Fluminense venceu, somou pontos importantes na Libertadores e conseguiu respirar um pouco, mas a verdade é que o desempenho recente do time continua deixando um sinal de alerta gigantesco sobre o trabalho de Luis Zubeldía. Porque uma coisa é ganhar jogando bem, controlando espaços e transmitindo segurança. Outra completamente diferente é sobreviver nas partidas enquanto depende de lampejos individuais e de gols quase milagrosos de John Kennedy para escapar de problemas ainda maiores.
Vitória é vitória. No futebol brasileiro, principalmente em um calendário que parece criado por alguém que odeia jogadores profissionalmente, vencer quase sempre traz paz. Mas nem sempre traz confiança. E o Fluminense sabe muito bem disso neste momento da temporada, ainda mais numa situação que é necessária domínio da sua parte para viver as oitavas de final da Liberta.
Hoje, o time parece uma equipe que perdeu parte da própria identidade dentro de campo. E existe um ponto muito claro que ajuda a explicar essa queda brusca de rendimento: a ausência de Martinelli.
A lesão de Martinelli desmontou boa parte do funcionamento do Fluminense
Muito se fala sobre centroavantes, goleiros e pontas decisivos, mas alguns jogadores só mostram o tamanho da importância quando deixam de atuar. E Martinelli virou exatamente esse caso dentro do Fluminense.
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Antes da lesão, o volante era praticamente o motor silencioso do time de Zubeldía. Era ele quem dava dinâmica para a saída de bola, quebrava linhas com conduções inteligentes e ajudava o Fluminense a acelerar transições de maneira mais limpa. E isso faz muita diferença dentro da ideia de jogo do treinador argentino.
Zubeldía gosta de times agressivos em transição. Times que recuperam a bola e atacam espaços rapidamente. O problema aparece quando o adversário simplesmente se fecha completamente e entrega a posse para o Fluminense.
Sem Martinelli, o time perdeu criatividade no setor central.
A circulação de bola ficou mais lenta, previsível e menos vertical. O Fluminense passou a rodar muito mais a bola sem conseguir realmente machucar o adversário. É aquele famoso domínio que ilude. O torcedor olha a posse de bola, mas percebe que o time cria pouco perigo real.
E quando a transição não encaixa, os problemas começam a aparecer de todos os lados.
O setor ofensivo fica mais isolado, os atacantes recebem menos em condições favoráveis e o time acaba ficando emocionalmente dependente de jogadas individuais. É justamente aí que John Kennedy virou praticamente um “salva-vidas” constante do trabalho de Zubeldía.
Porque sejamos sinceros: sem os gols decisivos do atacante em alguns momentos recentes, talvez a pressão no treinador já tivesse explodido de vez nas Laranjeiras, estaria bem maior do que a realidade atual permite.
Defesa piorou muito e Fluminense deixou de transmitir segurança
Se ofensivamente o time perdeu fluidez, defensivamente a situação também está longe de empolgar.
O nível da defesa caiu bastante nas últimas semanas e isso aparece tanto visualmente quanto nos números de gols sofridos. O Fluminense passou a ser vazado com frequência muito maior e, pior do que isso, transmite uma sensação constante de instabilidade.
A impressão é de que qualquer ataque minimamente organizado consegue criar perigo.
E algumas mudanças feitas por Zubeldía deixam isso ainda mais evidente. Jemmes, que em determinado momento parecia ganhar espaço na rotação defensiva, acabou perdendo terreno e virou reserva. Ignácio assumiu mais protagonismo no setor, justamente numa tentativa do treinador de buscar mais firmeza defensiva.
Só que o problema não parece ser apenas individual.
Existe uma desorganização coletiva em vários momentos do jogo. A linha defensiva sofre quando o time perde a bola, os encaixes de marcação nem sempre funcionam e o meio-campo já não protege como antes. Sem Martinelli ajudando tanto na recomposição e na saída limpa, o efeito dominó atingiu praticamente toda a estrutura da equipe.
E talvez esse seja o maior problema do Fluminense atualmente: o time parece emocionalmente frágil dentro das partidas. Quando sofre pressão, se perde. Quando leva um gol, oscila. Quando precisa controlar vantagem, passa sufoco desnecessário.
Não é à toa que boa parte da torcida ainda sai dos jogos com aquela sensação clássica de “ganhou, mas não convenceu”.
Zubeldía ainda pode encontrar soluções, mas tempo começa a virar inimigo
Apesar das críticas, ainda parece cedo para cravar que Zubeldía perdeu completamente o controle da situação. Existe contexto para alguns problemas do Fluminense, principalmente pela lesão de uma peça tão importante quanto Martinelli.
Só que o futebol brasileiro raramente oferece paciência.
O calendário aperta, a cobrança aumenta e resultados começam a virar anestesia temporária. Uma vitória segura o ambiente por alguns dias, mas não apaga os problemas estruturais que seguem aparecendo dentro de campo. Zubeldía ainda pode encontrar soluções? Sim.
O treinador já mostrou em outros momentos da carreira capacidade de reorganizar equipes e ajustar problemas táticos durante temporadas complicadas. O desafio agora é reconstruir o funcionamento coletivo sem uma peça que fazia praticamente tudo no meio-campo.
Talvez o caminho passe por diminuir um pouco a obsessão pela transição rápida em jogos onde o adversário claramente vai defender baixo. Talvez o Fluminense precise trabalhar mais paciência com bola, aproximar melhor os jogadores entrelinhas e criar mecanismos diferentes de construção ofensiva.
Porque atualmente o time parece viver de aceleração o tempo inteiro. E quando não consegue correr, trava.
Além disso, Zubeldía também precisa recuperar a confiança defensiva do elenco. Nenhum time consegue brigar em alto nível durante muito tempo sofrendo gols em sequência e vivendo constantemente no limite emocional das partidas.
No fim das contas, o Fluminense vive aquele momento clássico do futebol brasileiro onde o resultado ainda impede uma crise maior, mas o desempenho continua gritando problemas. E no futebol, quase sempre existe uma frase perigosa escondida nisso tudo:
uma hora, a vitória para de mascarar as falhas.
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