O Grêmio em 2026 tem uma diretriz clara: reconstruir o meio-campo a partir de jogadores jovens, intensos e com forte capacidade de marcação. Nesse contexto, o time está com negociações bem avançadas por Leonel Pérez, do Huracán, e Juan Nardoni, do Racing, dois volantes argentinos que despertam atenção justamente por terem características muito semelhantes.
À primeira vista, a estratégia pode soar redundante, mas uma análise mais profunda, tanto do momento do clube quanto das tendências do futebol sul-americano, ajuda a explicar por que o Imortal Tricolor enxerga sentido em investir simultaneamente em dois atletas de perfil tão próximo.
O ponto de partida está no diagnóstico interno feito pelo departamento de futebol. O Grêmio encerrou as últimas temporadas com dificuldades recorrentes no setor central do campo: problemas de proteção à defesa, baixa intensidade na recuperação da bola e pouca regularidade física ao longo de competições longas.
Em jogos decisivos, especialmente contra adversários mais intensos, o time sofreu para sustentar o ritmo, cedeu espaços entre as linhas e acabou excessivamente exposto. A leitura da diretoria é de que, antes de pensar em um meio-campo mais criativo, era fundamental reconstruir a base, começando pelo volante.
É aí que entram Pérez e Nardoni. Ambos se destacaram no futebol argentino justamente por aquilo que o Grêmio sentiu falta: agressividade sem a bola, boa leitura defensiva, capacidade de ocupar espaços e intensidade durante os 90 minutos.
São jogadores que não vivem de holofotes, mas que organizam o time a partir do trabalho invisível. No Huracán, Leonel Pérez se firmou como peça de equilíbrio, protegendo a zaga e dando sustentação ao jogo físico da equipe. No Racing, Juan Nardoni evoluiu como um volante moderno, capaz de marcar alto, pressionar a saída de bola adversária e participar das transições com conduções curtas e objetivas.
Grêmio está montando um time para o futuro
Contratar dois volantes com características parecidas não significa, necessariamente, apostar em uma única solução. Pelo contrário. O Grêmio trabalha com a ideia de competição interna elevada, algo que se perdeu em alguns setores do elenco nos últimos anos.
Ao trazer Pérez e Nardoni, o clube cria um cenário em que ninguém chega com status absoluto de titular, mesmo com o jogador do Racing claramente a frente. Ambos terão de se adaptar não apenas ao clube, mas também ao futebol brasileiro, que impõe ritmo mais intenso, calendário mais pesado e maior exigência física do que o argentino.
Esse ponto é central na estratégia. Tanto Pérez quanto Nardoni terão, caso as contratações se confirmem, suas primeiras experiências fora da Argentina. Isso envolve um período natural de adaptação: idioma, estilo de jogo, arbitragem, viagens e pressão externa. Ao contar com dois jogadores do mesmo perfil, o Grêmio se protege de riscos. Se um sentir mais dificuldade no início, o outro pode assumir maior protagonismo sem que o time perca identidade tática. É uma forma de reduzir a dependência de um único nome e garantir continuidade de modelo.
Além disso, embora semelhantes, há nuances importantes entre os dois. Nardoni chega mais rodado, com maior vivência em jogos grandes e competições internacionais, o que pode fazê-lo assumir um papel mais imediato.

Pérez, por sua vez, é visto como um projeto de médio prazo, com margem clara de evolução técnica e tática. O Grêmio, portanto, não está contratando “dois iguais”, mas dois jogadores que ocupam a mesma função dentro de momentos levemente diferentes.
Outro aspecto decisivo é o modelo de jogo que o clube pretende consolidar em 2026. A ideia passa por um time mais compacto, agressivo na pressão e capaz de recuperar a bola rapidamente para atacar em melhores condições. Para isso, volantes de intensidade não são luxo, são necessidade.
Em um calendário que mistura Brasileirão, Copa do Brasil e competições continentais, é praticamente inviável sustentar esse estilo com apenas um jogador confiável na posição. A presença de Pérez e Nardoni amplia as opções de variação tática, seja em um meio-campo com dois volantes mais fixos, seja com apenas um deles dando sustentação para um meia mais criativo.
Há ainda o olhar de mercado. O Grêmio volta a apostar com força no eixo argentino, tradicional celeiro de volantes competitivos e com bom custo-benefício. São atletas jovens, com salários controlados e potencial de valorização.
Caso se firmem, o dois podem se tornar ativos importantes, seja esportivamente ou financeiramente em uma eventual venda futura. Essa lógica se encaixa no modelo de sustentabilidade que o clube tenta retomar após anos de dificuldades econômicas.
No fim das contas, a decisão de buscar dois volantes de características semelhantes revela menos improviso e mais planejamento. O Grêmio entende que não há futebol competitivo sem um meio-campo forte, intenso e confiável.
Ao mirar Pérez e Nardoni, o clube deixa claro que quer redefinir sua identidade a partir da solidez, mesmo que isso signifique repetir perfis. Em um cenário de transição e reconstrução, a repetição, nesse caso, não é erro, é estratégia.
(Imagem de capa: Uno)