O Grêmio voltou a vencer no Brasileirão e encontrou motivos para acreditar na permanência na Série A, mas o triunfo por 1 a 0 sobre o Coritiba, no Couto Pereira, representa mais do que o fim de um jejum de sete partidas. Ao apresentar uma atuação competitiva fora de casa, pressionar o adversário e controlar boa parte do segundo tempo, a equipe de Renato Portaluppi mostrou sinais de recuperação justamente quando a margem para erros se torna cada vez menor na luta contra o rebaixamento.
O resultado teve importância tanto pela pontuação quanto pela maneira como foi construído. Em uma partida na qual o Grêmio precisou conviver com erros técnicos e dificuldades para transformar o volume ofensivo em gols, a equipe sustentou a pressão, manteve a intensidade e encontrou a solução nos acréscimos, quando Martin Braithwaite aproveitou uma jogada aérea para garantir os três pontos. A primeira vitória gremista como visitante neste Brasileirão interrompe uma sequência negativa e devolve ao time a possibilidade de reagir na classificação.
A atuação, contudo, não elimina os problemas que conduziram o clube a essa situação. O Grêmio ainda depende de maior eficiência nas finalizações e de uma execução técnica mais consistente para transformar o domínio em resultados menos dramáticos. A diferença em relação às partidas anteriores esteve na capacidade de sustentar a iniciativa mesmo quando os erros ameaçavam comprometer o desempenho. Em uma disputa na qual cada rodada pode alterar o cenário, essa mudança de comportamento pode ser tão importante quanto o placar.
Renato acerta na formação e encontra alternativas para pressionar o Coritiba
A escolha de Renato Portaluppi por uma formação com três zagueiros e Krovinovic fora da escalação inicial foi um dos fatores que ajudaram o Grêmio a competir melhor. A equipe conseguiu ocupar o campo ofensivo, pressionar a saída de bola do Coritiba e criar situações de perigo sem depender exclusivamente de ataques em velocidade. Mesmo atuando fora de casa, o Tricolor demonstrou disposição para assumir o controle da partida e não se limitou a esperar por uma oportunidade isolada.
O primeiro tempo, porém, mostrou que o domínio não seria suficiente para garantir tranquilidade. O Coritiba encontrou espaços para atacar e exigiu intervenções importantes de Weverton, que evitou que os mandantes abrissem o placar. Do outro lado, Pedro Morisco também teve participação decisiva para impedir que o Grêmio convertesse suas oportunidades. O equilíbrio nas intervenções dos goleiros refletiu uma etapa em que as duas equipes conseguiram chegar à área adversária, embora os visitantes tenham demonstrado maior capacidade de manter a pressão ao longo do confronto.
A diferença apareceu principalmente na disposição gremista para continuar atacando. O time não se desorganizou depois das oportunidades desperdiçadas e conseguiu levar a partida para um cenário mais favorável na etapa final, quando o Coritiba passou a ter dificuldades para sair de seu campo. A formação escolhida por Renato ofereceu sustentação para que os jogadores avançassem, enquanto as mudanças realizadas durante o jogo ajudaram a preservar a presença ofensiva.
A decisão de terminar a partida com dois centroavantes foi especialmente importante. Em um confronto no qual o Grêmio já acumulava cruzamentos e encontrava dificuldades para construir jogadas pelo chão, aumentar a presença na área representava uma maneira coerente de explorar uma das características físicas da equipe. A estratégia acabou recompensada nos acréscimos, quando a bola aérea decidiu o resultado.
O acerto de Renato não significa que todas as escolhas tenham funcionado perfeitamente, mas demonstra que o treinador conseguiu adaptar a equipe às necessidades da partida. Diante de um adversário que recuou sob pressão, manter alternativas de ataque e insistir na ocupação da área foi fundamental para evitar que o Grêmio saísse de campo com mais um resultado frustrante.
A entrega física compensou os erros técnicos, mas a eficiência continua sendo um problema
Se a atuação apresentou sinais de evolução, os problemas de execução permaneceram evidentes. Pavon e Enamorado desperdiçaram oportunidades e voltaram a mostrar dificuldades para concluir as jogadas, enquanto Marlon e Villasanti ficaram abaixo do nível técnico necessário para dar maior fluidez ao time. Os erros de passe também impediram que o Grêmio aproveitasse melhor os espaços criados pela pressão e transformasse a superioridade territorial em uma vantagem no placar.
Essa ineficiência quase custou caro. Ao não marcar durante boa parte do confronto, o Tricolor manteve o Coritiba vivo e precisou continuar buscando o gol até os minutos finais. Em jogos de permanência, esse tipo de cenário aumenta a margem de risco, porque uma oportunidade adversária pode anular todo o esforço realizado para controlar a partida. O Grêmio teve capacidade para evitar esse desfecho, mas não deveria depender de um gol nos acréscimos para confirmar uma atuação superior.
A diferença em relação a outras partidas esteve na resposta física e competitiva. Mesmo sem apresentar precisão em todos os setores, a equipe manteve a intensidade e continuou pressionando. As substituições não retiraram o time do campo ofensivo, e a insistência impediu que o Coritiba encontrasse conforto para administrar o empate. O Grêmio sustentou o ritmo até o fim, algo que ganha relevância depois de uma sequência de sete jogos sem vitória.
A bola aérea foi decisiva nesse contexto. Com dois centroavantes em campo, o time ampliou as possibilidades de ataque e conseguiu aproveitar o cruzamento que terminou no cabeceio de Braithwaite. O gol não foi apenas o resultado de uma jogada bem executada, mas também da decisão de manter jogadores em condições de disputar a bola dentro da área até o último instante.
Ainda assim, a vitória não deve esconder a necessidade de evolução técnica. O esforço físico pode sustentar uma equipe durante uma partida, mas dificilmente será suficiente para garantir uma sequência de resultados positivos se os erros de passe e finalização continuarem se repetindo. Para escapar do rebaixamento, o Grêmio precisará combinar a intensidade demonstrada no Couto Pereira com mais qualidade nas decisões perto da área.
Amuzu e Braithwaite mostram que a solução pode vir de diferentes peças
A construção do gol também ajuda a compreender uma das particularidades do Grêmio nesta fase da temporada: a equipe encontrou uma solução ofensiva a partir de jogadores estrangeiros, apesar das críticas recentes de Renato à busca por atletas de fora do país. A jogada começou com Krovinovic, que cobrou um escanteio curto para Amuzu. O belga avançou e cruzou para Braithwaite, dinamarquês que apareceu para finalizar de cabeça e decidir a partida.
A participação dos três reforça a importância de encontrar funções claras para os jogadores disponíveis, independentemente de sua nacionalidade. Amuzu foi um dos destaques ofensivos do Grêmio, oferecendo profundidade e capacidade para criar jogadas pelos lados. Braithwaite, por sua vez, aproveitou a presença na área para transformar uma das oportunidades finais em gol. Krovinovic também teve participação na construção, mesmo sem iniciar a partida entre os titulares.
O desempenho de Amuzu merece atenção porque o atacante conseguiu oferecer uma alternativa em um setor no qual o Grêmio teve dificuldades para concluir as jogadas. Sua participação no lance decisivo foi consequência de uma atuação em que procurou criar situações de perigo e ajudar a equipe a manter o adversário recuado. Em uma reta final de campeonato, encontrar jogadores capazes de produzir soluções diferentes pode ser determinante para um time que precisa pontuar com regularidade.
O gol de Braithwaite também evidencia como a presença de dois centroavantes pode ser útil em partidas nas quais a equipe precisa atacar uma defesa fechada. A opção não resolve todos os problemas de construção, mas oferece mais alvos para os cruzamentos e aumenta as possibilidades de disputar a segunda bola. Diante da dificuldade gremista para encontrar espaços pelo chão, essa alternativa se mostrou eficaz.
A permanência na Série A, caso seja alcançada, dependerá de um esforço coletivo e de uma evolução que não pode ser atribuída a apenas um jogador. Ainda assim, o confronto contra o Coritiba mostrou que o Grêmio pode encontrar respostas dentro do próprio elenco quando as escolhas táticas favorecem as características de seus atletas.
A vitória muda o ambiente, mas o confronto com o Athletico será decisivo
O resultado no Couto Pereira devolve ao Grêmio a possibilidade de enxergar a tabela com menos pessimismo. A equipe encerrou o jejum, conquistou seus primeiros três pontos como visitante no Brasileirão e demonstrou que pode competir mesmo longe da Arena. Mais importante, o desempenho oferece uma referência concreta para a sequência: pressionar o adversário, manter a intensidade e utilizar as alternativas ofensivas disponíveis sem abandonar a organização.
O próximo compromisso, contra o Athletico, na quinta-feira, será uma oportunidade para confirmar que a vitória não foi um episódio isolado. Jogar na Arena pode oferecer ao Grêmio um ambiente favorável, mas a vantagem de atuar em casa precisará ser acompanhada por uma execução mais eficiente. Se repetir a capacidade de pressionar demonstrada em Curitiba e melhorar o aproveitamento das chances, o Tricolor terá condições de buscar mais um resultado importante.
A rodada também pode favorecer mudanças na classificação. Antes de entrar em campo, o Grêmio já conhecerá o resultado do Internacional, que enfrenta o Fluminense na quarta-feira, enquanto o Mirassol terá pela frente o Corinthians na sexta. Dependendo dessa combinação de resultados e do próprio desempenho, o Tricolor poderá reduzir a distância para os concorrentes diretos e até deixar a zona de rebaixamento.
Essa possibilidade não deve ser confundida com uma garantia de recuperação. A situação continua delicada, e uma vitória não apaga os pontos perdidos ao longo da sequência negativa. O que muda é a perspectiva: em vez de depender apenas de uma reação improvável, o Grêmio passa a ter uma atuação recente que pode servir de base para tentar construir uma sequência positiva.
O triunfo sobre o Coritiba foi importante porque reuniu resultado e desempenho em um momento no qual o clube precisava dos dois. A equipe ainda erra demais, mas demonstrou disposição para insistir, capacidade de adaptação e alternativas para pressionar até o fim. Se conseguir transformar essas características em regularidade, a luta contra o rebaixamento poderá ganhar novos contornos. A chama da esperança voltou a acender no Couto Pereira; agora, caberá ao Grêmio mantê-la viva diante do Athletico.
(Foto: Lucas Uebel/Grêmio)



