Tuchel e Bellingham - Inglaterra
Futebol Copa do Mundo

Tuchel está provocando Bellingham propositalmente na Inglaterra?

Jude Bellingham voltou a ser decisivo para a Inglaterra na vitória por 2 a 1 contra a Noruega, em Miami, marcando os dois gols que garantiram a classificação para a semifinal da Copa do Mundo. No entanto, mesmo após o resultado positivo, o meio-campista e Thomas Tuchel voltaram a expor uma relação marcada por críticas, respostas públicas e certa tensão.

Após o confronto, Bellingham foi informado de que o treinador havia demonstrado decepção com o desempenho inglês. A resposta do jogador foi direta: “Tanto faz”. Embora a declaração tenha aumentado as discussões sobre a relação entre os dois, a verdade é que essa dinâmica tem ajudado a Inglaterra, principalmente por tirar do atleta algumas das melhores atuações de sua carreira com a seleção.

Tuchel evita tratar Bellingham como uma estrela intocável

Thomas Tuchel nunca negou a qualidade de Jude Bellingham. Após a vitória contra a Noruega, o treinador classificou o jogador como um atleta de nível mundial. Porém, ao mesmo tempo, evita construir o time ao redor da ideia de que o meio-campista está acima dos outros nomes do grupo.

Ao longo da Copa do Mundo, Tuchel tem reforçado que o bom desempenho do camisa 10 passa pelo comprometimento com a equipe e por sua capacidade de atuar para o coletivo. Inclusive, antes do começo do torneio, o técnico manteve aberta a possibilidade de utilizar Morgan Rogers na posição ocupada pelo atleta do Real Madrid.

Mesmo quando recebe perguntas diretamente sobre Bellingham, Tuchel costuma dividir os elogios com outros jogadores. Após o confronto contra a Noruega, por exemplo, o treinador falou rapidamente sobre a função do meio-campista pela direita, mas aproveitou a resposta para destacar a atuação de Rogers em uma posição diferente.

Desta forma, o comandante deixa claro que Bellingham tem enorme importância, mas também precisa disputar espaço e seguir as mesmas exigências do restante do elenco. Para um jogador que conhece a própria qualidade e tem uma personalidade forte, esse tratamento pode funcionar como uma provocação.

Até agora, a resposta tem aparecido dentro de campo. Bellingham marcou seis gols na Copa do Mundo e balançou as redes em dois jogos consecutivos do mata-mata. O único jogador mais jovem a alcançar o feito havia sido Pelé, em 1958, quando tinha apenas 17 anos.

Além disso, o meio-campista participou diretamente de sete dos 11 gols marcados pela Inglaterra na competição. Depois de viver uma temporada complicada no Real Madrid, principalmente após retornar de uma cirurgia no ombro, o jogador recuperou seu protagonismo justamente no momento mais importante.

A relação entre os dois também ganhou força pelas críticas que Bellingham recebeu antes da Copa. Durante a temporada, Morgan Rogers marcou 14 gols, deu 11 assistências e foi importante no título da Liga Europa conquistado pelo Aston Villa. Com o bom momento do jogador, aumentaram as opiniões de que ele deveria assumir a titularidade da seleção.

Alan Shearer e Jamie Carragher estiveram entre os nomes que defenderam a ausência de Bellingham na equipe inicial. Também houve quem sugerisse que o meio-campista sequer deveria disputar o torneio, por causa das dúvidas a respeito do impacto de sua personalidade no ambiente do grupo.

Porém, Tuchel também tomou decisões que indicavam a intenção de aproveitar seu principal jogador. A convocação de Jordan Henderson, atleta admirado por Bellingham, foi vista como uma maneira de aumentar a liderança no elenco e ajudar o camisa 10 a manter o equilíbrio.

Bellingham responde às críticas enquanto Inglaterra avança

Mesmo cercado por questionamentos, Bellingham se tornou o jogador mais decisivo da campanha inglesa. O meio-campista marcou um gol importante contra a Croácia, voltou a balançar as redes diante do Panamá, assinou dois gols contra o México e repetiu o feito nas quartas de final.

Neste cenário, a cobrança de Tuchel parece ter ajudado a manter o atleta totalmente envolvido com a competição. No entanto, o treinador também corre riscos ao manter uma postura constantemente exigente com uma de suas principais peças.

Bellingham já apresentou problemas de comportamento em momentos diferentes da carreira. O jogador foi expulso após ofender um árbitro em uma partida pelo Real Madrid, chutou um cooler depois da derrota da Inglaterra para Senegal em um amistoso e fez um gesto obsceno em direção ao banco da Eslováquia após marcar na Eurocopa de 2024.

O próprio atleta reconhece que algumas críticas são merecidas. Após a vitória sobre a Croácia, Bellingham afirmou que entende as consequências de suas atitudes e não guarda rancor de quem aponta os erros cometidos. Contra a Noruega, porém, o meio-campista mostrou maturidade em um momento delicado. Bellingham disputou 210 minutos do mata-mata pendurado com um cartão amarelo. Caso fosse advertido contra México ou Noruega, ficaria fora do confronto seguinte.

Faltando dez minutos para o fim da prorrogação, Tuchel decidiu substituir o jogador. Além do desgaste físico, a possibilidade de uma suspensão certamente teve peso na escolha. Bellingham deixou o campo sem reclamar, cumprimentou o treinador e acompanhou os minutos finais no banco de reservas. Depois da classificação, os dois voltaram a discordar publicamente. Tuchel afirmou estar feliz e orgulhoso, mas reforçou que, como treinador, também tem exigências e não havia gostado completamente da atuação da equipe.

Bellingham respondeu dizendo que talvez o comandante não entendesse como era atuar naquelas condições. O jogador também defendeu o grupo, destacando que a Inglaterra não conseguiria vencer todas as partidas com atuações dominantes e muitas trocas de passes. Em certos momentos, seria necessário encontrar outros caminhos para conquistar o resultado.

Agora, essa relação será colocada à prova contra a Argentina. Assim como a Inglaterra, a seleção argentina avançou mesmo sem apresentar seu melhor futebol. Lionel Messi tem contribuído com gols e assistências, enquanto Julián Álvarez voltou a aparecer de maneira decisiva no confronto das quartas de final.

Bellingham também encontrará um meio-campo preparado para transformar a semifinal em um jogo de muita disputa. Nomes como Rodrigo De Paul, Alexis Mac Allister, Cristian Romero e Lisandro Martínez devem aumentar a intensidade física e tentar interromper o ritmo inglês.

Será um desafio técnico, mas também emocional. Em uma partida de enorme pressão, o camisa 10 precisará controlar sua personalidade sem perder a força que o tornou tão decisivo. Tuchel, por sua vez, terá de encontrar novamente o ponto certo entre a cobrança e a confiança.

Até agora, as críticas do treinador e as respostas de Bellingham mantiveram os dois no mesmo caminho. Embora a relação pareça longe de ser tranquila, a Inglaterra chega à semifinal com sua principal estrela vivendo o melhor momento no torneio.

Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.