precisa ser contextualizada. O Flamengo vinha de uma eliminação dolorosa e enfrentou um adversário que escolheu defender durante boa parte do primeiro tempo, mas encontrou dificuldades quando o Atlético aumentou a qualidade da construção ofensiva. O time mostrou força para reagir ao gol inicial e insistir até o fim, embora tenha permitido que uma partida sob seu controle se transformasse em uma disputa aberta nos minutos finais.
Com 70 pontos, a equipe recuperou a liderança e manteve o Palmeiras logo atrás, com 69. O próximo compromisso, contra o Vasco, exigirá uma atuação mais estável, especialmente porque um clássico não costuma oferecer o mesmo espaço para que uma equipe domine territorialmente durante longos períodos. Leonardo Jardim terá de encontrar respostas para a queda de rendimento e avaliar como as substituições podem contribuir sem comprometer a conexão entre os setores.
O Flamengo saiu do Maracanã com os três pontos que precisava e com a liderança novamente nas mãos. No entanto, a virada sobre o Atlético-MG deve ser vista como uma resposta parcial, não como a solução para todos os problemas. A equipe mostrou que tem recursos para dominar, criar e decidir, mas também revelou que ainda precisa sustentar esse nível de atuação durante a partida inteira. Na reta final do Brasileiro, a capacidade de transformar superioridade em controle efetivo pode ser o diferencial entre conquistar o título e deixar escapar pontos decisivos.
(Foto: Pedro Souza/Atlético)



