Depois de revelar craques como David Silva, Juan Mata e Isco, o Valencia parece ter lapidado mais uma joia rara no meio-campo: Javi Guerra. Com apenas 22 anos, o jovem espanhol já chama a atenção de gigantes do futebol europeu e vem sendo tratado como o legítimo sucessor dos grandes nomes que marcaram a história recente do clube.
Natural da Comunidade Valenciana, Guerra começou a construir seu caminho no futebol desde cedo. Mesmo sendo pequeno, já mostrava que tinha algo especial. Seu talento começou a chamar atenção ainda nos campos modestos da região, jogando pela equipe amadora do UD Puçol, onde dava os primeiros chutes na bola e despertava admiração.
Josep Bosch, técnico das categorias de base do Puçol, nunca teve dúvidas sobre o potencial do garoto. Ele afirma que, entre todos os atletas que treinou, Guerra foi o único que o fez pensar: “se esse menino não virar profissional, ninguém mais vira”. Com essa confiança, o garoto seguiu em frente, sempre apoiado pela família, em especial pelo avô, figura central da sua trajetória.
O escudo do Puçol, aliás, carrega um símbolo que une emocionalmente o clube à cidade: o morcego, que também representa o Valencia CF. Um detalhe simbólico, mas que acaba reforçando ainda mais a ligação emocional entre Javi Guerra e a equipe onde ele brilharia anos depois.
Do interior valenciano para o Villarreal e, depois, o Valencia
Nascido em Gilet, vilarejo de menos de 4 mil habitantes, Guerra começou a jogar bola muito novo. Com cinco anos já corria pelos campos do Puçol, mas logo deu um salto importante. Um amigo da escola, cujo pai era técnico do Villarreal, o levou para um teste — e ele passou. Começava ali uma nova etapa.
Não foi nada fácil para a família manter a rotina de idas e vindas entre Gilet e Villarreal. Como o avô do jogador ainda não tinha carteira de motorista, os dois pegavam trem e, depois, percorriam parte do caminho a pé. “Trocava de roupa nos banheiros da escola”, relembra Guerra, que fala disso tudo com carinho e gratidão.
Essa rotina de sacrifícios se tornou rotina por anos, até que o Valencia entrou na jogada. Em 2019, o clube investiu cerca de um milhão de euros para tirar Guerra da base do Villarreal. A aposta deu certo: em abril de 2023, o meio-campista fez sua estreia no time principal e, poucos dias depois, marcou um golaço da vitória contra o Real Valladolid, com o pé esquerdo — seu “pé fraco”. O estádio Mestalla explodiu.
Foi um momento de sonho. Para a família, especialmente para o avô, que havia vivido todo aquele processo desde os primeiros dribles, foi inesquecível. A cena do gol coroou anos de esforço e dedicação.
Nova geração, nova esperança
Nos últimos anos, o Valencia deixou de ser protagonista na Espanha e passou a brigar contra o rebaixamento. A temporada passada foi tensa: o time passou boa parte do campeonato na zona da degola e só se salvou graças a uma arrancada incrível no segundo turno. E no meio disso tudo, Guerra foi um dos grandes destaques.
Vale lembrar que o Valencia atualmente tem o elenco mais jovem dos cinco principais campeonatos europeus, com média de idade inferior a 24 anos. É um time em reconstrução, com muitos garotos tentando fazer história. Recentemente, o clube vendeu o zagueiro Yarek Gasiorowski para o PSV por 10 milhões de euros, e o Arsenal pagou 15 milhões por Cristhian Mosquera.
Guerra, portanto, pode ser o próximo da lista. E com um potencial de venda ainda maior, dadas suas atuações e números. Ele é um meio-campista box-to-box, ou seja, que atua de área a área, e impressiona tanto no ataque quanto na defesa. Poucos atletas com menos de 23 anos na Europa combinam mais de 50 desarmes com mais de 50 dribles bem-sucedidos, e Guerra é um deles.
Ele não é o típico “baixinho técnico” que o Valencia produziu no passado — como Silva e Isco. Com 1,87m de altura, é um jogador mais físico, mas sem perder a habilidade com a bola. Um atleta moderno, completo, e que está em constante evolução.
Modéstia fora de campo, explosão dentro dele
Fora de campo, o estilo é bem mais tranquilo. Guerra se define como “um cara normal, que gosta de fazer coisas normais com os amigos e a família”. É visto como humilde, mas admite que, quando está confiante, também sabe brincar e se soltar.
Ambidestro, ele tem como trunfo especial a sua capacidade de finalização. Seu antigo técnico em Puçol lembra que faltas cobradas por ele viravam quase sempre gol. Já os pênaltis eram mais imprevisíveis, porque ele batia com tanta força que às vezes exagerava. As estatísticas mostram que ele finaliza em média 1,64 vezes por jogo — números altos para um jogador da posição.
Na primeira metade da temporada passada, Guerra oscilou. Mas tudo mudou com a chegada do técnico Carlos Corberán. O novo treinador deu liberdade ao jogador, que respondeu com gols, assistências e uma presença constante entre os titulares. Guerra terminou o campeonato com três gols e dois passes decisivos, além de excelente desempenho físico e tático.
Na seleção espanhola sub-21, também brilhou. Com 21 partidas pela equipe, foi destaque na Eurocopa da categoria, sendo eleito o melhor jogador em uma das partidas da fase de grupos e marcando gol nas quartas de final, mesmo com a eliminação para a Inglaterra.
Gigantes de olho: Guerra no radar do mercado
Com tudo isso, era questão de tempo até os rumores de transferência começarem a circular. O Milan é um dos clubes que demonstrou interesse, com relatos indicando que os italianos estariam dispostos a pagar 20 milhões de euros. O Valencia, porém, espera algo mais próximo dos 30 milhões.
Manchester United e Aston Villa também acompanham de perto. O técnico Unai Emery, inclusive, estaria encantado com o estilo do compatriota e gostaria de levá-lo à Premier League. No verão passado, o Atlético de Madrid quase fechou com Guerra, mas o negócio não se concretizou.
E ele não esconde que gosta da ideia de seguir no Valencia. “Se o Atlético me ligar de novo neste verão? Nunca diga nunca, mas quero continuar aqui. É a minha prioridade. Se nada de maluco acontecer, eu fico”, disse em entrevista à La Sexta.
Mas o futebol é imprevisível. O Valencia, ainda com problemas financeiros, pode acabar precisando vender. E os clubes ingleses, especialmente, têm apetite — e orçamento — para pagar o que for preciso. Se depender do avô de Guerra, porém, ele continuará vestindo a camisa do time da sua terra. E sonhando alto.