Durante anos, a Inglaterra conviveu com a fama de não conseguir transformar boas campanhas em títulos. Nas últimas grandes competições, a seleção passou a frequentar semifinais e finais com muito mais regularidade, mas um problema continua aparecendo justamente nos momentos mais importantes: a dificuldade para administrar uma vantagem diante dos principais adversários.
A derrota por 2 a 1 para a Argentina, na semifinal da Copa do Mundo, reforçou exatamente esse cenário. Depois de controlar boa parte da partida e abrir o placar com Anthony Gordon, a equipe de Thomas Tuchel mudou completamente sua postura, abriu mão de atacar e permitiu que a atual campeã mundial crescesse até conseguir a virada nos minutos finais.
Mais do que uma eliminação, o confronto em Atlanta levantou novamente um debate que acompanha a seleção inglesa há décadas. Afinal, o problema está apenas nas decisões do treinador ou existe uma dificuldade coletiva da Inglaterra em lidar com a pressão quando está muito perto de uma decisão?
A vantagem mudou completamente o comportamento da Inglaterra

Até o gol de Anthony Gordon, a Inglaterra executava praticamente tudo aquilo que Thomas Tuchel havia planejado. A marcação alta dificultava a saída de bola argentina, Lionel Messi encontrava poucos espaços e os ingleses conseguiam controlar o ritmo da partida mesmo diante da atual campeã mundial.
O cenário mudou imediatamente após o 1 a 0.
Em vez de aproveitar o momento para continuar pressionando ou explorar os espaços deixados pela Argentina, que naturalmente passou a atacar mais, a Inglaterra recuou suas linhas e passou a defender próxima da própria área.
A mudança ficou ainda mais evidente nas substituições.
Tuchel retirou um atacante para colocar Ezri Konsa, transformando o sistema em uma linha com cinco defensores. Depois vieram Dan Burn e Nico O’Reilly, reforçando ainda mais o setor defensivo. Enquanto isso, opções ofensivas como Marcus Rashford e Ivan Toney permaneceram no banco até os acréscimos.
Na prática, a mensagem transmitida foi clara: o objetivo deixou de ser buscar o segundo gol e passou a ser apenas resistir.
O problema é que, diante de uma equipe com Lionel Messi, Julián Álvarez, Lautaro Martínez e Enzo Fernández, defender durante quase quarenta minutos exige um nível de concentração praticamente perfeito.
A Argentina aproveitou esse cenário para aumentar a pressão até encontrar os espaços que antes não existiam.
Os números mostram como a Inglaterra praticamente deixou de jogar

A sensação de domínio argentino fica ainda mais evidente quando os dados da partida são analisados.
Entre o gol de Anthony Gordon e a virada da Argentina, a Inglaterra teve somente 11,9% de posse de bola, o menor índice já registrado para uma equipe que estava vencendo uma partida de Copa do Mundo em um período superior a dez minutos.
Durante esse intervalo, os ingleses trocaram apenas 26 passes certos e praticamente abandonaram qualquer tentativa de construção ofensiva.
Enquanto isso, a Argentina ocupava constantemente o campo de ataque.
Outro dado ajuda a explicar essa superioridade.
Após o gol inglês, Lionel Messi passou a receber muito mais a bola nas zonas ofensivas. Até aquele momento, o camisa 10 havia criado poucas oportunidades. Depois da vantagem inglesa, passou a controlar completamente a partida, distribuindo as assistências para os gols de Enzo Fernández e Lautaro Martínez.
Sem conseguir manter a posse de bola nem oferecer perigo nos contra-ataques, a Inglaterra passou praticamente meia hora apenas reagindo aos ataques argentinos.
Esse tipo de comportamento também ficou evidente nas escolhas individuais.
Dan Burn, por exemplo, entrou justamente para reforçar a defesa, mas quase não participou do jogo defensivamente porque a bola simplesmente não saía da intermediária inglesa.
Toda a equipe passou a atuar cada vez mais próxima de Jordan Pickford.
O roteiro da semifinal reforça um problema que acompanha a Inglaterra há anos

A derrota para a Argentina não foi um caso isolado.
Nos últimos anos, a Inglaterra já viveu situações muito semelhantes.
Na semifinal da Copa do Mundo de 2018, abriu vantagem diante da Croácia e sofreu a virada.
Na final da Eurocopa de 2020, também saiu na frente contra a Itália antes de perder o título.
Agora, novamente, abriu o placar em uma semifinal de Copa do Mundo e não conseguiu sustentar o resultado.
Por isso, muitos analistas ingleses acreditam que o problema vai além das escolhas de Thomas Tuchel.
Existe uma dificuldade recorrente da seleção em administrar emocionalmente esse tipo de situação.
Ao conquistar a vantagem, a Inglaterra costuma abandonar aquilo que lhe trouxe sucesso durante a partida e passa a atuar exclusivamente para proteger o resultado.
Contra seleções de menor qualidade, essa estratégia pode funcionar.
Diante da Argentina, atual campeã mundial, acabou sendo fatal.
A semifinal mostrou que talento nunca foi o principal problema inglês.
O elenco conta com jogadores de elite como Harry Kane, Jude Bellingham, Declan Rice e Anthony Gordon.
O desafio está justamente em manter a mesma personalidade quando o jogo entra em seus momentos decisivos.
Enquanto não conseguir transformar vantagem em controle, e controle em classificação, a Inglaterra continuará convivendo com campanhas competitivas, mas também com eliminações que deixam a sensação de que havia futebol suficiente para chegar muito mais longe.
(Foto de capa: Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images)



