O técnico da Itália, Gennaro Gattuso, passou o fim de semana longe de estar satisfeito. E isso antes mesmo de sua equipe ser derrotada por 4 a 1 pela Noruega, em casa, no domingo — resultado que confirmou a presença da Azzurra no sorteio das repescagens que definirão as últimas vagas para a Copa do Mundo de 2026. A apreensão do ex-volante do Milan é compreensível: o país ficou fora dos Mundiais de 2018 e 2022 após perder para Suécia e Macedônia do Norte, respectivamente, justamente nessas fases decisivas.
Pela primeira vez, a Copa do Mundo — que acontecerá no Canadá, México e Estados Unidos entre junho e julho do próximo ano — reunirá 48 seleções. Como terminou em segundo lugar no grupo, a Itália terá de disputar dois duelos eliminatórios para assegurar presença no torneio que já conquistou em 1934, 1938, 1982 e 2006. Gattuso lamentou que, mesmo com uma boa campanha nas eliminatórias — vencendo seis dos oito confrontos —, o desempenho não tenha sido suficiente por conta do vice-lugar. Ele também citou as seis vagas diretas para a América do Sul e as nove para a África.
As declarações de Gennaro Gattuso, dadas na sexta-feira, vieram quando o saldo de gols praticamente sentenciava o destino da seleção antes do confronto com a Noruega. Porém, alguns pontos levantados pelo treinador não correspondem aos fatos. Para começar, três seleções africanas estiveram na Copa do Mundo de 1994, e a Bolívia — que encerrou as Eliminatórias sul-americanas na sétima colocação — não possui classificação assegurada em eventual confronto com uma seleção da Oceania, como seria o caso da Nova Caledônia. Mesmo que esse duelo acontecesse, seria apenas uma semifinal, seguida por um novo confronto contra uma das duas equipes mais bem ranqueadas, valendo a vaga final.
Além disso, em 1990, nem todos os segundos colocados conquistavam vaga automaticamente; a Dinamarca, inclusive, ficou de fora. Para entender por que o sistema atual de classificação europeu funciona da forma como funciona, é preciso voltar alguns anos. No passado, bem menos países disputavam o futebol internacional. Em 1990, 32 seleções da UEFA competiram nas eliminatórias; em 1994, foram 39. Hoje, são 54 equipes lutando por apenas 16 vagas destinadas ao continente europeu na Copa do Mundo, como mencionou Gattuso.
Mais seleções significam também mais partidas — especialmente se o formato procura manter grupos em que líderes e vice-líderes se classificam. Tecnicamente, seria possível montar oito grupos com seis ou sete equipes. Contudo, um grupo com sete seleções exigiria 12 rodadas, e o calendário internacional comporta apenas 10 datas por ano. Para ajustar isso, seria necessário ampliar o período das eliminatórias e até extinguir a UEFA Nations League, como no caso da própria Itália, do técnico Gennaro Gattuso.
A UEFA, porém, escolheu grupos menores, com quatro ou cinco equipes, em parte para reduzir o desgaste das seleções — o inverso do que Gattuso propõe. A Itália era cabeça de chave do Grupo I e acabou dando o azar de encontrar a Noruega, uma seleção em franca evolução. No entanto, foi derrotada nos dois encontros de forma incontestável, com placar agregado de 7 a 1. Agora, a Azzurra tenta superar traumas recentes e retornar ao Mundial após 12 anos — desde 2014, quando caiu no “grupo da morte” com Inglaterra, Uruguai e Costa Rica.

A América do Sul tem realmente tanta facilidade nas Eliminatórias para 2026, como sugere Gattuso?
Ao contrário da Itália de Gattuso, o Brasil garantiu sua vaga mesmo acumulando seis derrotas. Mas seria razoável questionar sua presença? Apenas dez países disputam as Eliminatórias sul-americanas, com seis vagas diretas — uma taxa de 60%, contra 29,62% da UEFA. Ainda assim, é preciso considerar a força competitiva da região. A Bolívia, seleção pior colocada da América do Sul, está na 76ª posição do ranking, enquanto oito dos dez participantes figuram entre os 50 melhores do mundo — a maior proporção entre todas as confederações.
Na UEFA, 26 seleções estão entre as 50 primeiras — menos da metade — e outras 20 ocupam posições inferiores à da Bolívia. Dessas, somente o Kosovo ainda mantém chances de classificação. É verdade que a Bolívia chama atenção ao seguir viva após dez derrotas, mas enfrentou oito seleções presentes no top 20 do ranking mundial, o que atenua o cenário.
A Itália, por sua vez, teve percurso mais acessível: a Noruega, no início das eliminatórias, ocupava o 43º lugar (atualmente está em 29º). Somam-se ainda as longas viagens dos jogadores sul-americanos — deslocando-se da Europa para disputar 18 partidas ao longo de dois anos, divididas em nove janelas com dois jogos cada. Frequentemente, disputam uma partida em casa e outra fora, aumentando ainda mais a carga.
É um processo desgastante, enquanto a Itália jogou apenas oito vezes este ano, com deslocamentos mínimos. Sob o comando de Gattuso, a Azzurra tenta agora evitar novos fracassos e garantir presença na Copa de 2026, buscando recuperar confiança e mostrar força diante dos favoritos na América do Norte.

Gattuso foi justo ao comentar sobre a África?
Exceto Cabo Verde, que fará sua estreia no próximo Mundial, os representantes africanos já têm tradição consolidada: Argélia, Egito, Gana, Costa do Marfim, Marrocos, Senegal, África do Sul e Tunísia. Seis desses países estão entre os 50 melhores do mundo, sendo Gana — em 73º — o mais mal colocado entre os nove. Considerá-los menos merecedores de vaga do que seleções europeias seria, na visão de muitos, um exagero.
Mas o que dizem os números? Observando novamente a força relativa das confederações, a UEFA viu sua representatividade cair de 54% na década de 1990 para 33,33% nas vagas atuais — ainda que quase metade de suas equipes (46,30%) figure entre os 50 melhores. A África, por sua vez, possui nove vagas para 53 integrantes, o que corresponde a 21,43% das vagas diretas; porém, apenas sete seleções (14%) estão entre as 50 primeiras, o que mostra uma leve, mas não extrema, sobrerrepresentação.
A Concacaf mantém um equilíbrio próximo entre número de vagas e força competitiva: cinco de suas 32 seleções (15,63%) estão no top 50, enquanto seis se classificam para a Copa (14,29%). O cenário mais discrepante, de fato, é o da Ásia: apesar de somente quatro de seus 46 países (8,70%) figurarem entre os 50 melhores, a confederação terá oito vagas diretas (19,05%). Gattuso pode até ter levantado um ponto válido em algum recorte específico, mas dificilmente encontrará muita empatia para suas críticas.
(Foto: Getty Images)