México x Coreia do Sul, Copa do Mundo 2026
Futebol Copa do Mundo

México conta com ‘ajudinha’ sul-coreana e deve se atentar ao futuro: veja as impressões do jogo

Indo do inferno das vaias ao céu da classificação em noventa minutos, o México conquistou sua segunda vitória na Copa do Mundo e se tornou o primeiro garantido para a próxima fase. Enfrentando uma Coreia do Sul embalada pela estreia contra a Tchéquia, os anfitriões sofreram para anular os asiáticos, mas resistiram com autoridade, e contaram com uma ‘ajudinha‘ do goleiro adversário no começo do segundo tempo.

Vaiada ao final da primeira etapa pela torcida que compareceu em peso ao estádio Akron, em Guadalajara, a seleção mexicana tentava empreender ofensivamente, porém sem o devido sucesso, assim como os sul-coreanos não conseguiam despontar no ataque. Usando da frieza para abafar a pressão local e oportunismo para aproveitar o erro fatal do rival, o gol de Romo foi o suficiente para obter um resultado importantíssimo e decidir um jogo truncado em boa parte do tempo.

Veja a seguir, quatro impressões que ficaram da classificação mexicana diante da Coreia do Sul.

O pragmatismo mexicano e o peso de ser anfitrião

Em Copas do Mundo, nem toda classificação antecipada se constrói com tranquilidade e espetáculo, e o confronto em Guadalajara foi a prova perfeita dessa máxima. Nos primeiros 45 minutos, o que se acompanhou no estádio Akron foi um jogo de ritmo sonolento, marcado pela forte marcação e uma evidente dificuldade de ambas as seleções em subir o tom das jogadas.

O México, travando na própria lentidão e em um meio-campo da Coreia do Sul muito recuado, enredou uma partida truncada e sem chances claras de gol. A insatisfação nas arquibancadas, que se converteu em vaias no final do primeiro tempo, ilustrou o peso de ser o país-sede: para a torcida local, criar e não ser efetivo não basta; exige-se precisão.

Entretanto, o grande mérito da seleção mexicana foi não deixar que os jogadores se abalassem diante do clima externo e mudassem seu comportamento em campo. Resistindo à pressão das vaias e sem se desorganizar taticamente, os donos da casa ‘souberam sofrer’, preservar sua segurança defensiva e aguardar pacientemente pelo erro adversário.

O prêmio por esse pragmatismo somado à teimosia veio logo no começo do segundo tempo, quando Romo soube explorar uma falha bizarra do goleiro Kim Seung-gyu para definir o marcador. Para ir longe em uma Copa do Mundo, saber controlar partidas amarradas e vencer mesmo quando o coletivo não rende é uma capacidade fundamental, e os mexicanos mostraram estar criando essa casca.

A armadilha do impedimento e a inoperância sul-coreana

A inoperância de um primeiro tempo custou muito caro para a Coreia do Sul no decorrer da partida, e se transformou em ‘calvário’ logo no início da etapa final. Com um vacilo do goleiro Kim Seung-gyu, o México aproveitou para explorar e golpear em uma única bola, indo na contramão de todas as falhas do começo do jogo.

Tentando se apresentar desde o começo e dominando a posse de bola, a Coreia do Sul não contou com a mesma sorte que teve contra a seleção tcheca na primeira rodada e acabou golpeada por não possuir um ‘plano B’. Sofrendo para criar jogadas terrestres e caindo por vários momentos na linha de impedimento, os asiáticos não conseguiram encontrar um caminho claro para seguir e enfrentaram uma defesa bem mais postada que a dos europeus.

Em quase todas as jogadas sul-coreanas, o México de Javier Aguirre soube criar uma armadilha que colocasse pelo menos um adversário em posição de irregularidade, especialmente o craque Son-Heung-min. Assim como no jogo contra a Tchéquia, o atacante da Coreia do Sul foi o mais caçado pelos defensores rivais e não pôde atuar com liberdade, deixando para os colegas a responsabilidade de avançar quando fosse possível e lutar pela vitória contra os donos da casa.

O protagonismo (e o drama) debaixo das traves

Num jogo marcado pela baixa presença de jogadores de ambas as seleções no setor ofensivo em boa parte do tempo, os goleiros ainda conseguiram ditar o rumo da partida e assumir o papel de protagonismo. Do lado coreano, Kim Seung-gyu foi exigido durante a primeira etapa e viveu o drama de falhar no gol de Romo no segundo tempo, mas demonstrou força mental suficiente para se redimir com uma boa defesa no final.

Já do lado mexicano, Tala Rangel foi o herói discreto que, nos minutos finais, garantiu a vitória dos anfitriões em dois tempos após um chute perigoso de Cho Gue-sung. Assumir a titularidade da meta ocupada por Ochoa em três Copas consecutivas certamente pesou sobre o goleiro de 26 anos, mas nos dois primeiros jogos ainda não se transformou em perigo contundente de insegurança para a defesa, que não sofreu nenhum gol até o momento.

Vaga garantida, mas com lições para o mata-mata

Apesar de garantido em 16 avos de final, invicto e sem nenhum gol sofrido nos dois primeiros jogos, o México ainda tem desafios a cumprir na fase de grupos e lições a aprender para o mata-mata do Mundial. O futebol apresentado diante da Coreia do Sul foi muito burocrático e dependeu de um único ‘lance de sorte’ para garantir os três pontos em Guadalajara.

O chute todo atrapalhado de Romo na falha de Kim Seung-gyu no começo do segundo tempo mostrou que a ofensiva mexicana precisa melhorar se quiser atingir o alvo de modo mais efetivo e derrubar rivais considerados difíceis na fase final. A falta de intensidade no primeiro tempo contra os sul-coreanos escancara que os anfitriões não seriam perdoados em um eventual jogo contra uma seleção da primeira prateleira europeia ou sul-americana.

Sendo assim, a partida contra a Tchéquia na terceira e última rodada da fase de grupos no dia 24 deve ser utilizada como laboratório para a fase pré-oitavas, onde tudo pode acontecer. O México de Javier Aguirre não pode se contentar em jogar totalmente na defesa, pois a qualquer momento, ela pode ser anulada, e o ataque demanda aparecer com maior êxito na criação, se quiser ter um futuro bem claro nessa Copa do Mundo.

(Foto: REUTERS/Daniel Becerril)