O Eintracht Frankfurt vem se destacando no futebol europeu por um modelo inteligente de desenvolvimento de jogadores, principalmente quando o assunto é atacantes. Num cenário onde clubes médios tentam se equilibrar entre sobreviver financeiramente e sonhar alto nas competições, isso vale ouro. Um exemplo perfeito? Hugo Ekitike. Hoje, é uma peça importantíssima do elenco do Liverpool, com grandes planos para o seu futuro, e ainda é avaliado em 95 milhões de euros.
Ele passou por um processo de lapidação que tem a cara do Frankfurt: análise de dados, planejamento de longo prazo e feedbacks sinceros. No início de 2024, Ekitike era mais uma promessa esquecida no banco do Paris Saint-Germain. Tinha talento, mas faltava minutagem e espaço para brilhar. Foi aí que o Eintracht Frankfurt entrou em cena. Com um empréstimo certeiro e, depois, uma contratação em definitivo, o clube viu uma chance onde outros só enxergavam risco.
“Nós apenas vimos o potencial dele”, lembra Timmo Hardung, diretor esportivo do Frankfurt. “Vimos seus pontos fortes e sentimos que isso poderia se encaixar muito bem com o estilo de futebol que queremos jogar.”
E encaixou. Na Bundesliga 2024/25, Ekitike fez 15 gols e 8 assistências em 31 partidas, totalizando 23 participações diretas em gols. Nenhum outro jogador sub-23 na liga teve tanta influência ofensiva quanto ele. Mais do que os números brutos, chamou atenção o volume de jogo: foram mais de 2.200 minutos em campo, o dobro de qualquer temporada anterior da carreira do atacante francês.
Ekitike fez o Frankfurt esquecer de Kolo Muani
Os dados avançados ajudam a explicar por que o impacto de Ekitike foi tão visível. Ao longo da temporada, ele finalizou 117 vezes, com uma média de quase quatro chutes por jogo. Mesmo com esse volume, seu índice de conversão foi de apenas 12,8%, abaixo do ideal para atacantes de elite, o que refletiu diretamente no seu xG: no caso, ele terminou o campeonato com um xG acumulado de 21,6, ou seja, marcou 6,6 gols a menos do que o esperado com base nas chances que teve.
Isso pode parecer negativo, mas, para o Frankfurt, foi um cenário interessantíssimo. Afinal, o jogador estava se colocando nas melhores situações, criando oportunidades constantemente, o que indicava que o caminho era mais de lapidar a finalização do que consertar uma ausência de impacto.
Além disso, Ekitike foi o atacante com mais finalizações oriundas de contra-ataques rápidos em toda a Bundesliga, mostrando que seu estilo encaixava perfeitamente no jogo vertical e agressivo do Frankfurt. Segundo Hardung, esse tipo de desempenho faz parte do DNA da equipe: “Tentamos jogar de forma ofensiva, criar muitas chances, e acho que somos um bom clube para um atacante ter oportunidades de marcar. Pressionamos alto, atacamos o gol sempre que possível, isso dá aos nossos atacantes a chance de se destacar.”
Ekitike não teve apenas o papel de ser um finalizador em Frankfurt. Ele criou 38 chances em jogadas de bola rolando, mais do que qualquer outro atacante do elenco. Também se destacou nos dribles: foram 72 dribles bem-sucedidos, colocando-o entre os cinco melhores da Bundesliga nesse quesito entre os atletas de sua posição, com aproveitamento acima de 57%.
Mas talvez o mais impressionante tenha sido seu papel nas transições ofensivas: ele participou diretamente de 10 gols gerados em contra-ataques, sendo o jogador mais perigoso do campeonato nesse tipo de jogada. Era a peça-chave do esquema.
Trabalho duro, escuta ativa e evolução mental
Nada disso veio por acaso. Ekitike foi moldado em Frankfurt tanto fisicamente quanto mentalmente. “Ele teve que ouvir alguns feedbacks difíceis, e isso nem sempre é legal de escutar”, conta Hardung. “Mas tentamos ser honestos com os jogadores, porque esse é o único jeito de fazê-los evoluir.”
O clube investe pesado no que Hardung chama de “time ao redor do time”. Psicólogos, nutricionistas, analistas de vídeo, técnicos de performance e especialistas trabalham lado a lado com os atletas, todos com foco individual. Com Ekitike, isso significou ajustar não apenas sua condição física para aguentar a intensidade da Bundesliga, mas também identificar os momentos certos de infiltração, posicionamento na área e tipos de finalização que melhor se encaixam em seu perfil.
“Ele melhorava a cada dia, dava o seu melhor, e o resto foi feito pelo talento dele”, resume Hardung.
O plano de Frankfurt não é vender. Mas vender bem!
Apesar de ser visto como uma fábrica de atacantes, o Eintracht Frankfurt garante que vender não é o objetivo final. “Não estamos necessariamente procurando um mercado de revenda”, afirma Hardung. “Queremos ser bem-sucedidos. Somos um clube grande, tradicional e ambicioso.”
A ideia é formar times competitivos a partir da evolução dos atletas. A questão é que, como consequência natural, os grandes times da Europa aparecem para buscar os talentos lapidados, e neste caso, outro ponto surge, como que se recusa os altos valores colocados na mesa? Foi assim com Luka Jovic, Sebastien Haller, André Silva, Randal Kolo Muani e Omar Marmoush. Foi assim com Ekitike. E será com outros.
Logo após a saída de Ekitike, o Frankfurt trouxe Jonathan Burkardt, ex-Mainz. Em seis jogos da Bundesliga, já marcou quatro vezes, e balançou as redes outras três na Champions League. A aposta, mais uma vez, parece ter sido certeira.
Tudo isso é fruto de planejamento. “No dia seguinte ao fechamento da janela de transferências, já começamos a preparar a próxima”, explica Hardung. “Pensamos no que pode acontecer no futuro e como vamos reagir.”
E assim o Eintracht Frankfurt vai se consolidando como mais que um clube: um projeto que alia inteligência, método e ambição. “O ponto é sempre tentar ser um pouco melhor do que ontem”, conclui Hardung. “Se a gente conseguir implementar essa cultura dentro do clube e da equipe, então competir contra a gente vai ser bem difícil.”
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