João Fonseca em Indian Wells
Tenis

João Fonseca: derrotas são dolorosas, mas brasileiro segue acima do nível

João Fonseca (80º) foi eliminado de Indian Wells com uma derrota dolorosa contra Jack Draper, atual número 14 do ranking da ATP. Sofrendo um pneu no segundo set, há diversas críticas que surgiram. Algumas contra o tenista, outras contra os fãs do esporte.

É necessário entender algo, antes de tudo: derrotas dolorosas fazem parte do processo. Todo e qualquer atleta, de sucesso ou não, passou por elas. E algumas terão requintes de crueldade.

Crescimento de João Fonseca

Fonseca, Guga e mais: brasileiros que venceram torneios ATP
João Fonseca foi campeão em Buenos Aires. Foto: Marcelo Endelli/Getty Images

Com 18 anos, João Fonseca teve um incrível crescimento no último ano. Na primeira atualização do ranking de 2024, o brasileiro estava na 730ª posição. Com uma ótima evolução, começou 2025 como o 113º.

Em fevereiro desse ano, o tenista também já conquistou seu primeiro título na ATP. Até o momento, seu melhor ranking foi a 68ª posição, logo após o ATP 250 de Buenos Aires. Se tornando o número 1 do Brasil, João Fonseca é um atleta que lida com muitas expectativas.

Jovem, ainda terá uma longa carreira pela frente e vem sabendo administrar bem. Com calma, sua equipe tem tomado certos cuidados. A parte física é importante, seu corpo ainda precisa se adaptar e evoluir para ir bem durante todo o Circuito.

Em 2024, o brasileiro não atuou em todas as semanas, se permitindo um período de descanso. O mesmo aconteceu após o Rio Open de 2025. Após a derrota para Alexandre Muller na estreia, no dia 18 de fevereiro, João só voltou a jogar no dia 6 de março.

No início de sua carreira profissional, o controle físico é de extrema importância. E, se não controlado bem, também é a causa de diversas derrotas. Carlos Alcaraz, após ter estourado no Circuito, teve diversos problemas nesse aspecto.

Derrotas fazem parte do processo

Quem João Fonseca enfrentará na segunda fase de Indian Wells
João foi eliminado de Indian Wells na 2ª rodada. Foto: Matthew Stockman/Getty Images

Primeiro, é importante notar que João Fonseca perdeu em dois torneios de alto nível após seu primeiro título: ATP 500 do Rio de Janeiro e Masters 1000 de Indian Wells. Mas, mesmo que a derrota fosse em um Challenger, também seria algo normal.

Vamos comparar apenas com os dois grandes nomes do tênis atual: Jannik Sinner e Carlos Alcaraz. Entre os dois, o espanhol é o mais novo, com 21 anos, e também foi mais precoce. Sua primeira conquista foi aos 18 anos, em julho de 2021, quando ganhou o ATP 250 da Croácia.

Só que, para ser campeão pela segunda vez, passou sete meses. Em fevereiro de 2022, Alcaraz venceu o Rio Open, entre um e outro, ganhou o Next Gen ATP Finals. Só que, entre o primeiro título e o segundo do Circuito, Carlos teve algumas derrotas:

  • Alexander Erler (337º) – 1ª rodada do ATP 250 da Austria 2021;
  • Lorenzo Sonego (27º) – 1ª rodada do Masters 1000 de Cincinnati 2021;
  • Mikael Ymer (90º) – semifinal do ATP 250 de Winston-Salem 2021;
  • Felix Auger-Aliassime (15º) – quartas de final do US Open 2021;
  • Andy Murray (121º) – 2º rodada do Masters 1000 de Indian Wells 2021;
  • Alexander Zverev (4º) – semifinal do ATP 500 de Vienna 2021;
  • Hugo Gaston (103º) – oitavas de final do Masters 1000 de Paris 2021;
  • Matteo Berrettini (7º) – 3ª rodada do Australian Open 2022.

O espanhol voltou a ter uma larga lacuna em presenças em finais entre agosto de 2023 e junho de 2024. No entanto, ao voltar a vencer, conquistou Indian Wells pela segunda vez e dois Grand Slams seguidos, Roland Garros e Wimbledon.

Sinner, no entanto, foi mais consistente após ser campeão no Circuito da ATP pela primeira vez. Em novembro de 2020, com 19 anos, venceu o ATP 250 da Bulgária e, em fevereiro de 2021, o Murray River Open, do mesmo nível. Desde então, enfrentou alguns períodos com lacunas, mas não logo no começo.

Algumas de suas dolorosas derrotas vieram antes, aos 18 anos e nas primeiras semanas dos 19. Como em agosto de 2020, quando foi superado por Salvatore Caruso, na época o número 99 do ranking, na primeira rodada do quali do Masters 1000 de Cincinnati. Ali, já havia uma grande expectativa em cima de Jannik, que era o 73º do ranking.

Em 2021, o italiano chegou em seis finais, vencendo cinco. Só que, depois disso, só voltou a ser campeão em julho de 2022. E, depois, em fevereiro de 2023. E é aqui que vem a sua inconsistência de início de carreira.

Por ter várias eliminações nos dois períodos, contei apenas as derrotas para tenistas fora do top 50, ou que foram na sua primeira ou segunda partida do torneio. Além disso, também não foi contado disputas por países ou no ATP Finals:

  • Carlos Alcaraz (35º) – 2ª rodada do Masters 1000 de Paris 2021;
  • Andy Murray (143º) – oitavas de final do ATP 250 de Estocolmo 2021;
  • Nick Kyrgios (132º) – oitavas de final do Masters 1000 de Indian Wells 2022 (W.O.);
  • Francisco Cerundolo (103º) – quartas de final do Masters 1000 de Miami 2022 (abandonou);
  • Tommy Paul (35º) – oitavas de final do ATP 250 de Eastbourne 2022.

Algo a se notar aqui: problemas físicos do italiano, que o levaram a perder em dois jogos da lista. Mas foi logo após Wimbledon que foi campeão no ATP 250 de Umag, em julho de 2022, derrotando Carlos Alcaraz. Nessa época, o espanhol era o 5º no ranking, enquanto Sinner era o 10º. Contudo, voltou a uma sequência de torneios sem chegar em finais.

Depois da nova conquista, só voltou a ser campeão em fevereiro de 2023. Dessa vez, no entanto, só teve duas derrotas que chamam mais a atenção:

  • Pablo Carreno Busta (23º) – 3ª rodada do Masters 1000 do Canadá 2022;
  • Marc-Andrea Huerler (61º) – 1ª rodada do Masters 1000 de Paris 2022.

Desde então, com uma grande regularidade em quadra, Sinner não ficou mais de quatro meses sem ser campeão. Mostrando grande evolução e consistência, assim como aconteceu com Carlos Alcaraz.

Expectativas com João Fonseca

João Fonseca
Expectativas com carreira de João Fonseca são altas. Foto: Getty Images

Sim, há muitas expectativas com a carreira de João Fonseca. O tenista mostra um grande talento e, um aspecto sempre importante no tênis, um excelente mental. A combinação dos dois fatores gera, sim, expectativa.

E tem que gerar. João é jovem e já mostrou muita coisa em quadra. Com 18 anos, já conquistou seu primeiro título do Circuito da ATP, um feito que muitos atletas só conseguem após anos de carreira profissional.

As expectativas criadas geram pressão em cima de Fonseca? Sim, mas como bem disse Billie Jean King, “a pressão é um privilégio, só vem para aqueles que a conquistam”. A partir do momento que o brasileiro mostrou que pode, a pressão veio e ele terá que aprender a lidar com isso.

Sua maturidade em quadra e fora dela é o que irá ajudar o tenista nesse momento. Só que também fundamental entender que não é a pressão ou expectativa colocada em João que o faz perder: é o seu processo natural em busca do sucesso.

Não há como chegar entre os melhores do mundo sem alguns empecilhos antes. As derrotas de João no Rio Open e em Indian Wells fazem parte dessa caminhada. Com 18 anos, João Fonseca não está nem no auge de seu físico. Derrotas duras, e por vezes até vergonhosas, irão acontecer em seu percurso.

Como fãs de qualquer esporte, é essencial compreender que veremos seus altos e baixos nos próximos anos. Aliás, até mesmo chegando entre os melhores, é possível que essa montanha-russa continue. O tênis é um dos esportes mais voláteis que existem. Em um momento, o tenista pode ser perder, e isso dentro do mesmo jogo, não é nem necessário meses.

Imediatismo não irá trazer resultados e o que fará a diferença na carreira de João é ele e sua equipe entenderem onde errou. A partir disso, poderão evoluir. João Fonseca é um fenômeno do tênis, tem tudo para crescer e nós teremos que sofrer com suas partidas ‘feias’ nesse processo.

Foto: Clive Brunskill/Getty Images