Giuliano Simeone chegou às categorias de base do Atlético de Madrid em 2019 carregando um peso inevitável: o sobrenome. Filho de Diego Simeone, o treinador mais longevo e simbólico da história do clube, sua presença sempre levantou a suspeita do nepotismo, da oportunidade concedida mais pelo sangue do que pelo futebol.
Se esse questionamento fez sentido em algum momento, hoje ele parece cada vez mais deslocado da realidade. Metade da sua segunda temporada no time principal foi suficiente para transformar Giuliano de curiosidade interna em peça importante do projeto esportivo do Atlético.
Giuliano Simeone e a ascensão no Atlético de Madrid
Para entender a ascensão de Giuliano, é preciso antes compreender o que significa “servir” a Diego Simeone. Desde 2011, o técnico construiu um Atlético identificado por valores muito específicos: intensidade, sacrifício coletivo, competitividade extrema e compromisso absoluto sem a bola. Ao longo dos anos, o clube cresceu, ganhou poder financeiro, mudou de estádio e passou a conviver com jogadores mais caros e midiáticos. Preservar o chamado “DNA colchonero” nesse contexto virou um desafio permanente, e nem sempre bem-sucedido.
É nesse cenário que a entrada de Giuliano ganha contornos simbólicos. Ele não apenas entende o que o Atlético representa, ele vive isso. Mas a virada de sua trajetória não está apenas na entrega emocional, algo esperado. Está no fato de que, hoje, sua intensidade já não é o diferencial; ela é o ponto de partida. O que sustenta sua relevância é a evolução técnica e tática, que o transformou em um jogador funcional, moderno e decisivo.
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Os números ajudam a explicar por que Giuliano deixou de ser promessa para se tornar realidade. Na temporada passada, ainda em processo de adaptação, foi apenas o oitavo jogador de linha mais utilizado. Desde o Mundial de Clubes, no entanto, ninguém jogou mais minutos no Atlético do que ele. Isso é particularmente importante quando se observa o contexto: o clube investiu pesado em atacantes e meias criativos como Álex Baena, Thiago Almada, Nico González e Raspadori. Mesmo assim, Giuliano ganhou espaço.
O segredo está no equilíbrio raro entre ataque e defesa. Giuliano é, ao mesmo tempo, um ponta agressivo e um operário tático. Jogando de ala direita, ele transita constantemente entre funções: fecha como lateral em linha de cinco, pressiona como extremo em linha de quatro, aparece como meia de apoio e ataca a última linha como segundo atacante. Essa fluidez permite ao Atlético mudar de desenho sem trocar peças, algo valioso em um futebol cada vez mais dinâmico.
Defensivamente, seu impacto é mensurável. Nenhum ponta em La Liga recuperou mais bolas nesta temporada, e poucos combinam tantos desarmes e interceptações. Mais do que volume, há contexto: Giuliano recupera bolas em zonas avançadas e transforma defesa em ataque rapidamente. Não por acaso, lidera entre os pontas o ranking de sequências ofensivas iniciadas que resultaram em chances claras. Ele não apenas corre; ele acelera o jogo no momento certo.
Ofensivamente, sua evolução também é clara. Sem ser um driblador, Giuliano construiu sua produção a partir de movimento sem bola, velocidade e leitura de espaço. Seus números de assistências cresceram, especialmente aquelas geradas após conduções longas, algo raro em jogadores que atuam pelo lado de sua perna forte. Enquanto o futebol europeu se enche de pontas invertidos, Giuliano prospera indo ao fundo, atacando a linha de fundo e cruzando.
Essa dinâmica ganha ainda mais força quando combinada com Marcos Llorente. A parceria pela direita se tornou uma das mais produtivas da equipe, responsável por quase metade das ações ofensivas em jogos de Champions League. Dois jogadores versáteis, intensos e inteligentes, que se alternam, confundem marcações e sustentam o ritmo alto que Simeone tanto valoriza.
Há também um impacto coletivo que vai além do lado direito. O Atlético desta temporada é mais flexível, mais confortável com a bola e mais capaz de variar sua forma de defender. Curiosamente, mesmo adotando com frequência uma linha de cinco atrás, a equipe recupera a bola mais longe do próprio gol do que em anos anteriores e tem a maior média de posse da era Simeone. Giuliano é um dos rostos dessa transformação: disciplinado sem a bola, agressivo na transição, funcional com ela.
No ataque posicional, seu papel como atacante de profundidade se destaca. Ele lidera a Champions League em passes recebidos quebrando linhas defensivas e está entre os jogadores que mais atacam o espaço nas costas da defesa. Não é coincidência: o Atlético construiu um elenco com mais qualidade no passe, e Giuliano se tornou o principal destino desses lançamentos. A conexão entre quem cria e quem ataca o espaço está no centro do bom momento da equipe.
Giuliano Simeone desafia narrativa de nepotismo
Quando o Atlético decidiu renovar seu contrato até 2030, a mensagem foi clara. Não se trata de proteger o filho do treinador, mas de assegurar um jogador que simboliza, na prática, a síntese entre passado e presente do clube. Giuliano Simeone deixou de ser apenas “o filho de Diego” para se tornar um reflexo moderno daquilo que o Atlético sempre quis ser: competitivo, intenso, coletivo, e agora, também, mais completo com a bola.
Se havia dúvidas sobre até onde ele poderia chegar, elas estão ficando para trás. Não por causa do sobrenome, mas apesar dele.
(Foto: Getty images)
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