Eu era apenas uma criança quando a Espanha venceu a Holanda em na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Apesar disso, lembro com clareza de festejar ao lado do meu avô o gol de Andrés Iniesta. Depois de ter visto a Espanha ganhar a Euro de 2008, senti que poderíamos vencer a Copa de 2010, e esse sentimento voltou no ciclo para 2026, após a conquista da Euro de 2024. O sentimento de que, anos depois, voltamos a ser os melhores do mundo.
Bem, para quem não me conhece, sou um hispano-brasileiro que possui dupla nacionalidade desde os 13 anos de idade. E muito devido ao futebol, ao meu pai e aos meus avós, sempre tive um apego maior pela seleção espanhola, principalmente por sua forma de jogar, pela qual sou apaixonado desde pequeno.
Por torcer para outra seleção sendo brasileiro, sofri com isso. Muitos amigos e colegas não entendem o porquê de alguém que nasceu no país pentacampeão do mundo torcer para uma seleção que só tinha vencido um mundial. Não me entendam mal, eu torço para o Brasil. Me emociono, me irrito e gostaria de ver a seleção ganhar um mundial novamente — algo que vi apenas em 2002, aos 3 anos de idade, ou seja, tenho apenas flashes daquela manhã de domingo.
Então, até por isso, ter visto a Espanha vencer e dominar o futebol de seleções no século XXI me fisgou, e desde então sou um torcedor da Roja.
Espanha, família e futebol: um time capaz de aproximar laços
Meu pai raramente para para ver jogo. Mesmo com o Fluminense, são raros os momentos em que ele senta ao meu lado para assistir a uma partida. Isso muda quando se trata da seleção espanhola. Meu pai é um dos caras que possui algo raro: gosta mais do futebol de seleções do que o de clubes. Então, sempre que a Espanha está jogando, ele para para assistir, mesmo que seja um amistoso.
Na verdade, as minhas primeiras experiências em eventos esportivos foram vendo a Espanha. Em 2008, no Mundial de Futsal, meu pai me levou para ver um Espanha 4 x 1 República Tcheca, no Maracanãzinho. E em 2013, na Copa das Confederações, assistimos aos 10 a 0 na simpática seleção do Taiti. Infelizmente, por burocracias da FIFA, não conseguimos ingressos para a Copa do Mundo de 2014, mas foi até bom, visto o terrível mundial que fez a já envelhecida seleção espanhola.
Durante alguns anos, demoramos a ver a Espanha ser competitiva novamente. Uma reformulação que custava a ocorrer e que resultou em eliminações deprimentes na Euro de 2016 e nos mundiais de 2018 e 2022. O cenário começou a melhorar na Euro de 2021. Mesmo tendo caído para a campeã Itália nos pênaltis, na semifinal, ali a seleção espanhola dava sinais de que começava a mostrar que poderia voltar a ser protagonista. Mas Luis Enrique não conseguiu fazer a equipe chegar ao próximo nível e caiu para Marrocos nas oitavas, no Catar.
E, para a surpresa de muitos, o segredo de voltar a vencer estava nas categorias de base. Em 2021, Luis de la Fuente era o treinador do time medalha de prata em Tóquio, nos Jogos Olímpicos. E foi De la Fuente o escolhido para assumir o cargo de treinador principal.
Na Eurocopa de 2024, uma seleção que chegou um pouco desacreditada fez uma competição irretocável. Eliminando a dona da casa Alemanha nas quartas e a França na semifinal, a Espanha chegou à final contra a Inglaterra.
E lá estava eu com meu pai. Na sala de casa, vendo a final em Berlim. Campeões! Com o gol de Oyarzabal, a Espanha bateu a Inglaterra e venceu a Euro pela terceira vez neste século: 2008, 2012 e 2024. Eu tinha visto a Roja se tornar a maior campeã do continente.
E, após o título na Alemanha, voltei a acreditar que a Espanha poderia, enfim, voltar a ser campeã do mundo. Algo que eu esperava desde o gol de Iniesta em 2010. O começo no mundial da América do Norte não foi fácil. Um zero a zero contra a valente seleção de Cabo Verde. Mas, após o tropeço na estreia, as vitórias ocorreram, sempre com aquela sensação de que “ainda falta algo”, como se a seleção ainda estivesse devendo futebol.
Nos 16 avos de final contra a Áustria, eu estava mais uma vez com meu pai, assistindo ao jogo na sala. Vitória tranquila, mas com a sensação de que ainda faltava algo. Vieram as oitavas contra Portugal. Assisti ao jogo com minha avó, e ela riu a beça quando dei um grito no gol de Mikel Merino. Nas quartas contra a Bélgica, assisti sozinho, mas mandei uma mensagem para o meu avô, que viu a final de 2010 comigo, e ele me respondeu que estava acompanhando a seleção e vendo os jogos.
No recital contra a França, vi o jogo sozinho, mas celebrei com meu pai no final. Enfim, a Espanha estava de volta à final de uma Copa do Mundo. E neste 19 de julho, vi o jogo em família. Como sempre, estava ao lado do meu pai no sofá e sofremos com os gols perdidos no massacre espanhol contra uma Argentina que só quis se defender, tanto nos 90 minutos quanto nos outros 30 da prorrogação.
Mas o futebol venceu. A Espanha do jogo de posição; a Espanha de Luis Aragonés, de Vicente del Bosque, de Xavi, Iniesta, Casillas, Sergio Ramos, Fábregas, David Silva e Villa, Fernando Torres e Puyol. E a Espanha de Luis de la Fuente, Rodri, Lamine Yamal, Nico Williams, Cubarsí, Cucurella, Unai Simón e do herói improvável, Ferran Torres. Aos 106 minutos de jogo, o chutaço de Torres fez as redes albicelestes balançarem e o meu pai vibrar com o gol. Eu estava tão tenso que não consegui comemorar nem após o apito final.
A Espanha é bicampeã do mundo! Logo em seguida, mandei mensagem para o meu avô, com uma foto abraçado com meu pai, vestindo a camisa roja. Enfim, a segunda estrela chegou. O futebol coroou mais uma vez uma seleção que, mesmo nos seus piores momentos, não abriu mão de sua forma de jogar. Um time que usa a posse de bola como forma de se defender e, até por isso, foi a melhor defesa do mundial, sofrendo apenas um gol em toda a competição.
E para deixar tudo ainda melhor e mais simbólico, Rodri levou o prêmio de melhor jogador da Copa. O meia do Manchester City pode não ser tão decisivo com gols e assistências, mas foi o jogador responsável por fazer a Espanha impor sua forma de jogar, dando ritmo ao meio-campo espanhol.
Em mais uma campanha de título, abracei meu pai, ri com minha avó e comemorei — meio que, dessa vez, um pouco distante — com meu avô. Esses momentos deixam a conquista ainda mais especial. Espanha campeã da Copa do Mundo de 2026!
Dedico esse título aos meus avós, ao meu pai e a todos os meus tios e primos que, neste 19 de julho, estão celebrando a conquista da segunda estrela.
Ganar y ganar y volver a ganar. — Luis Aragonés.
(Foto: AFP)