A Fórmula 1 encontrou uma solução inesperada para preencher uma das lacunas mais delicadas do calendário de 2026. Depois de deixar a categoria em 2017, o Circuito de Sepang está de volta ao campeonato, mas não com o tradicional Grande Prêmio da Malásia.
Em uma decisão incomum, a pista receberá o Grande Prêmio do Bahrein, em um acordo que nasceu da instabilidade no Oriente Médio e acabou levando a categoria novamente ao Sudeste Asiático.
Sepang retorna à Fórmula 1 nove anos depois de uma saída sem arrependimentos
A saída da Malásia do calendário, em 2017, aconteceu em um momento em que o país já não via a Fórmula 1 como um investimento suficientemente atrativo. Naquele período, a Liberty Media estava apenas começando sua gestão dos direitos comerciais da categoria e buscava expandir o campeonato para grandes cidades e novos mercados, com projetos como Miami e Las Vegas. A Malásia, porém, não demonstrava interesse em continuar pagando os altos custos associados à realização de uma etapa.
Razlan Razali, então CEO do Circuito Internacional de Sepang, chegou a afirmar que não considerava a Fórmula 1 um produto suficientemente atraente para justificar taxas de hospedagem que poderiam superar US$ 40 milhões por ano. O dirigente também declarou que não aceitaria receber a categoria nem mesmo de graça. “É difícil vender esse tipo de evento e colocar pessoas nas arquibancadas. Não vale o investimento neste momento”, afirmou Razali.
O cenário, no entanto, mudou completamente nos anos seguintes. O crescimento da Fórmula 1 transformou a realidade comercial da categoria. As corridas passaram a atrair públicos cada vez maiores, enquanto a audiência e as receitas das equipes também cresceram. O que em 2017 parecia um evento difícil de vender passou a ser um dos produtos esportivos mais disputados do mundo. Agora, Sepang retorna justamente em um momento em que a Fórmula 1 precisa de alternativas para manter seu calendário de pé.
Conflito no Oriente Médio muda os planos e abre espaço para uma solução inesperada
A etapa que será realizada na Malásia terá o nome oficial de Formula 1 Gulf Air Bahrain Grand Prix in Malaysia e está marcada para 4 de outubro, entre as corridas do Azerbaijão e de Singapura. O retorno de Sepang foi diretamente influenciado pelo cancelamento do Grande Prêmio do Bahrein. A corrida, inicialmente prevista para abril, foi retirada do calendário após o agravamento do conflito no Oriente Médio. A etapa da Arábia Saudita também acabou cancelada.
A Fórmula 1 inicialmente deixou aberta a possibilidade de recuperar uma ou ambas as corridas caso a situação política e de segurança permitisse. Havia, inclusive, razões logísticas e financeiras para tentar realizar novamente esses eventos. Bahrein e Arábia Saudita estão entre as corridas que pagam algumas das maiores taxas de hospedagem do calendário, com valores estimados em mais de US$ 50 milhões por ano. O retorno de qualquer uma delas teria ajudado a reduzir o impacto financeiro provocado pelos cancelamentos.
Durante um período de cessar-fogo em junho, a possibilidade de o Bahrein voltar ao calendário chegou a ganhar força. A localização também era conveniente, já que o país poderia servir como uma parada entre o Azerbaijão e Singapura. No entanto, a retomada das hostilidades na região acabou encerrando essa possibilidade. Com a situação ainda considerada instável, a Fórmula 1 precisou abandonar definitivamente o plano de realizar a corrida no Bahrein em 2026.
Por que a Fórmula 1 escolheu Sepang para preencher o calendário?
Com as equipes precisando de uma definição antes da pausa de verão, a categoria começou a analisar alternativas. A geografia foi um dos fatores mais importantes. Uma corrida na Europa não faria sentido para preencher o espaço entre Azerbaijão e Singapura. Se a opção do Oriente Médio estivesse descartada, o substituto precisaria estar em uma região que facilitasse a logística entre as duas etapas.
A Malásia rapidamente passou a ser uma candidata natural. O Circuito de Sepang manteve sua certificação Grau 1 da FIA, o que significa que estava apto a receber uma etapa da Fórmula 1 sem a necessidade de grandes obras ou mudanças estruturais. Além disso, a pista continuou recebendo grandes eventos do automobilismo desde a saída da Fórmula 1. O circuito permaneceu no calendário da MotoGP, mantendo experiência na organização de competições internacionais de alto nível.
Sepang também oferece características que sempre foram apreciadas pelos pilotos. Suas curvas longas e rápidas, combinadas com boas oportunidades de ultrapassagem, fizeram do circuito um dos mais respeitados do calendário durante sua passagem pela Fórmula 1. A escolha também atende ao interesse estratégico da categoria de ampliar sua presença na Ásia. A região já conta com corridas na China, no Japão e em Singapura, e a volta da Malásia fortalece ainda mais a presença da Fórmula 1 no mercado asiático.
Por que a corrida será chamada de GP do Bahrein, mesmo sendo disputada na Malásia?
As negociações avançaram rapidamente e o acordo foi construído com a participação da Fórmula 1 e dos governos da Malásia e do Bahrein. O primeiro-ministro malaio, Datuk Seri Anwar Ibrahim, já havia indicado que um anúncio relacionado à Fórmula 1 estava próximo. Posteriormente, os dois governos trabalharam junto à categoria para viabilizar a realização da corrida.
No anúncio, tanto o príncipe herdeiro do Bahrein quanto o primeiro-ministro da Malásia destacaram as relações próximas entre os dois países como parte importante para a construção do acordo. É justamente por isso que a corrida não será chamada de Grande Prêmio da Malásia.
A solução encontrada permite que o Bahrein mantenha uma etapa associada ao seu nome no calendário de 2026, enquanto a Malásia fornece o circuito, a estrutura e a localização necessários para que a corrida aconteça. A decisão pode parecer estranha à primeira vista, mas representa uma solução prática para uma situação bastante complexa.
O retorno de Sepang mostra como a Fórmula 1 mudou desde 2017
O retorno da Malásia também simboliza a transformação da Fórmula 1 desde a última corrida em Sepang. Em 2017, o país considerava que os custos para receber a categoria não compensavam o retorno. Hoje, porém, o cenário é completamente diferente. A demanda para sediar uma corrida aumentou significativamente, e a Fórmula 1 passou a ter muito mais opções quando precisa preencher uma vaga no calendário.
A categoria já demonstrou, em períodos de crise, que consegue recorrer rapidamente a circuitos preparados para assumir etapas. Foi assim durante a pandemia de Covid-19, quando pistas como Portimão, Istanbul Park e Imola ajudaram a manter o campeonato em funcionamento. Agora, Sepang assume novamente esse papel.
O circuito não apenas possui a estrutura necessária para receber a Fórmula 1, como também está estrategicamente localizado para preencher o espaço entre Azerbaijão e Singapura. O resultado é uma das histórias mais curiosas do calendário de 2026: a Fórmula 1 volta à Malásia, mas a corrida será oficialmente o Grande Prêmio do Bahrein. Um acordo incomum, criado por uma crise no Oriente Médio e facilitado pela evolução de um campeonato que, nove anos depois, voltou a enxergar Sepang como uma solução valiosa.
Foto: (Globo Esporte)



