Falar da passagem de Isco pelo Real Madrid como um fracasso exige cuidado. O rótulo até pode fazer sentido olhando apenas para os últimos anos, mas fica completamente distorcido quando se analisa o todo. Poucos jogadores na história recente do clube conquistaram tanto quanto o meia espanhol — e, ao mesmo tempo, terminaram sua trajetória com uma sensação tão contraditória.
Isco completou 33 anos ainda tentando reencontrar regularidade após uma sequência pesada de lesões. Hoje no Real Betis, ele voltou a ser protagonista, mas o caminho até essa recuperação foi marcado por altos extremos e uma queda brusca no momento mais inesperado da carreira.
Um início brilhante e espaço entre os melhores do mundo
Quando chegou ao Real Madrid em 2013, vindo do Málaga, Isco era visto como uma das maiores promessas do futebol europeu. Vinha de um título europeu com a seleção sub-21 da Espanha e do prêmio Golden Boy, que o colocava como o melhor jovem jogador do mundo naquele momento.
Sob o comando de Carlo Ancelotti, ele não demorou a ganhar espaço. Talvez nunca tenha sido um titular absoluto incontestável, mas sempre foi peça importante em um elenco recheado de estrelas. Sua capacidade de controlar o ritmo do jogo, segurar a bola sob pressão e decidir em espaços curtos o tornaram um jogador único dentro daquele time.
Mas foi com Zinedine Zidane que Isco atingiu seu auge. O francês enxergava no meia algo que poucos treinadores conseguiram explorar: liberdade criativa sem comprometer o coletivo. Em um time que dominou a Europa, Isco teve papel central.

Auge nas decisões e protagonismo em títulos históricos
O período entre 2016 e 2018 representa o pico da carreira de Isco. Nas finais de Champions League, competição em que o Real Madrid construiu uma dinastia, ele deixou de ser apenas coadjuvante para virar protagonista.
Contra a Juventus, em 2017, e diante do Liverpool, em 2018, começou como titular — algo que diz muito sobre seu nível, considerando que nomes como Gareth Bale ficaram no banco. Era o reconhecimento de que, naquele momento, Isco oferecia equilíbrio, criatividade e controle em jogos decisivos.
Ao todo, foram cinco títulos da UEFA Champions League, além de ligas nacionais, mundiais e copas. Números que, por si só, desmontam qualquer ideia simplista de fracasso.

A virada negativa e o conflito que mudou tudo
A partir da temporada 2018-19, tudo começou a mudar. Isco iniciou o ciclo em alta, mas problemas físicos, como uma apendicite, interromperam seu ritmo. Paralelamente, a troca de comando técnico teve impacto direto em sua trajetória.
Com a chegada de Santiago Solari, a relação se deteriorou rapidamente. Isco perdeu espaço, foi deixado de fora até de convocações para o banco e se envolveu em episódios internos que desgastaram ainda mais sua situação.
O ponto mais crítico veio quando o treinador questionou publicamente seu comprometimento físico e competitivo. A partir dali, o meia praticamente desapareceu do time. Mesmo com o retorno de Zidane, que tentou recuperar sua melhor versão, o dano já estava feito.

Queda de protagonismo e saída discreta
Os números ajudam a entender essa queda. Nas primeiras cinco temporadas, Isco mantinha uma média próxima de 3 mil minutos por ano. Nos últimos quatro anos, esse número caiu drasticamente para pouco mais de 1.200.
Na temporada de despedida, 2021-22, sua participação foi quase simbólica. Atuou pouco, não teve minutos na Champions, mas ainda assim fez parte de mais um título europeu — um retrato quase poético da sua passagem pelo clube: presente nas conquistas, mesmo longe do protagonismo.
Esse contraste entre sucesso coletivo e perda individual de espaço é o que alimenta a narrativa de “fracasso”. Não pelo que ele conquistou, mas pela forma como terminou.
Um “fracasso” que poucos na história tiveram
Chamar a trajetória de Isco no Real Madrid de fracasso é, no mínimo, paradoxal. Foram 19 títulos em nove temporadas, participações decisivas em finais e momentos em que foi considerado um dos melhores meio-campistas do mundo.
Por outro lado, também é impossível ignorar os últimos anos, marcados por queda física, problemas mentais e dificuldades de adaptação a novos contextos táticos. O próprio jogador reconhece isso, assumindo responsabilidade pelo declínio.
Talvez a definição mais justa esteja no meio do caminho. Isco não fracassou — ele viveu uma carreira de extremos dentro de um dos clubes mais exigentes do planeta.
E no fim, sua história no Real Madrid acaba sendo isso: um sucesso gigantesco que terminou de forma melancólica. Um “fracasso” apenas na narrativa final, mas não na essência do que foi construído ao longo dos anos.
