Coreia do Sul x Tchéquia, Copa do Mundo 2026
Futebol Copa do Mundo

Coreia do Sul vence de virada a Tchéquia: as impressões sobre o duelo em Guadalajara

Embalada pela própria torcida e apoiada pelos mexicanos, a Coreia do Sul começou a Copa do Mundo com o pé direito: vencendo de virada e sendo superior em boa parte da partida. O 2 a 1 na estreia contra a Tchéquia com gols de Hwang In-Beom e Oh Hyeon-Gyu em Guadalajara lavaram a alma de uma nação de 51 milhões de habitantes, e que não vencia uma partida inicial de Mundial há dezesseis anos.

Depois de um primeiro tempo dominante, porém, instável, os sul-coreanos comandados por Hong Myung-Bo encontraram o caminho da vitória dentro de um jogo tenso e exaustivo, com direito a gol anulado dos tchecos nos 45 minutos finais. Além disso, o atacante Son Heung-Ming, apesar de participativo no jogo, não vinha tendo uma noite inspiradora e viu seu time ser salvo por uma dupla de coadjuvantes que chamaram a responsabilidade para si, podendo assumir um notório protagonismo no decorrer do torneio.

Veja a seguir, quatro impressões sobre o jogo entre Coreia do Sul e Tchéquia.

A resiliência mental e a manutenção da identidade da Coreia do Sul

O contexto inicial do segundo tempo tinha tudo para ser uma tragédia para os sul-coreanos após um primeiro tempo avassalador sem o aproveitamento esperado. Sufocando os tchecos e vendo seu líder Son desperdiçar um caminhão de gols, os asiáticos saíram atrás do placar em um gol de latereio, marcado por um zagueiro. Em competições de tiro curto, especialmente uma Copa do Mundo, sofrer um gol depois de dominar toda uma partida costuma desequilibrar qualquer seleção experiente, forçando erros e imprudências.

Entretanto, mesmo com a desvantagem, o que se viu da Coreia do Sul no estádio Akron foi uma evidente prova de maturidade tática e emocional. Pondo a conta em risco e correndo o perigo de manter uma incômoda privação de vitórias em estreias de Copa, os sul-coreanos não baixaram a guarda no jogo, e conseguiram escrever um final feliz. Mantendo a bola no chão, a equipe não deixou de lado a pressão ofensiva e seguiu jogando a Tchéquia para o seu campo. Em nenhum instante houve desespero ou mudança de comportamento na organização, manteve-se o padrão e uma identidade estabelecida desde o começo.

Essa resiliência foi determinante para que a virada se construísse nos detalhes. O gol de empate de Hwang In-Beom surgiu dessa persistência em controlar a bola, achar espaços e retrair a defesa europeia a todo momento. Sem dar brecha para o nervosismo após uma falha defensiva, a Coreia do Sul mostrou confiar totalmente em seu padrão coletivo – um requisito mental que será um exemplo para encarar situações de adversidade no decorrer do Mundial.

O brilho dos ‘coadjuvantes’ quando a estrela não resolve

Referência da equipe e um dos principais jogadores da história da Coreia do Sul, Son tentou contribuir nas finalizações, principalmente de fora da área, mas não estava em um dia inspirado. Hwang In-Beom chamou a responsabilidade ao empatar com um gol no qual deixou um defensor e o goleiro tcheco no chão e candidatíssimo a ser o ‘gol da Copa’, além de ter sido um dos engenheiros do gol da virada marcado por Oh Hyeon-Gyu. Os lances foram decisivos para os sul-coreanos deixarem Guadalajara em uma situação mais cômoda, e a parceria pode tornar a vida dos adversários mais difícil nas próximas partidas.

Além da dupla ofensiva responsável pelo triunfo, vale chamar a atenção para o comportamento do goleiro Kim Seung-Gyu mesmo depois de sofrer um belo gol. Tímida no ataque, porém perigosa quando chegava à área, a seleção da Tchéquia parou por vezes no arqueiro sul-coreano e o consagrou na reta final da partida, quando os mandantes recuaram e praticamente ‘sentaram’ na vantagem, lhe obrigando a trabalhar como nunca. Quando os ‘coadjuvantes’ entraram em ação, a Coreia do Sul encontrou um rumo, e trabalhou conjuntamente, garantindo um resultado importante.

O perigo da bola parada e o pragmatismo da Tchéquia

Apesar de brigar, resistir e sair na frente do marcador, a Tchéquia aceitou ser dominada durante todo o jogo e se concentrou em esperar o adversário agir para explorar o campo inteiro. Mesmo criando bem menos que a seleção sul-coreana, os europeus se demonstraram fulminantes na bola parada (o gol de Krejcí nasceu em um latereio, e o tento impedido de Soucek também).

Embora não tenha apresentado um futebol vistoso, os tchecos possuem uma arma pragmática que deve incomodar muito os próximos adversários no Grupo A. Além disso, o comportamento de resistência à blitz ofensiva dos rivais também pode favorecer em algum momento, já que os jogadores de trás podem ajudar o meio-campo e o ataque a produzir respostas convincentes para agir e pressionar em qualquer momento de vacilo, como teve a Coreia do Sul entre o fim do primeiro tempo e a metade da segunda etapa.

A vulnerabilidade aos contra-ataques e a inoperância inicial

Mesmo vencendo heroicamente e buscando a virada dentro do segundo tempo, a Coreia do Sul deve entrar para os jogos seguintes mais ligada aos desafios que terá pelo caminho. A equipe precisou de muitas finalizações para enfim marcar seu primeiro gol e abriu espaços para que a Tchéquia jogasse e apertasse no ataque, fazendo o gol primeiro.

A vulnerabilidade sul-coreana nos contra-ataques combinada à ineficácia do setor ofensivo por pouco não se transformou em mais um capítulo de terror para os mandantes. Contra o México, que diante da África do Sul se aproveitou dos erros do rival e marcou ainda no primeiro tempo, os asiáticos decidirão além da liderança da chave quem vai se comportar melhor com a posse de bola. No histórico de Copas, os mexicanos levam a melhor em confrontos diretos, e jogando em casa, certamente não vão dar vida fácil para Son e seus companheiros.

(Foto: Ulises RUIZ / AFP)