O UFC pode estar entrando em uma fase diferente daquela que marcou boa parte de sua história recente. Durante anos, algumas categorias foram dominadas por campeões que permaneceram no topo por longos períodos, construíram grandes sequências de vitórias e se transformaram em referências da organização. Nomes como Anderson Silva, Georges St-Pierre, Jon Jones, Demetrious Johnson e Khabib Nurmagomedov ajudaram a criar essa imagem de lutadores que pareciam estar acima dos demais.
Agora, porém, essa realidade está mudando. Diversos campeões e grandes nomes considerados favoritos foram derrotados recentemente, deixando as divisões cada vez mais equilibradas. Nesse cenário, Islam Makhachev aparece como uma das últimas grandes figuras capazes de representar essa dominância.
O russo chega ao UFC 330 diante de Ian Machado Garry com uma responsabilidade que vai além da defesa do cinturão dos meio-médios. Uma vitória manterá viva a presença de um campeão considerado superior ao restante da categoria. Uma derrota, por outro lado, poderá simbolizar o início definitivo de uma nova era no UFC, marcada pela paridade entre os lutadores.
As grandes estrelas estão caindo e o equilíbrio toma conta do UFC

O cenário atual é bastante diferente daquele encontrado durante algumas das eras mais dominantes do UFC. Nos últimos anos, os fãs se acostumaram a acompanhar campeões que permaneciam muito tempo no topo e eram considerados favoritos praticamente automáticos em suas defesas de cinturão.
Anderson Silva chegou a construir uma sequência histórica de vitórias no UFC. Georges St-Pierre dominou a divisão dos meio-médios durante anos. Demetrious Johnson estabeleceu uma das maiores sequências de defesas de cinturão da história da organização, enquanto Jon Jones se tornou uma referência nos meio-pesados e posteriormente conquistou o título dos pesos pesados.
Khabib Nurmagomedov também representa perfeitamente esse modelo. O russo encerrou sua carreira profissional invicto, com 29 vitórias em 29 lutas, e deixou a sensação de que poucos lutadores eram capazes de encontrar uma solução para seu estilo.
Islam Makhachev surgiu como uma espécie de sucessor dessa escola.
O ex-campeão dos leves construiu uma sequência impressionante e chegou a conquistar o cinturão dos meio-médios, aumentando ainda mais sua importância dentro da organização. Seu estilo combina controle no chão, quedas, pressão e uma evolução cada vez maior na luta em pé.
A diferença é que, ao redor dele, o cenário começou a mudar.
Ilia Topuria e Khamzat Chimaev, dois lutadores que também eram tratados como grandes dominadores de suas respectivas categorias, foram derrotados. Alex Pereira também não conseguiu conquistar um terceiro cinturão em sua tentativa mais recente.
Com tantos nomes importantes sendo superados, a hierarquia do UFC ficou menos previsível.
É justamente isso que torna a luta entre Makhachev e Ian Machado Garry tão interessante.
Garry representa uma nova geração de lutadores que pode impedir a continuidade desse modelo de campeões dominantes. Caso consiga derrotar Makhachev, a organização poderá passar a ter campeões mais próximos em nível, sem uma figura claramente acima de todos os outros.
A lista de possíveis campeões mostra isso. O cenário envolve nomes como Tom Aspinall ou Ciryl Gane nos pesos pesados, Carlos Ulberg nos meio-pesados, Sean Strickland nos médios, Justin Gaethje nos leves, Alexander Volkanovski nos penas, Petr Yan nos galos e Joshua Van nos moscas.
São grandes lutadores, mas nenhum deles possui atualmente a mesma imagem de invencibilidade que algumas das maiores lendas construíram durante seus reinados.
Makhachev pode ser o último grande campeão dominante

É por isso que a luta contra Garry ganhou uma importância tão grande.
Makhachev não está defendendo apenas um cinturão. Ele também está tentando preservar uma característica que sempre fez parte do UFC: a existência de campeões capazes de estabelecer uma distância clara entre eles e os demais concorrentes.
A ideia de um campeão dominante é fundamental para o espetáculo. Quando um lutador constrói uma longa sequência de vitórias, cada desafiante passa a carregar a expectativa de realizar algo extraordinário. O campeão é apresentado como o favorito absoluto, enquanto o desafiante precisa superar a dúvida coletiva.
Foi assim durante diferentes períodos da história do UFC.
O valor de uma zebra está justamente na dificuldade de acontecer. Quando um campeão é considerado praticamente imbatível, uma derrota se transforma em um acontecimento gigantesco. O problema é que, se os grandes campeões começam a cair constantemente, esse elemento desaparece.
É justamente essa possibilidade que aparece no UFC 330.
Caso Garry consiga derrotar Makhachev, o esporte poderá entrar em uma fase na qual os azarões deixam de ser exceção e passam a ocupar o topo das categorias.
O próprio ranking peso por peso demonstra essa transformação. Makhachev aparece no topo, enquanto outros nomes importantes chegam logo atrás, mesmo depois de terem perdido seus cinturões ou sofrido derrotas importantes.
Alexander Volkanovski é um exemplo interessante. O australiano foi derrotado duas vezes por Makhachev e também perdeu para Topuria, mas conseguiu se recuperar e voltou a ocupar uma posição de destaque. Alexandre Pantoja também aparece como referência mesmo depois de perder seu cinturão.
Isso mostra como o cenário está muito mais aberto.
A derrota de um campeão já não significa necessariamente que outro lutador passará anos dominando a divisão. Pelo contrário, cada categoria parece capaz de produzir novos desafiantes e novas mudanças no topo.
Para Makhachev, vencer Garry significa interromper esse processo.
O russo pode continuar sendo o ponto de estabilidade em um UFC cada vez mais imprevisível. Pode permanecer como aquele campeão que os adversários precisam superar para provar que realmente pertencem ao topo.
Garry, por sua vez, tem a oportunidade de representar exatamente o contrário. Uma vitória colocaria o jovem irlandês entre os principais nomes da organização e reforçaria a ideia de que a nova geração está pronta para assumir o controle.
Por isso, o UFC 330 pode ser muito mais importante do que apenas uma defesa de cinturão dos meio-médios.
Makhachev está tentando manter uma tradição que acompanha o UFC há décadas. Ele precisa provar que ainda existe espaço para um campeão dominante em uma época marcada pela imprevisibilidade.
Se vencer, continuará sendo uma das principais referências do esporte e poderá ampliar ainda mais sua sequência histórica.
Se perder, o UFC poderá definitivamente entrar em uma era de paridade, na qual qualquer campeão pode ser derrotado e nenhuma divisão terá um soberano absoluto por muito tempo.
No fim, a luta contra Ian Machado Garry representa exatamente isso: Makhachev não estará apenas defendendo um cinturão, mas também tentando defender a própria ideia de dominância que marcou algumas das maiores eras da história do UFC.
(Foto de capa: Reprodução/Facebook/UFC)