A crise institucional na FIFA ganhou novos capítulos. Pressionado pelo fracasso do projeto que previa a venda de parte das operações comerciais e dos principais torneios da entidade para investidores privados, Gianni Infantino convocou uma reunião de emergência com a alta cúpula da organização nesta quarta-feira, em Rabat, no Marrocos.
O encontro acontece em meio ao crescente desgaste político do presidente da FIFA, que vê aumentar a pressão de dirigentes, federações nacionais e até integrantes da própria entidade. A expectativa é que Infantino tente reconstruir pontes, recuperar apoio interno e evitar que a crise comprometa sua tentativa de permanecer no comando da organização.
Pressão aumenta dentro e fora da FIFA
A convocação da reunião ocorre poucos dias depois de o secretário-geral da FIFA, Mattias Grafström, enviar um memorando interno classificando os acontecimentos da última semana como “tristes” e “difíceis de compreender”.
Outro nome de peso a se posicionar foi Arsène Wenger, diretor de Desenvolvimento Global do Futebol da entidade. O francês fez questão de afirmar que não participou da elaboração da proposta da chamada FIFA Forward Enterprise (FFE) e classificou como “absolutamente necessária” a decisão de abandonar o projeto.
As críticas também chegaram das federações nacionais. O príncipe Ali bin Al Hussein, presidente da Federação Jordaniana de Futebol, acusou a FIFA de criar uma situação que se aproximava de uma “chantagem”, ao condicionar um aumento no financiamento das associações à aprovação do plano de investimento privado.
Embora a entidade não tenha comentado oficialmente as declarações, o episódio reforça o tamanho da insatisfação entre parte dos membros da FIFA.
Nos últimos dias, a UEFA afirmou ter perdido a confiança na liderança de Infantino, enquanto algumas federações europeias, como a do País de Gales, retiraram apoio à sua candidatura para um novo mandato. A Inglaterra também estuda seguir o mesmo caminho.
O que será discutido na reunião?

A reunião será realizada na sede africana da FIFA, em Rabat, e contará com os principais executivos da entidade.
Além de Grafström, participarão nomes importantes da administração, como o diretor financeiro Thomas Peyer, o diretor jurídico Emilio García Silvero, o chefe de gabinete Daniel O’Toole, o diretor de Associações Membro Elkhan Mammadov e o responsável pelas relações com a imprensa, Bryan Swanson.
Embora a pauta oficial não tenha sido divulgada, a expectativa é de que Infantino apresente uma estratégia para reduzir o desgaste político e recuperar a confiança da cúpula da FIFA.
A tarefa, porém, não será simples. Na última sexta-feira, Kevin Lamour, diretor de operações da entidade, afirmou que o plano de abrir parte da FIFA ao capital privado era “o projeto de uma única pessoa” e revelou que a própria administração se sentiu surpreendida pela iniciativa.
Diante desse cenário, o presidente deverá admitir falhas na condução do processo e apresentar medidas que reforcem os mecanismos de governança para evitar que uma proposta semelhante volte a ser conduzida sem amplo debate interno.
As perguntas que ainda esperam respostas
O desgaste aumentou ainda mais após a renúncia de Carlos Cordeiro, consultor sênior de estratégia e governança da FIFA.
Ao deixar o cargo, o dirigente classificou o projeto como “um mau negócio para o futebol” e afirmou que a proposta comprometia o futuro da entidade.
Cordeiro também levantou uma série de questionamentos que seguem sem resposta:
- Por que esse acordo foi proposto?
- Por que agora?
- Quem fiscalizaria os investidores?
- Quem realmente se beneficiaria da operação?
- Houve concorrência entre possíveis compradores?
- Quais garantias de governança existiriam?
- O que os investidores receberiam em troca?
Segundo ele, as associações nacionais estavam sendo pressionadas a tomar uma decisão histórica em pouco tempo, sem informações suficientes sobre as consequências do acordo.
Além de responder a essas dúvidas, Infantino poderá apresentar novas propostas de reforma institucional, como o fortalecimento dos mecanismos de controle interno, maior participação das confederações nas decisões estratégicas e até mudanças em projetos futuros — incluindo a discussão sobre uma eventual Copa do Mundo com 64 seleções.
Infantino corre risco de deixar a presidência?

Apesar da pressão, uma renúncia imediata ainda é considerada improvável. Até o momento, Infantino não demonstrou qualquer intenção de abandonar o cargo e continua buscando apoio entre federações de diferentes continentes.
Na terça-feira, Egito, Marrocos, Níger, Mauritânia e República Democrática do Congo divulgaram manifestações públicas de apoio ao dirigente.
Mesmo assim, o presidente chega ao encontro pressionado a responder pelas maiores turbulências políticas de sua gestão desde que assumiu a FIFA, em 2016.
Caso a crise continue escalando, duas alternativas poderão ganhar força nos próximos meses. A primeira seria a convocação de uma reunião extraordinária do Conselho da FIFA, desde que ao menos 19 dos 37 integrantes solicitem oficialmente o encontro.
A segunda seria um Congresso extraordinário das 211 associações filiadas, mecanismo que pode ser acionado mediante pedido formal de 43 federações — número que a UEFA, sozinha, já supera com seus 55 membros.
Ainda assim, a destituição de Infantino exigiria maioria absoluta dos votos, um cenário considerado difícil neste momento.
O futuro da disputa política
Se conseguir atravessar a atual crise, Infantino ainda pretende disputar um quarto mandato na presidência da FIFA, cuja eleição está marcada para março do próximo ano, em Rabat.
Os possíveis candidatos têm até 18 de novembro para oficializar suas candidaturas. Nos bastidores, o nome do presidente da Concacaf, Victor Montagliani, aparece como o principal potencial adversário caso a oposição decida lançar um candidato de consenso.
Enquanto isso, a reunião desta quarta-feira pode marcar apenas o início de uma disputa política que promete se estender pelos próximos meses.
Dentro da FIFA, a expectativa é que Infantino utilize o encontro para demonstrar unidade e tentar reorganizar sua base de apoio. Já a UEFA e seus aliados esperam exatamente o oposto: transformar a atual crise no ponto de partida para uma mudança no comando do futebol mundial.
Créditos da foto de capa: Luke Hales/Getty Images/AFP



