Inglaterra não precisou apenas vencer adversários para chegar à semifinal da Copa do Mundo de 2026. A equipe comandada por Thomas Tuchel também travou uma verdadeira maratona pelos céus da América do Norte. Em um Mundial disputado por Estados Unidos, México e Canadá, os ingleses se transformaram na seleção que mais viajou durante a competição, acumulando mais de 14 mil milhas aéreas antes mesmo da disputa por uma vaga na decisão.
O número impressiona e ajuda a ilustrar um dos novos desafios do primeiro Mundial com 48 seleções. Nunca um torneio exigiu tantos deslocamentos entre diferentes cidades e países, criando uma variável inédita na preparação das equipes. Enquanto algumas seleções praticamente permaneceram na mesma região durante toda a competição, outras cruzaram o continente diversas vezes.
A Inglaterra é o principal exemplo desse contraste.
Inglaterra lidera ranking de viagens da Copa do Mundo
Os dados divulgados pela BBC Sport mostram que a Inglaterra percorreu aproximadamente 14 mil milhas para chegar às semifinais.
Nenhuma outra seleção restante viajou tanto. A Espanha aparece logo atrás, ultrapassando as 12 mil milhas, enquanto a Suíça também superou a marca de 10 mil. Já Argentina e França viveram cenários completamente diferentes. Mesmo tendo estabelecido sua base também em Kansas City, os argentinos viajaram pouco mais de oito mil milhas.
Os franceses praticamente permaneceram na costa leste dos Estados Unidos durante quase todo o torneio e acumularam menos de duas mil milhas antes da viagem para Dallas, onde enfrentam a Espanha na semifinal.
Essa diferença chama bastante atenção. Enquanto a Inglaterra cruzava o continente constantemente, a França economizava energia permanecendo praticamente na mesma região.
Base fixa aumentou os deslocamentos ingleses
O principal motivo para o alto número de viagens da Inglaterra foi a decisão da comissão técnica de manter uma base fixa em Kansas City.
Após cada compromisso, a delegação retornou ao Missouri para continuar sua preparação. Isso significou voos frequentes para cidades como Atlanta, Boston, Miami e até Cidade do México.
Cada partida representava praticamente uma nova ponte aérea.
A logística acabou se tornando quase tão importante quanto o próprio treinamento.
Comparação histórica mostra dimensão do desafio
Os números ficam ainda mais impressionantes quando comparados a edições anteriores da Copa do Mundo.
Segundo o levantamento apresentado pela BBC, a Inglaterra já percorreu uma distância superior à registrada por seleções que chegaram longe em Mundiais anteriores.
Nem mesmo equipes que disputaram torneios espalhados por países de grande extensão territorial, como Brasil em 2014 ou Rússia em 2018, precisaram viajar tanto.
A única diferença importante aconteceu na Copa de 2022, disputada no Catar.
Na ocasião, todas as partidas ocorreram em estádios separados por poucos quilômetros, praticamente eliminando qualquer desgaste relacionado ao transporte aéreo.
Agora, o cenário mudou completamente.
Copa com três países criou novo desafio
A expansão do Mundial para 48 seleções trouxe um desafio pouco discutido antes da competição. Além do desgaste físico das partidas, jogadores passaram a lidar constantemente com aeroportos, mudanças climáticas, fusos horários e longos voos.
Na prática, algumas delegações passaram semanas vivendo entre hotéis, aviões e centros de treinamento.
A Inglaterra representa exatamente esse cenário. Já França, por outro lado, conseguiu aproveitar uma tabela muito mais favorável em relação aos deslocamentos.
Espanha também acumulou longa quilometragem
Outro destaque negativo do levantamento é a Espanha.
A seleção espanhola aparece como a segunda equipe que mais voou durante o torneio. Foram mais de 12 mil milhas percorridas antes mesmo da semifinal contra a França. A Suíça completa o pódio desse ranking pouco desejado.
Segundo a própria federação suíça, a equipe precisou realizar uma espécie de “tour” pela América do Norte devido à distribuição das partidas. Marrocos também aparece entre as seleções que mais viajaram.
A equipe retornava constantemente para sua base em Nova Jersey, mesmo atuando em cidades como Houston, Atlanta, Boston e Monterrey.
A viagem realmente influencia dentro de campo?
Essa talvez seja a pergunta mais importante.
Existe impacto direto entre viajar tanto e apresentar queda de rendimento? A resposta ainda não é definitiva. Não há um estudo capaz de afirmar exatamente quanto essas viagens interferem no desempenho esportivo durante a competição.
Entretanto, alguns treinadores já começaram a relatar sinais de desgaste.
O técnico da Noruega, Ståle Solbakken, comentou que parte do elenco apresentou sintomas leves de gripe ao longo do torneio.
Segundo ele, a combinação entre voos constantes, ar-condicionado, mudanças de ambiente e convivência intensa dentro da delegação favorece esse tipo de problema.
“Seria estranho se nada acontecesse”, resumiu o treinador.
Inglaterra tenta minimizar desgaste
Mesmo enfrentando tantas viagens, a comissão técnica inglesa buscou criar um ambiente confortável para os jogadores.
Durante a estadia em Kansas City, o elenco participou de diversas atividades fora do futebol.
Thomas Tuchel, Harry Kane, Dan Burn e Djed Spence visitaram o Kansas City Royals, tradicional equipe da MLB.
O treinador alemão, inclusive, realizou o famoso arremesso cerimonial antes de uma das partidas de beisebol e recebeu uma camisa personalizada do clube.
Após a emocionante vitória por 3 a 2 sobre o México, o grupo também ganhou cerca de 36 horas de folga para conhecer melhor a cidade.
Pequenos momentos que ajudam a aliviar a pressão acumulada durante semanas de competição.
Argentina pode levar vantagem?
Na semifinal diante da Inglaterra, a Argentina chega com uma vantagem curiosa.
Embora também tenha utilizado Kansas City como base, os argentinos viajaram cerca de seis mil milhas a menos durante a competição.
Naturalmente, isso não garante qualquer superioridade técnica. Mas em uma Copa do Mundo marcada por jogos intensos, tempo reduzido de recuperação e clima variado, qualquer detalhe pode fazer diferença.
Um fator invisível que pode decidir a Copa
Historicamente, as análises sobre Copa do Mundo costumam girar em torno de esquemas táticos, estrelas, estatísticas ofensivas ou desempenho defensivo.
O Mundial de 2026 acrescentou um ingrediente novo. A logística. Nunca antes uma seleção precisou administrar tantos quilômetros para continuar sonhando com o título. A Inglaterra chega às semifinais liderando justamente esse ranking pouco desejado.
Ainda não existe qualquer prova de que tantas viagens prejudiquem diretamente o rendimento em campo. Mas também é impossível ignorar o desgaste acumulado após semanas cruzando a América do Norte.
Se esse fator realmente influenciará o resultado das semifinais, apenas os próximos 90 minutos ou talvez 120 poderão responder. Até lá, fica a curiosidade: além de disputar uma vaga na final, a Inglaterra já venceu, com folga, o “campeonato” das milhas aéreas nesta Copa do Mundo.
Foto: Getty Images



