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Inglaterra acende alerta ao repetir velhos erros com Tuchel

A eliminação da Inglaterra diante da Argentina, por 2 a 1, na semifinal da Copa do Mundo, trouxe de volta críticas que pareciam pertencer ao trabalho anterior da seleção. A equipe recuou demais depois de abrir o placar, teve dificuldades para controlar a bola e viu as substituições de Thomas Tuchel serem questionadas em um dos momentos mais importantes do torneio.

O cenário chama atenção porque o treinador alemão foi contratado justamente para mudar a forma como a Inglaterra disputava os grandes jogos. Tuchel chegou ao cargo criticando a falta de identidade da equipe de Gareth Southgate e defendendo um modelo mais claro, com movimentos repetidos e funções bem definidas. No entanto, diante da Argentina, a seleção inglesa voltou a cair de uma maneira bastante conhecida.

Neste cenário, a eliminação não levanta apenas dúvidas sobre escolhas feitas durante a semifinal. O resultado também coloca em discussão até que ponto Tuchel realmente conseguiu transformar a Inglaterra e por que a seleção continua encontrando tantas dificuldades quando precisa proteger uma vantagem contra adversários mais fortes.

O plano de Tuchel não apareceu quando a Inglaterra mais precisou

Desde que assumiu a Inglaterra, Tuchel deixou claro que pretendia montar a seleção a partir de um sistema. Antes de pensar nos principais nomes disponíveis, o treinador definiu o modelo de jogo desejado e passou a escolher atletas capazes de executar funções específicas dentro desta ideia. A convocação para a Copa do Mundo inclusive refletiu esta postura. Jogadores de grande qualidade técnica, como Phil Foden, Cole Palmer e Trent Alexander-Arnold, ficaram fora do grupo. Enquanto isso, o técnico levou atletas com características semelhantes para diferentes posições, buscando manter a estrutura mesmo quando precisasse fazer mudanças.

Foi desta forma que surgiram discussões sobre a disputa entre Jude Bellingham e Morgan Rogers pela posição de camisa 10, além da concorrência de Anthony Gordon e Marcus Rashford pelo lado esquerdo do ataque. Tuchel parecia disposto a preservar o modelo acima das individualidades, apostando que a repetição dos movimentos faria a Inglaterra crescer durante a competição.

Alguns princípios apareceram ao longo do Mundial. A equipe buscava iniciar as jogadas com passes curtos, atraindo a marcação adversária antes de acelerar o jogo. A partir daí, a proposta era avançar rapidamente pelo meio ou utilizar bolas mais longas para encontrar os atacantes diante de uma defesa menos organizada.

O segundo tempo da vitória por 4 a 2 sobre a Croácia, ainda na estreia, foi provavelmente o melhor exemplo desta Inglaterra. Naquela partida, a seleção conseguiu atrair a pressão, acelerar no momento correto e encontrar espaços com jogadores atacando a última linha.

Tuchel também insistiu bastante na construção pelos lados do campo. A ideia era utilizar triângulos formados por lateral, meio-campista e ponta, com trocas de posição e infiltrações até a linha de fundo. O treinador demonstrou pouca disposição para fazer a equipe trabalhar com frequência pelo corredor central, confiando que os movimentos nas laterais seriam a principal fonte de criação.

Porém, os mecanismos não funcionaram com regularidade. Mesmo quando venceu, a Inglaterra muitas vezes dependeu de lances mais espontâneos do que propriamente de jogadas construídas pelo sistema.

Contra a Noruega, por exemplo, os dois gols surgiram em situações nas quais a defesa adversária estava desorganizada. No primeiro, um tiro de meta curto demais caiu nos pés de Elliot Anderson. A Inglaterra aproveitou o momento em que o rival ainda não havia recuperado sua estrutura no 4-5-1, acelerou a jogada e viu Bellingham marcar. O gol da vitória veio na segunda bola de um escanteio. Morgan Rogers finalizou de longe, o goleiro deu rebote e Bellingham apareceu para decidir novamente. Foram lances de talento, leitura rápida e improvisação, características muito mais próximas da Inglaterra de Southgate do que da equipe treinada para repetir movimentos específicos.

O próprio Tuchel demonstrou insatisfação após aquela partida. Mesmo com o resultado positivo, o treinador afirmou que a Inglaterra havia cometido erros táticos, jogado de forma lenta e repetido pouco os padrões trabalhados.

O problema ficou ainda mais evidente diante da Argentina. No momento em que a seleção precisava mostrar a identidade planejada pelo treinador, o time abandonou grande parte da proposta e passou a jogar apenas para defender a vantagem construída com o gol de Anthony Gordon.

Inglaterra continua sem saber controlar os grandes jogos

A principal diferença entre Southgate e Tuchel está na maneira como os dois montaram suas equipes. Enquanto o alemão começou pelo sistema, seu antecessor trabalhava de forma mais voltada aos jogadores.

Southgate procurava colocar os principais talentos ingleses em uma escalação equilibrada e funcional. A estratégia nem sempre funcionou, como mostrou a tentativa de utilizar Alexander-Arnold no meio-campo, mas permitia que nomes como Bellingham, Raheem Sterling e Cole Palmer atuassem em zonas onde poderiam fazer a diferença.

A Inglaterra avançou em diferentes torneios com uma base defensiva forte, boa capacidade nas bolas paradas e liberdade para seus principais jogadores decidirem partidas. O ataque não tinha tantos movimentos repetidos quanto Tuchel desejava, porém contava com mais espaço para ações individuais.

Quando assumiu a seleção, o alemão criticou exatamente esta falta de padrão. Em março de 2025, ao analisar a campanha inglesa na Eurocopa anterior, Tuchel afirmou que a equipe não tinha identidade, clareza, ritmo ou repetição. Também declarou que os jogadores pareciam ter mais medo da eliminação do que vontade de conquistar o título.

Dezesseis meses depois, a mesma análise poderia ser feita sobre a derrota para a Argentina.

A Inglaterra abriu o placar aos 55 minutos, mas teve somente 12% de posse de bola até o empate de Enzo Fernández, aos 85. Durante meia hora, a equipe praticamente deixou de tentar controlar o jogo e permitiu que os argentinos atacassem em sequência. Tuchel afirmou após a partida que o recuo não havia sido uma orientação sua, mas sim uma reação dos jogadores. Ainda assim, as substituições escolhidas pelo treinador ajudaram a aumentar a sensação de que a Inglaterra passou a pensar apenas em sobreviver.

Nico O’Reilly e Dan Burn foram acionados durante o confronto, aumentando a presença defensiva do time. A Argentina, por outro lado, fez mudanças mais agressivas, assumindo riscos para pressionar e buscar o resultado.

A situação lembra derrotas sofridas por Southgate. Em muitos daqueles jogos, também não parecia existir uma ordem clara para que a equipe se defendesse tão perto da própria área. O problema surgia porque a Inglaterra não conseguia sair jogando, manter a posse e utilizar a bola para diminuir a pressão adversária.

Sem jogadores capazes de receber, proteger e fazer a equipe respirar, a seleção acabava presa no campo defensivo. O adversário recuperava rapidamente a posse e iniciava um novo ataque, até que a vantagem inglesa deixava de existir. Foi desta forma contra a Argentina. Mesmo com outro treinador e uma abordagem construída por um caminho diferente, a Inglaterra voltou a apresentar a mesma fragilidade em um jogo decisivo.

Tuchel tentou criar uma seleção mais organizada e previsível para os próprios jogadores, enquanto Southgate preferia dar maior liberdade aos principais talentos. No entanto, nenhum dos dois conseguiu solucionar a dificuldade inglesa de controlar partidas grandes depois de assumir a vantagem.

A eliminação, portanto, não significa que nada tenha mudado. A Inglaterra apresentou novos movimentos, uma ideia mais definida para construir as jogadas e um modelo diferente de escolha dos atletas. Porém, quando a semifinal entrou em seu momento mais complicado, os avanços desapareceram.

Para voltar a disputar um título e transformar boas campanhas em conquistas, a seleção inglesa precisará encontrar uma forma de unir organização e qualidade técnica. Tuchel tem padrões mais claros do que Southgate, mas ainda não conseguiu fazer com que eles apareçam sob pressão. Enquanto isso não acontecer, a Inglaterra seguirá correndo o risco de mudar o treinador, alterar o sistema e terminar os grandes torneios com a mesma sensação.

Créditos da foto de capa: Richard Pelham/Getty Images.