A França começou sua caminhada na Copa do Mundo de 2026 com um resultado positivo. Nesta terça-feira (16), a seleção venceu Senegal por 3 a 1 e confirmou o favoritismo no confronto. Com um elenco recheado de talento e acostumado a disputar as fases mais importantes das grandes competições, os franceses aparecem novamente entre os principais candidatos ao título.
O cenário atual, porém, é muito diferente daquele que a seleção viveu há cerca de duas décadas. Hoje, a França chega a uma Copa do Mundo cercada de confiança, possuindo uma base consolidada e carregando a experiência de quem conquistou o Mundial recentemente. Mas houve um período em que a situação era bem diferente.
A verdade é que a seleção francesa precisou passar por momentos extremamente complicados para chegar onde está hoje. Entre o fim da geração liderada por Zinedine Zidane e a conquista da Copa do Mundo de 2018, o país enfrentou derrotas dolorosas, crises internas e uma reconstrução que levou anos para dar resultado.
Sendo assim, quando a França entra em campo como uma das favoritas ao título em 2026, existe uma história importante por trás desse status.
França enfrentou um período muito complicado após 2006
A Copa do Mundo de 2006 parecia preparada para entregar uma despedida perfeita para Zidane. Principal referência da seleção francesa, o camisa 10 conduziu a equipe até a final contra a Itália e estava muito perto de encerrar sua carreira levantando mais uma taça importante.
Inclusive, o início daquela decisão parecia reforçar esse roteiro. Zidane abriu o placar cobrando pênalti com categoria e ajudou a França a competir de igual para igual em uma partida extremamente equilibrada. No entanto, tudo mudou durante a prorrogação.
Após uma discussão com Marco Materazzi, Zidane reagiu de maneira inesperada e acertou uma cabeçada no defensor italiano. O lance rapidamente se transformou em um dos momentos mais marcantes da história das Copas do Mundo. Expulso, o craque deixou o gramado antes do fim da partida e viu seus companheiros serem derrotados nos pênaltis.
Naquele momento, a França não perdeu apenas uma final. Também se despediu da principal figura de uma geração extremamente vencedora. O grande problema é que substituir Zidane se mostrou muito mais difícil do que muitos imaginavam.
Nos anos seguintes, a seleção passou a apresentar dificuldades dentro de campo e não conseguiu encontrar rapidamente uma nova identidade. A Eurocopa de 2008 terminou com eliminação ainda na fase de grupos, desempenho abaixo das expectativas e a sensação de que a equipe estava ficando para trás em relação às outras potências do futebol mundial. E, para piorar as coisas, a situação ficaria ainda mais complicada.
Na Copa do Mundo de 2010, disputada na África do Sul, a França viveu uma das maiores crises de sua história. Após a derrota para o México, Nicolas Anelka protagonizou uma forte discussão com o técnico Raymond Domenech durante o intervalo da partida. O conteúdo da conversa acabou vazando para a imprensa francesa e rapidamente ganhou enorme repercussão no país.
Diante da polêmica, a Federação Francesa decidiu expulsar Anelka da delegação. No entanto, a medida acabou aumentando ainda mais a tensão dentro do grupo. Parte dos jogadores demonstrou insatisfação com a decisão e passou a apoiar publicamente o atacante, evidenciando o desgaste da relação entre elenco e dirigentes.
Poucos dias depois, a situação atingiu seu ponto mais crítico. Em protesto contra a expulsão de Anelka, os jogadores se recusaram a participar de um treinamento e permaneceram dentro do ônibus da seleção diante das câmeras do mundo inteiro. A cena se transformou em um símbolo do caos vivido pela França naquela Copa do Mundo e ajudou a consolidar uma das páginas mais turbulentas da história da equipe nacional.
A seleção que poucos anos antes disputava finais de Copa do Mundo passou a ser lembrada por crises internas e uma evidente falta de direção. Neste cenário, reconstruir a equipe deixou de ser apenas uma necessidade esportiva, se tornando tornando também uma questão de recuperar a credibilidade de uma das camisas mais pesadas do futebol internacional.
França se reconstruiu e voltou ao topo do futebol mundial
A reconstrução francesa não aconteceu da noite para o dia. O processo foi gradual e exigiu mudanças importantes dentro da seleção. Laurent Blanc teve participação nesse início de recuperação, ajudando a reorganizar parte da estrutura após o caos vivido em 2010. No entanto, foi com Didier Deschamps que o projeto ganhou força de verdade.
Campeão mundial pela França como jogador, Deschamps assumiu a seleção em 2012 e trouxe uma característica que se tornaria fundamental para os anos seguintes: a valorização do coletivo.
A França deixou de ser uma equipe excessivamente dependente de individualidades e passou a funcionar de forma mais organizada. Nem sempre era a seleção mais vistosa ou a que apresentava o futebol mais bonito, mas se tornou um time extremamente competitivo.
Neste cenário, os primeiros sinais dessa evolução apareceram na Copa do Mundo de 2014. A eliminação para a Alemanha nas quartas de final trouxe frustração, mas também mostrou que os franceses estavam voltando a competir em alto nível. Dois anos depois, veio outro momento importante.
Na Eurocopa de 2016, disputada em território francês, a seleção chegou até a decisão. A derrota para Portugal foi dolorosa, principalmente por acontecer dentro de casa. Porém, ao contrário do que aconteceu em outros momentos da história recente, aquele resultado não provocou uma nova crise.
A França demonstrou maturidade para absorver a decepção e seguir trabalhando. Isso acabou sendo fundamental para o que aconteceria pouco tempo depois.
Na Copa do Mundo de 2018, disputada na Rússia, os franceses conquistaram o título mundial pela segunda vez em sua história. Com nomes como Mbappé, Griezmann, Pogba, Kanté, Varane e Lloris, a equipe encontrou o equilíbrio ideal entre talento e organização. Mais do que os grandes jogadores, chamava atenção a forma como o time funcionava coletivamente sob o comando de Deschamps.
Desta forma, o título acabou sendo a confirmação definitiva de que a reconstrução havia dado certo. Porém, a seleção da França seguiu mostrando o desejo de alcançar mais resultados expressivos.
Em 2022, o país voltou a disputar uma final de Copa do Mundo. Desta vez, a equipe acabou sendo derrotada pela Argentina, mas novamente mostrou sua força. Mesmo em uma situação extremamente complicada durante a decisão, os franceses encontraram forças para reagir e levar o jogo até os pênaltis.
Mbappé, autor de três gols naquela partida, assumiu definitivamente o papel de principal referência da seleção e mostrou que uma nova geração estava pronta para manter a França entre as potências do futebol mundial.
Agora, em 2026, os franceses iniciam mais uma Copa do Mundo carregando essa herança.
A vitória sobre Senegal na estreia reforçou o status de favorita de uma equipe que já sabe como lidar com a pressão de grandes torneios. Mais do que isso, mostrou que a França continua reunindo qualidade suficiente para sonhar com outra campanha histórica.
O caminho até aqui, porém, ajuda a explicar por que essa seleção é tão respeitada atualmente. Depois de perder uma final de maneira traumática em 2006 e atravessar uma crise profunda alguns anos depois, a França conseguiu reconstruir sua imagem e voltar ao topo do futebol mundial.
Hoje, quase vinte anos depois da despedida de Zidane em uma noite que parecia marcar o início de uma longa queda, os franceses chegam a mais uma Copa do Mundo olhando para o cenário oposto. Em vez de dúvidas, o país disputa o torneio da FIFA apresentando muita confiança. Desta forma, a França entra tem muitos motivos para acreditar que pode conquistar mais um título mundial.
Créditos da foto: Getty Images.


