A imagem de Israel Adesanya, no UFC Seattle, sendo derrotado pela quarta vez consecutiva, não é apenas impactante, ela é simbólica. Um lutador que durante anos representou excelência técnica, domínio estratégico e confiança absoluta agora vive o momento mais delicado de sua carreira.
A questão que paira sobre o MMA mundial é inevitável: até que ponto essa sequência negativa mancha o legado de um ex-campeão dominante? Para entender o tamanho dessa discussão, é necessário revisitar a trajetória de Adesanya.
Antes de qualquer declínio, ele construiu um dos reinados mais sólidos da história recente dos pesos-médios. Com base no kickboxing de elite, movimentação refinada e leitura de luta quase cirúrgica, o nigeriano naturalizado neozelandês rapidamente se destacou no UFC.
A conquista do cinturão contra Robert Whittaker, em 2019, marcou o início de uma era. A partir dali, vieram defesas convincentes contra nomes como Paulo Borrachinha, Yoel Romero, Marvin Vettori e Jared Cannonier, além de uma revanche bem sucedida diante do próprio Whittaker.
Mais do que vitórias, Adesanya entregava performances dominantes, frequentemente neutralizando completamente seus adversários. Ele parecia sempre um passo à frente, esbanjando técnica, tática e uma confiança que o tornava sempre superior mentalmente.
Esse domínio começou a ruir quando encontrou Alex Pereira. A rivalidade entre os dois já carregava um histórico no kickboxing, e no MMA não foi diferente: Poatan se mostrou um encaixe difícil. A derrota em 2022, mesmo com Adesanya vencendo a luta até o nocaute, expôs fragilidades. Embora tenha recuperado o cinturão na revanche, o desgaste daquele confronto foi evidente.
A partir daí, a queda foi vertiginosa. A perda do título para Sean Strickland foi talvez o sinal mais alarmante: Adesanya parecia travado, sem respostas, incapaz de impor seu jogo. Na sequência, vieram revezes para Dricus du Plessis, Nassourdine Imavov e, mais recentemente, Joe Pyfer. Quatro derrotas seguidas, com performances cada vez mais inconsistentes, desenham um cenário preocupante.

Do auge técnico à previsibilidade: o que aconteceu com Adesanya?
O primeiro ponto é físico. Aos 36 anos, Adesanya já não apresenta o mesmo tempo de reação. Seu estilo sempre dependeu de precisão milimétrica, de esquivas por centímetros e contra-ataques no timing perfeito. Qualquer perda, mesmo que mínima, compromete toda a estrutura do seu jogo.
Outro fator decisivo é a evolução dos adversários. A nova geração de médios é mais completa. Lutadores como du Plessis, Imavov e Pyfer não entram apenas para trocar golpes, eles pressionam, encurtam a distância e levam a luta para o chão, explorando uma lacuna histórica no jogo de Adesanya. Se antes sua defesa de quedas era suficiente, hoje ela é constantemente exposta.
Há também uma questão tática. Durante anos, Adesanya foi um quebra-cabeça indecifrável. Hoje, esse problema para os adversários parece ter sido resolvido. Pressão constante, volume de golpes e ameaça de grappling se tornaram a fórmula para neutralizá-lo. Sean Strickland mostrou isso de forma emblemática, ditando o ritmo e anulando completamente o ex-campeão.
Mas talvez o fator mais difícil de medir seja o mental. Após conquistar o cinturão, ter defesas bem sucedidas e gozar de reconhecimento global, manter o mesmo nível de motivação é um desafio enorme. Analistas internacionais têm questionado se Adesanya ainda possui a “fome” necessária para competir no mais alto nível. Em um esporte tão exigente quanto o MMA, qualquer queda de intensidade mental se traduz diretamente em desempenho.
Diante desse cenário, o legado está manchado?
A resposta exige equilíbrio. Por um lado, é inegável que a forma como um atleta encerra sua carreira influencia a percepção pública. Sequências negativas, especialmente com derrotas contundentes, tendem a reescrever narrativas, vide Chuck Liddell e BJ Penn.
O Adesanya atual, que perde lutas após bons inícios ou que é dominado em áreas antes controláveis, contrasta fortemente com o campeão dominante de poucos anos atrás. Isso gera naturalmente uma dúvida se ele era realmente espetacular ou apenas demorou um pouco para ser decifrado.
Por outro lado, seu legado já está consolidado. Adesanya não foi apenas campeão, ele foi um dos lutadores mais técnicos e influentes de sua geração. Sua luta contra Kelvin Gastelum, por exemplo, é frequentemente citada como uma das maiores da história do UFC. Ele elevou o nível da divisão e deixou uma marca que não pode ser apagada por uma sequência negativa.
O que está em jogo agora não é a existência do legado, mas sua interpretação. Se continuar acumulando derrotas sem conseguir se reinventar, a memória recente pode se sobrepor ao auge. É um fenômeno comum em esportes de alto rendimento: o fim muitas vezes pesa mais do que o meio.
Chamar Adesanya de caricatura do que já foi pode soar duro, mas reflete o contraste atual. Ainda há lampejos do antigo campeão, com momentos de controle, precisão e inteligência. O problema é que eles não se sustentam ao longo da luta. A consistência, que antes era sua maior virtude, desapareceu.
Por tudo isso, Israel Adesanya vive o momento mais decisivo de sua carreira. Não para provar que ainda é o melhor do mundo, mas para definir como será lembrado. Ele pode buscar uma reinvenção, ajustar seu jogo e encerrar a carreira de forma digna ou insistir em um caminho que prolonga a queda.
O legado de um campeão não é destruído facilmente. Mas ele pode, sim, ser desgastado. E, neste momento, Adesanya enfrenta não apenas adversários, ele luta contra o tempo e a evolução do esporte, para validar a própria história que construiu.
(Imagem de capa: Jeff Bottari/Zuffa LLC)