Quando o Igor Tudor foi contratado pelo Tottenham Hotspur, a missão era clara: salvar o clube de um cenário impensável no início da temporada, a briga contra o rebaixamento na Premier League. A ideia era trazer um “bombeiro” experiente, daqueles que chegam, arrumam a casa e dão um choque imediato no time.
Só que, até agora, o efeito foi justamente o contrário.
O técnico croata perdeu seus quatro primeiros jogos no comando dos Spurs, e a derrota pesada para o Atlético de Madrid na Champions League virou o novo fundo do poço de uma temporada que já vinha sendo difícil. O cenário, que já era complicado, parece ter ficado ainda mais confuso e parte disso tem relação direta com as escolhas táticas do treinador.
Claro, é injusto colocar toda a culpa em Tudor. O Tottenham já vinha em queda livre antes mesmo da troca de comando, passando pelos períodos de Ange Postecoglou e Thomas Frank. Lesões, erros de mercado e instabilidade no elenco criaram uma mistura perigosa.
Mas a chegada do novo técnico trouxe uma mudança brusca de estilo e o time ainda parece totalmente perdido dentro dela.
A aposta de Tudor no “mano a mano” defensivo
Um dos pilares do trabalho de Tudor é a pressão individual no campo inteiro. Em termos simples: cada jogador marca um adversário específico e tenta pressionar agressivamente para recuperar a bola o mais rápido possível. No papel, a ideia parece interessante, ainda mais ao ver o elenco do clube londrino que conta com peças interessantíssimas a disposição.
A questão é que, as coisas não correram da melhor forma possível, contando com falhas individuais bem fora do comum.
Os Spurs passaram a alternar entre dois sistemas defensivos: um 5-2-3 ou um 5-3-2, dependendo do posicionamento dos pontas. A intenção é simples: pressionar alto, recuperar a bola e atacar rapidamente. Esse modelo já funcionou em outros clubes treinados por Tudor. Em ligas menos intensas, a pressão homem a homem pode causar problemas imediatos aos adversários.
O problema é que o futebol inglês evoluiu exatamente para combater esse tipo de pressão.
Hoje, muitos jogadores conseguem escapar da marcação com dribles, trocas rápidas de passes ou até bolas longas para quebrar a pressão. Não por acaso, o próprio Pep Guardiola comentou recentemente que o futebol inglês está cada vez mais agressivo e cheio de marcação individual.
Ou seja: todo mundo já sabe lidar com isso.
Onde o sistema começa a quebrar
Para que a pressão homem a homem pedida por Igor Tudor funcione, tudo precisa acontecer em perfeita sincronia. Se um jogador chega um segundo atrasado, o adversário já ganhou espaço e a defesa inteira começa a desmontar.
Esse tem sido exatamente o problema do Tottenham. Durante o período com Thomas Frank, a equipe defendia de forma muito mais passiva, em blocos compactos. Agora, com Tudor, a ordem é subir a linha e pressionar.
Só que os jogadores ainda não parecem totalmente convencidos disso.
Um exemplo claro aconteceu na estreia contra o Arsenal, quando Tudor pediu para Micky van de Ven adiantar a linha defensiva. O zagueiro hesitou em vários momentos, algo que mostra como a adaptação ainda está longe de acontecer. E é interessante ver esse ponto, porque dá para levá-lo como um trauma de Ange Postecoglou, que era fissurado em colocar seus profissionais para trabalharem adiantados, ao máximo possível.
O problema das laterais
Outro detalhe importante está na própria estrutura do sistema de Igor Tudor. No 5-3-2 utilizado pelos Spurs, os únicos jogadores responsáveis por cobrir os lados do campo são os alas. Isso deixa espaços perigosos nas pontas.
E os adversários perceberam isso rapidamente.
Contra Atlético de Madrid, Diego Simeone explorou exatamente essa fragilidade. Em um dos gols, um jogador espanhol recebeu livre pelo lado direito, teve tempo para levantar a cabeça e lançar uma bola longa nas costas da defesa.
Marcos Llorente atacou o espaço, Van de Ven escorregou na jogada, e Antoine Griezmann apareceu para finalizar.
Erro individual? Sim.
Mas a jogada nasce de uma fragilidade coletiva.
Jogadores “sem posição” viraram um pesadelo
Outro problema para os Spurs é enfrentar times com movimentação ofensiva muito fluida. Equipes como Fulham e Crystal Palace usaram bastante esse recurso contra o sistema de Tudor. Jogadores trocando de posição o tempo inteiro acabam confundindo o esquema de marcação individual.
O caso de Alexander Iwobi é um bom exemplo. O meia do Fulham começou pela esquerda, apareceu pela direita e arrastou os marcadores do Tottenham pelo campo. Esse tipo de movimentação abre buracos enormes.
Outro caso foi o de Evann Guessand, do Palace, que teve liberdade para circular pelo ataque e desmontar o sistema de marcação dos Spurs. Quando a defesa precisa decidir entre seguir o marcador ou proteger o espaço, o caos começa.
E o Tottenham de Tudor tem vivido exatamente isso.
Além dos problemas defensivos, o Tottenham também parece confuso com a bola. Sob Postecoglou, a equipe tentava sair jogando com passes curtos. Com Thomas Frank, o time passou a atacar principalmente pelas pontas, com um jogo mais direto.
Agora, com Tudor, a ideia voltou a mudar: o time tenta construir mais pelo meio, assumindo riscos maiores. Resultado? Perdas de bola perigosas. Contra o Atlético, por exemplo, duas falhas na saída de bola acabaram virando gols dos espanhóis.
Quando um time muda tanto de estilo em pouco tempo, a consequência costuma ser previsível: falta de identidade.
Um bom treinador… no lugar errado?
Tudo isso levanta uma pergunta interessante: um bom treinador pode ser uma contratação ruim? A resposta, muitas vezes, é sim. Um exemplo recente é Vincent Kompany. Depois de uma temporada complicada no Burnley, ele encontrou o ambiente ideal no Bayern Munich e passou a dominar a Bundesliga.
Clube, elenco e filosofia alinhados. No Tottenham, porém, a sensação é de desalinhamento total. O elenco não parece construído para jogar nesse modelo, o momento do clube é delicado e o tempo para adaptação praticamente não existe.
E em uma luta contra o rebaixamento, tempo é um luxo que ninguém tem. Como o próprio Tudor disse recentemente:
“Velhos hábitos levam mais tempo do que se imagina para mudar.”
O problema é que, na Premier League, a tabela não costuma esperar ninguém.
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