Jaime Jaquez Jr. nunca foi o jogador que mais chamou atenção pelos enterradas espetaculares ou pelas bolas de três do meio da quadra. Em uma NBA cada vez mais acelerada e dominada pelos arremessadores, o ala construiu sua carreira de outra forma: usando inteligência, técnica e um repertório ofensivo que parece ter saído diretamente dos anos 1990. E é justamente esse estilo “raiz” que pode fazer toda a diferença para o Milwaukee Bucks.
Depois de movimentar seu elenco durante a offseason, os Bucks apostaram em Jaquez como um jogador capaz de preencher uma lacuna que ficou evidente na última temporada. Sem Giannis Antetokounmpo durante boa parte da campanha, Milwaukee sofreu para criar jogadas, atacar a cesta e variar seu ataque. Agora, a franquia acredita que encontrou um atleta capaz de fazer um pouco de tudo, mesmo sem ser uma superestrela.
De promessa em Miami a um nome consolidado na liga
Selecionado na 18ª escolha do Draft de 2023, Jaime Jaquez Jr. chegou ao Miami Heat cercado por expectativas moderadas. Ainda assim, rapidamente mostrou que poderia entregar muito mais do que imaginavam.
Em sua temporada de estreia, disputou 75 partidas, sendo titular em 20 delas, com médias de 11,9 pontos, 3,8 rebotes, 2,6 assistências e um roubo de bola por jogo. O desempenho foi suficiente para terminar em quarto lugar na votação de Novato do Ano, atrás apenas de Victor Wembanyama, Chet Holmgren e Brandon Miller.
Nos playoffs, manteve o bom nível até sofrer uma lesão no quadril durante a série, encerrando precocemente sua participação.
O segundo ano parecia indicar um retrocesso. A chegada de Andrew Wiggins reduziu bastante seus minutos em quadra, e Jaquez perdeu espaço na rotação do Heat. Nos playoffs daquela temporada, praticamente desapareceu, atuando apenas 19 minutos em três jogos.
Mesmo assim, os números avançados mostravam uma realidade diferente.
Apesar da queda no tempo de quadra, diversos indicadores individuais evoluíram, principalmente na criação de jogadas, nos rebotes e na eficiência defensiva. Faltava apenas uma oportunidade maior para voltar a mostrar seu potencial.
A resposta veio com uma grande temporada
A terceira temporada respondeu qualquer dúvida sobre Jaime Jaquez Jr..
Abraçando definitivamente o papel de sexto homem, o ala registrou médias de 15,4 pontos, cinco rebotes e 4,7 assistências por partida, convertendo 51% dos arremessos de quadra. O desempenho o colocou na segunda posição da disputa pelo prêmio de Melhor Sexto Homem da NBA, ficando atrás apenas de Keldon Johnson.
Mais do que os números, chamou atenção a maturidade com que passou a comandar a segunda unidade do Miami Heat.
Seu aproveitamento ofensivo aumentou, seu impacto coletivo voltou a ser positivo e ele mostrou que poderia produzir em diferentes funções dentro da quadra.
A mudança de posição transformou seu jogo
Boa parte dessa evolução aconteceu graças a uma decisão importante do técnico Erik Spoelstra.
Nas duas primeiras temporadas, Jaime Jaquez Jr. atuava principalmente como ala, dividindo minutos entre as posições dois e três. O problema é que seu principal ponto fraco sempre foi justamente o arremesso de longa distância.
Com apenas 32% de aproveitamento nas bolas de três ao longo da carreira, ficava evidente que jogar aberto não explorava suas melhores características.
Na última temporada, Spoelstra mudou completamente esse cenário.
Jaquez passou a atuar grande parte do tempo como ala-pivô, explorando sua força física, visão de jogo e capacidade de jogar próximo à cesta. O resultado apareceu rapidamente.
Sua influência ofensiva aumentou, assim como sua participação na construção das jogadas.
Um jogador à moda antiga em plena NBA moderna
O que faz Jaime Jaquez Jr. ser diferente da maioria dos jogadores atuais é justamente seu estilo de jogo.
Enquanto boa parte da NBA prioriza ataques rápidos e dezenas de arremessos de três pontos, Jaquez prefere trabalhar próximo ao aro.
Cerca de 79% de seus arremessos acontecem dentro da linha do lance livre. Ele utiliza giros, fintas, ganchos, floaters e movimentos de pés extremamente refinados para encontrar espaços na defesa.
É um repertório pouco comum atualmente.
Seu jogo lembra muito os alas clássicos que construíam vantagem na técnica, e não apenas na explosão física. Não por acaso, muitos analistas definem seu estilo como um verdadeiro “basquete old school”.
Isso não significa que ele ignore completamente o perímetro.
Quando recebe livre nos cantos da quadra, apresenta excelente aproveitamento nas bolas de três, mostrando que pode punir defesas que exageram na marcação dentro do garrafão.
Criação de jogadas também virou uma de suas armas
Outro aspecto que faz Jaime Jaquez Jr. encaixar tão bem em Milwaukee é sua capacidade de organizar o ataque.
Na última temporada, registrou uma das melhores taxas de criação entre os alas da liga.
Sua leitura de jogo permite encontrar companheiros cortando para a cesta, além de criar oportunidades para os arremessadores após atacar o garrafão.
Essa característica ganha ainda mais importância em um Bucks que precisará dividir responsabilidades ofensivas sem depender exclusivamente de uma única estrela.
A equipe agora conta com diversos jogadores capazes de iniciar jogadas, como Tyler Herro, Kevin Porter Jr., Ryan Rollins, Kasparas Jakučionis e Brayden Burries.
Jaquez chega justamente para ampliar ainda mais essas possibilidades.
Defesa segura e muita versatilidade
Defensivamente, Jaime Jaquez Jr. dificilmente aparecerá entre os líderes em tocos ou roubos de bola.
Ele não possui envergadura impressionante nem explosão atlética acima da média.
Por outro lado, compensa essas limitações com posicionamento, inteligência e força física.
Com aproximadamente 102 quilos distribuídos em um corpo bastante sólido, consegue defender jogadores mais fortes no garrafão e também acompanhar alas mais móveis no perímetro.
Talvez não seja um especialista defensivo, mas está longe de ser um alvo fácil para os adversários.
Essa versatilidade aumenta ainda mais seu valor dentro do elenco.
Bucks ganham uma peça que pode mudar o ataque
Independentemente de começar como titular ou mantendo a função de sexto homem, Jaime Jaquez Jr. chega ao Milwaukee Bucks oferecendo exatamente aquilo que faltou ao time na última temporada.
Ele pontua perto da cesta, cria jogadas, provoca faltas, movimenta a defesa adversária e oferece diferentes soluções ofensivas sem precisar monopolizar a bola.
Em uma NBA onde quase todos procuram jogadores com características semelhantes, Jaquez segue um caminho diferente.
Seu basquete pode não render tantos vídeos virais nas redes sociais, mas costuma produzir algo ainda mais importante: vitórias.
Se conseguir repetir o desempenho apresentado na última temporada, o ala tem tudo para viver o melhor momento da carreira e se transformar em uma das contratações mais inteligentes da offseason. Afinal, às vezes o basquete mais eficiente continua sendo aquele que parece simples, mesmo quando quase ninguém mais joga dessa maneira.
(Foto: Jacob Kupferman/Getty Images)



