No calendário da Formula 1, existem datas que entram para a história por aquilo que aconteceu. Outras, mais raras, permanecem marcadas exatamente pelo contrário. O dia 5 de abril de 2020 pertence a essa segunda categoria: uma corrida que nunca largou, mas que ainda assim deixou marcas profundas.
Naquela manhã, tudo deveria ser estreia. Um novo país, um novo circuito, uma nova aposta da Fórmula 1 em expandir suas fronteiras. O GP do Vietnã, em Hanói, era mais do que uma corrida: era um símbolo. Um projeto ambicioso, construído ao longo de anos, que representava o desejo da categoria de se reinventar sob a gestão da Liberty Media.
O circuito estava pronto. As arquibancadas, montadas. O traçado, desenhado pelo onipresente Hermann Tilke, combinava trechos urbanos com seções permanentes, numa tentativa de criar identidade própria em meio às referências clássicas. Havia curvas que lembravam Nürburgring, sequências inspiradas em Suzuka, lembranças de Mônaco. Era, de certa forma, um mosaico da própria Fórmula 1 condensado em 5,6 quilômetros.
E, no entanto, não havia carros.
A pandemia e o caos político da Fórmula 1
O silêncio que tomou conta de Hanói naquele início de abril não foi casual. Foi global. Enquanto o mundo se fechava, fronteiras eram erguidas e aviões deixavam de decolar, a Fórmula 1, um esporte que depende do movimento constante, parava. O cancelamento da etapa na Austrália, poucos dias antes, já havia acendido o alerta. Mas ainda havia esperança.
O Vietnã, naquele momento, parecia ter controlado os primeiros impactos da pandemia. Havia conversas, planos alternativos, possibilidades de remarcação. O calendário de 2020, que começara com 22 corridas previstas, rapidamente se transformava em um quebra-cabeça impossível. E Hanói, peça nova demais, acabou ficando de fora.
Oficialmente, foi a pandemia. E, de fato, ela foi o primeiro golpe. Mas não o último.
Nos bastidores, enquanto o mundo tentava entender o alcance da crise sanitária, outra história se desenrolava, menos visível, mas igualmente decisiva. Nguyễn Đức Chung, figura central na articulação do Grande Prêmio, foi preso sob acusações de corrupção. Não relacionadas diretamente à Fórmula 1, é verdade, mas suficientes para desestabilizar todo o projeto.
Em eventos desse porte, a política não é coadjuvante. Ela é estrutura. Sem apoio institucional sólido, não há corrida, não há calendário, não há continuidade. E, de repente, Hanói perdeu seu principal defensor.
O efeito foi imediato. A corrida, que já havia sido adiada, desapareceu do calendário de 2021. Diferentemente de outras etapas que conseguiram retornar após o choque inicial da pandemia, o Vietnã não teve uma segunda chance. Talvez porque o tempo, no esporte, como na política, seja implacável.
O que aconteceu com o circuito de Hanói?
Hoje, o circuito ainda existe. As ruas continuam lá, as curvas desenhadas, os trechos largos esperando por algo que nunca chegou. Mas falta o essencial: o som. O barulho dos motores, o movimento das equipes, a tensão de um domingo de corrida. Falta vida.
O que resta é uma espécie de monumento ao que poderia ter sido. A Fórmula 1 sempre teve essa relação curiosa com o futuro. Está constantemente buscando novos mercados, novas cidades, novos públicos. Hanói era parte desse plano maior, era uma tentativa de levar o esporte para além de seus territórios tradicionais, de conectar velocidade com crescimento econômico, turismo, visibilidade global.
Mas planos, por mais bem desenhados que sejam, não existem no vácuo. Dependem de estabilidade, de contexto, de circunstâncias que nem sempre podem ser controladas. No caso do Vietnã, tudo parecia alinhado até deixar de estar.
A pandemia expôs a fragilidade de um calendário global que depende de logística precisa. A crise política revelou o quanto grandes eventos são sustentados por figuras-chave, muitas vezes invisíveis ao público. Juntas, essas forças criaram uma tempestade perfeita, e a corrida nunca aconteceu.
Há algo de melancólico nisso. Não apenas pela perda esportiva, mas pela sensação de interrupção. Como um filme que termina antes do primeiro ato, como uma história que não teve tempo de começar.
Na Fórmula 1, onde cada segundo conta, Hanói virou um espaço fora do tempo. Não há voltas registradas, não há vencedores, não há estatísticas. Apenas expectativa interrompida.
E talvez seja por isso que essa “não corrida” seja tão lembrada. Porque, no fim, o esporte também é feito de ausências. De oportunidades perdidas, de caminhos que não se concretizam. E, entre todas as corridas canceladas em 2020, nenhuma carrega um simbolismo tão completo quanto a de Hanói.
Ela não foi apenas adiada. Ela foi esquecida antes mesmo de começar.
(Foto: Getty Images)