Thomaz Bellucci Madrid 2011 João Fonseca
Tenis

Fonseca x Sinner: 3 vezes em que brasileiros derrotaram ex-números 1 do mundo

O duelo entre João Fonseca e Jannik Sinner, marcado para esta terça-feira no Masters 1000 de Indian Wells, representa muito mais do que uma simples partida de tênis. Para o jovem brasileiro, enfrentar um dos principais nomes da nova geração do circuito mundial significa entrar em um território que historicamente produziu alguns dos momentos mais marcantes do tênis brasileiro.

Ao longo das últimas décadas, poucas vezes jogadores do país conseguiram derrotar tenistas que já ocuparam o posto de número 1 do mundo. Quando isso acontece, porém, o impacto costuma ser grande, tanto em termos simbólicos quanto esportivos.

A história mostra que esses confrontos frequentemente carregam um peso especial. Não apenas pela diferença de ranking que geralmente separa os jogadores, mas também pelo significado que uma vitória desse tipo pode ter para a carreira de um tenista em ascensão como Fonseca. Em muitos casos, foi justamente enfrentando gigantes do circuito que brasileiros produziram algumas de suas atuações mais memoráveis.

Confira 3 vezes em que os brasileiros derrotaram ex-números 1 do mundo:

1 – Gustavo Kuerten vence André Agassi (Memphis, 1997)

Um dos exemplos mais emblemáticos aconteceu em 1997, quando Gustavo Kuerten ainda era um jovem promissor tentando se firmar no circuito profissional. Naquele momento, o brasileiro estava longe de ser considerado um dos grandes nomes do tênis mundial. Mesmo assim, conseguiu uma vitória impressionante sobre Andre Agassi, que já havia ocupado o topo do ranking da ATP.

O confronto aconteceu no torneio de Memphis, nos Estados Unidos, e revelou muito do que viria a se tornar a marca registrada de Kuerten: agressividade nas trocas de fundo de quadra, confiança no saque e coragem para enfrentar adversários de elite. Na ocasião, o brasileiro venceu em sets diretos e chamou atenção pela forma dominante como controlou a partida. Kuerten chegou a disparar 18 aces e venceu a grande maioria dos pontos com o primeiro serviço, deixando claro que não estava intimidado pelo adversário mais experiente.

O triunfo acabou sendo visto posteriormente como um prenúncio do que viria poucos meses depois. Ainda em 1997, Kuerten protagonizaria um dos contos de fadas mais famosos da história do tênis ao conquistar o título de Roland Garros, transformando-se no primeiro brasileiro campeão de um Grand Slam masculino. A vitória sobre Agassi, portanto, se tornou um dos primeiros capítulos de uma trajetória que levaria o catarinense ao posto de número 1 do mundo alguns anos mais tarde.

2 – Thomaz Bellucci vence Andy Murray (Madrid, 2011)

Quase duas décadas depois, outro brasileiro também conseguiu um triunfo marcante contra um jogador que se tornaria número 1 do ranking. Em 2011, Thomaz Bellucci derrotou Andy Murray no Masters 1000 de Madrid. Naquele momento, Murray ainda não havia alcançado o topo do ranking, algo que aconteceria em 2016, mas já era um dos nomes mais respeitados do circuito e integrante do chamado “Big Four”, grupo que dominou o tênis masculino durante mais de uma década.

Bellucci, especialista em saibro, fez uma das melhores partidas de sua carreira naquele dia. Apostando em seu pesado forehand de esquerda e em trocas longas de fundo de quadra, o brasileiro conseguiu controlar o ritmo do jogo e venceu por 6-4 e 6-2. Foi uma vitória simbólica para o tênis brasileiro, que naquela época buscava novos protagonistas após a aposentadoria de Kuerten.

3 – Thiago Seyboth Wild vence Daniil Medvedev (Roland Garros, 2023)

Outro capítulo importante dessa história aconteceu em 2023, quando Thiago Seyboth Wild protagonizou uma das maiores zebras recentes de um Grand Slam. Na primeira rodada de Roland Garros, o brasileiro derrotou Daniil Medvedev, que já havia sido número 1 do mundo e chegava ao torneio como cabeça de chave número dois.

A partida foi uma verdadeira maratona, com mais de quatro horas de duração. Wild, que entrou no torneio como qualifier e estava fora do top 150 do ranking, apresentou um jogo extremamente agressivo, especialmente com a direita. O brasileiro acumulou winners e pressionou o russo durante grande parte do confronto, conseguindo uma vitória por 3 sets a 2 diante de uma das principais estrelas do circuito.

O resultado foi considerado uma das maiores surpresas daquele Roland Garros e também representou a primeira vitória de Wild em uma chave principal de Grand Slam. Ele chegaria à terceira rodada daquele torneio, mas não conseguiria repetir esse sucesso depois.

O que esperar de Fonseca x Sinner?

É justamente dentro desse contexto histórico que o duelo entre João Fonseca e Jannik Sinner ganha ainda mais significado. Fonseca é considerado a maior promessa do tênis brasileiro desde a geração de Kuerten. Muito jovem, ele já conquistou títulos importantes nas categorias de base e começou a dar seus primeiros passos no circuito profissional.

Enfrentar um jogador do calibre de Sinner representa um teste importante nesse processo de amadurecimento para Fonseca. O italiano se consolidou como um dos grandes nomes da nova geração do tênis mundial, com um estilo de jogo baseado em potência, intensidade nas trocas de bola e grande capacidade de acelerar o ritmo das partidas.

Para Fonseca, o desafio será lidar com a pressão e com o ritmo imposto por um adversário acostumado a disputar finais de grandes torneios. Ao mesmo tempo, confrontos como esse também oferecem uma oportunidade rara para jovens jogadores mostrarem seu potencial.

A história do tênis brasileiro mostra que partidas contra ex-números 1 ou líderes do ranking frequentemente funcionam como momentos de virada na carreira de um atleta. Foi assim com Kuerten em 1997, com Bellucci em Roma e com Seyboth Wild em Roland Garros.

Agora, cabe a João Fonseca tentar escrever seu próprio capítulo nessa tradição. Independentemente do resultado, enfrentar um dos melhores jogadores do mundo já representa um passo importante em sua trajetória. Mas, se conseguir repetir o roteiro de outros brasileiros no passado, o duelo desta terça-feira pode se transformar em mais um momento memorável do tênis nacional.

(Foto: Getty Images)