Futebol Copa do Brasil

Japão tem vitória dominante e encaminha classificação; confira as impressões do jogo contra a Tunísia

A vitória por 4 a 0 sobre a Tunísia não apenas colocou o Japão em posição confortável na Copa do Mundo, como também reforçou algumas percepções importantes sobre a equipe comandada por Hajime Moriyasu. Em uma atuação dominante, os japoneses mostraram um repertório ofensivo refinado, uma força coletiva capaz de minimizar ausências importantes e, ao mesmo tempo, expuseram uma Tunísia mergulhada em problemas internos que começam a cobrar um preço alto dentro de campo.

Mais do que o placar elástico, a partida em Monterrey deixou impressões relevantes para o restante do Mundial.

Japão “à brasileira” mostra um futebol coeso e pode ser muito perigoso no mata-mata

Há anos o Japão tenta incorporar elementos do futebol sul-americano ao seu jogo, e a atuação diante da Tunísia foi um retrato claro dessa evolução. A seleção asiática apresentou um futebol de aproximação, com muitos passes curtos, movimentação constante e uma fluidez ofensiva que lembra alguns conceitos muito associados ao futebol brasileiro.

As jogadas construídas pelo Japão raramente são previsíveis. Os jogadores se aproximam da bola, trocam de posição constantemente e utilizam recursos como escadinhas, corta-luzes e infiltrações em velocidade. O segundo gol é um exemplo perfeito. Após a recuperação da posse, Itakura lançou no meio de campo e Kamada fez um bom corta luz para Ueda receber livre, arrancar e chutar forte no canto, aumentando a vantagem japonesa.

Não é apenas uma questão técnica. Existe uma identidade coletiva muito forte. Os jogadores entendem seus papéis e conseguem alternar posições sem comprometer a organização da equipe. O Japão pressiona alto, recupera bolas rapidamente e ataca com muitos homens, mas sem perder o equilíbrio.

Em jogos de mata-mata, onde muitas vezes os espaços são menores e a capacidade de decidir em detalhes faz a diferença, essa fluidez ofensiva pode se transformar em um grande trunfo. O Japão talvez não tenha o talento individual das principais potências, mas tem um modelo de jogo muito bem assimilado e que pode causar problemas para qualquer adversário.

Lesões preocupam, mas a força coletiva está sustentando o Japão

Se há algo que poderia preocupar Moriyasu antes da Copa, certamente era a quantidade de desfalques. Nomes importantes como Mitoma, Minamino e Kubo fazem falta. São jogadores capazes de oferecer desequilíbrio individual e aumentar ainda mais o repertório ofensivo da equipe.

Mitoma, por exemplo, é um dos melhores dribladores do futebol europeu e poderia acrescentar uma profundidade ainda maior pelo lado esquerdo. Já Minamino é um jogador que se movimenta muito bem entre os setores e possui grande capacidade de finalização. A ausência de Kubo nesse jogo também se provou complicada.

Mesmo sem essas peças, porém, o Japão tem conseguido responder de forma admirável. O coletivo aparece como principal estrela. Kamada vive grande momento, Ueda assumiu protagonismo no comando do ataque e nomes como Ito, Nakamura e Sano conseguem manter a intensidade da equipe em um nível elevado.

Talvez a ausência dessas estrelas seja mais sentida em jogos contra seleções de elite, quando o talento individual costuma decidir partidas equilibradas. Mas, até aqui, o sistema tem falado mais alto. O Japão joga como uma unidade e, enquanto essa engrenagem seguir funcionando, continuará sendo um adversário extremamente competitivo.

Tunísia aprende que bagunça interna e Copa do Mundo não combinam

Do outro lado, a Tunísia vive uma realidade completamente diferente. A goleada sofrida para o Japão é consequência de problemas que começaram muito antes da bola rolar no Mundial.

A preparação da seleção africana foi marcada por instabilidade, divergências internas e um ambiente que já era turbulento. A derrota pesada na estreia aumentou a pressão e culminou na troca do comando técnico, deixando a equipe ainda mais fragilizada em pleno torneio.

Mudar de treinador durante uma Copa do Mundo raramente é uma solução. Pelo contrário. O tempo é curto, os jogadores precisam assimilar novas ideias rapidamente e o aspecto emocional acaba sendo profundamente afetado.

O elenco tunisiano possui qualidade. Jogadores como Hannibal, Msakni e Dahmen fazem parte de uma geração capaz de competir em alto nível. No entanto, futebol de seleções exige organização, ambiente saudável e estabilidade. Sem isso, o talento individual perde força.

Ainda existe uma possibilidade matemática de classificação, mas a prioridade da Tunísia precisa ser reorganizar a casa. Caso contrário, uma geração interessante corre o risco de ser desperdiçada por problemas que pouco têm relação com a qualidade dos jogadores.

Se o Japão enfrentasse o Brasil hoje, os asiáticos chegariam como favoritos

Pode parecer exagero, mas é uma conclusão sustentada pelo momento das duas equipes. Se Brasil e Japão se enfrentassem hoje, os japoneses chegariam em melhor fase e com mais argumentos coletivos.

O time brasileiro possui mais talento individual, algo inquestionável. Vinícius Júnior, Raphinha, Bruno Guimarães e companhia oferecem um teto técnico superior. Mas a Copa do Mundo não é decidida apenas pelo talento. Organização, intensidade e confiança também pesam.

E, nesses aspectos, o Japão tem mostrado mais. A equipe de Moriyasu joga com uma identidade clara, pressiona de maneira coordenada, ocupa os espaços com inteligência e apresenta uma consistência coletiva superior à da seleção brasileira.

Isso não significa que o Japão seja uma equipe melhor em termos absolutos. Mas, considerando exclusivamente o momento atual, a sensação é que os asiáticos chegam mais prontos, mais ajustados e mais confiantes.

O futebol brasileiro continua tendo recursos suficientes para vencer qualquer seleção. Mas, se o duelo fosse hoje, talvez fosse a primeira vez em muito tempo que o Japão pisaria em campo diante do Brasil carregando o favoritismo. E, pelo que mostrou contra a Tunísia, essa condição não seria nenhum absurdo.

(Foto: Getty Images)