O início de trabalho de Igor Tudor no Tottenham está longe de ser animador e isso é até um eufemismo. Em apenas quatro jogos no comando, o treinador croata acumulou quatro derrotas e entrou para a história do clube de um jeito que ninguém gostaria: tornou-se o primeiro técnico dos Spurs a perder suas quatro primeiras partidas no cargo, indo contra seus próprios números quando assume trabalhos no meio do caminho.
Seria injusto colocar toda a culpa no treinador. A crise do Tottenham começou bem antes de Tudor chegar ao norte de Londres. O elenco sofre com lesões, falta de confiança e uma montagem de elenco que claramente não funciona como deveria.
Mas, mesmo levando tudo isso em conta, o fato é que o novo técnico também não deu nenhum sinal de que pode ser o homem certo para evitar o desastre. E o desastre está cada vez mais perto.
Noite desastrosa na Champions League
O exemplo mais recente veio na derrota por 5 a 2 para o Atlético de Madrid, no jogo de ida das oitavas de final da UEFA Champions League. Foi um daqueles jogos em que tudo deu errado e rápido. Causando uma enorme vontade de simplesmente agir como um avestruz, colocando a cabeça debaixo da terra.
Além do placar pesado, a atuação deixou claro que o Tottenham atravessa um momento de total fragilidade emocional. O time parece sem confiança, sem organização e sem reação quando sofre pressão. Em outras palavras: exatamente o oposto do que se espera de um time em mata-mata europeu, ainda mais se tratando do atual campeão da Europa League.
E, nesse cenário, Tudor acabou sendo parte do problema.
A insistência em um esquema que não funciona
Desde que chegou, o croata anda insistindo em utilizar o sistema 3-4-2-1, sua formação favorita. O problema é que, até agora, o esquema simplesmente não encaixou, não houveram frutos nesses últimos quatro confrontos, e pelo o que parece, não existem indícios de uma mudança nesta ocasião.
Nos quatro jogos sob o comando do croata, o Tottenham marcou apenas cinco gols e sofreu impressionantes 14. Para um time que já vinha pressionado, a insistência em um modelo que claramente não funciona tem causado estranheza entre torcedores e analistas.
Não é só o sistema tático que levanta questionamentos. As escolhas na escalação também têm sido difíceis de entender.
Uma escalação arriscada demais
Contra o Atlético de Madrid, Tudor tomou uma decisão que chamou atenção antes mesmo da bola rolar: escalou o time mais jovem da história do Tottenham em um mata-mata de Champions League. A média de idade? 25 anos e 24 dias.
Em um jogo que pedia experiência e controle emocional, o treinador deixou no banco nomes mais rodados como Dominic Solanke, Conor Gallagher, João Palhinha e, talvez mais importante de todos, o goleiro titular Guglielmo Vicario.
Não que esses jogadores sejam perfeitos, longe disso. Mas era claramente um momento que pedia mais segurança, não testes. E foi justamente no gol que o experimento virou um pesadelo.
Tottenham e o drama de Antonín Kinsky
Tudor decidiu apostar em Antonín Kinsky para a meta do Tottenham. O jovem goleiro fazia sua estreia na Champions League e não jogava havia cinco meses.
Sim, cinco meses.
Para piorar, o adversário era o Atlético de Madrid em um jogo de mata-mata europeu. Basicamente o equivalente futebolístico de aprender a nadar sendo jogado no meio do oceano.
O resultado foi desastroso, talvez o pior dos cenários possíveis. Em apenas 17 minutos em campo, Kinsky cometeu dois erros graves que resultaram em gols do Atlético. Logo depois, foi substituído pelo próprio Tudor, depois de Cristian Romero ter chegado na comissão técnico e pedido diretamente pela movimentação.
A estatística que surgiu depois do jogo ajuda a entender o tamanho do problema: o goleiro passou a ter a segunda pior média de minutos por erro que gera gol adversário na história recente da Champions, um erro a cada 8,5 minutos.
Só perde para Dane Murray, do Celtic, que teve um erro em apenas sete minutos jogados.
Uma decisão que pode marcar uma carreira
Depois da partida, Tudor defendeu sua escolha. Segundo ele, a decisão fazia sentido no contexto do momento e na pressão que o titular Vicario vinha sofrendo. No entanto, o resultado prático foi devastador.
Além de praticamente eliminar o Tottenham do confronto, as chances de classificação são de apenas 3,2% segundo projeções estatísticas, a decisão pode ter causado um impacto profundo na carreira do jovem goleiro.
A situação lembra o caso de Loris Karius, que ficou marcado por erros graves na final da Champions de 2018 pelo Liverpool contra o Real Madrid.
Karius nunca mais conseguiu se firmar no clube inglês depois daquela noite. Kinsky agora tenta evitar destino parecido. O mais complicado desta situação inteira, é que o profissional dos Spurs foi contratado devido ao seu alto nível com a bola nos pés, o que chama ainda mais atenção.
O verdadeiro problema: o risco de rebaixamento
Mesmo assim, a eliminação na Champions talvez nem seja a maior preocupação do Tottenham neste momento. O problema real está na Premier League.
Com três derrotas em três jogos de campeonato sob o comando de Tudor, os Spurs estão cada vez mais próximos da zona de rebaixamento. O time vive a pior média de pontos por jogo em qualquer período de 38 partidas em toda a sua história: apenas 0,87.
É um número alarmante para um clube do tamanho do Tottenham.
Vale lembrar que os Spurs são um dos seis clubes que nunca foram rebaixados desde a criação da Premier League, tendo disputado pela última vez a segunda divisão na temporada 1977-78.
Ou seja: o fantasma do rebaixamento não aparece com frequência por lá, mas agora ele está batendo na porta.
Ainda há esperança?
A tabela restante até oferece algum alívio. O Tottenham ainda enfrenta adversários teoricamente acessíveis como Nottingham Forest, Leeds United, Brighton e Everton em casa, além de visitar Wolverhampton e Sunderland.
Segundo rankings estatísticos de força de tabela, os Spurs têm o sexto calendário mais fácil entre os times da liga até o fim da temporada.
Mas facilidade no papel não ganha jogo. Se o desempenho continuar no nível atual, nem o calendário mais tranquilo do mundo será suficiente para evitar o pior.
Mais uma troca de técnico no horizonte?
Diante desse cenário, começa a surgir uma pergunta inevitável em Londres: Tudor conseguirá virar esse jogo? Até agora, a resposta parece ser não.
Em apenas quatro partidas, o treinador ainda não conseguiu melhorar o desempenho do time, recuperar a confiança do elenco ou ajustar os problemas táticos que se acumulam.
Trocar de técnico novamente tão rápido pode parecer uma decisão radical. Mas, neste momento, para muitos torcedores dos Spurs, a pergunta já não é mais se o clube deve fazer isso. A pergunta é se ainda dá tempo de salvar a temporada.
Se estivessem no Brasil, essa mudança já haveria sido feita, e algum nome que hoje se encontra no Departamento de Futebol e no passado foi treinador, já estaria assumindo o clube. A questão é, um técnico que com certeza deveria ser pensado para essa posição no Tottenham, deveria ser Ange Postecoglou.
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