José Bordalás
Futebol La Liga

José Bordalás: o técnico mais ‘odiado’ de La Liga, mas amado pelos seus torcedores

No futebol mundial, poucos treinadores dividem tanto opiniões quanto José Bordalás. À frente do Getafe, o técnico espanhol construiu uma reputação que oscila entre respeito e repulsa. Para seus críticos, ele comanda o time mais “feio” de La Liga. Para seus admiradores, ele é um dos estrategistas mais eficazes do futebol europeu atual.

O fato é que, com um elenco limitado e longe dos holofotes, Bordalás transforma o Getafe em um osso duro de roer para qualquer adversário, e não se importa nem um pouco com o que pensam de seu estilo.

O estilo Bordalás: intensidade, pragmatismo e “faltas necessárias”

A base do jogo de Bordalás é simples: ele acredita que um time deve competir do primeiro ao último minuto. Isso significa pressionar, fazer faltas táticas, defender com todos atrás da linha da bola e, se for preciso, desacelerar o jogo. Seus times não têm pudor em quebrar o ritmo do adversário. Com frequência, o Getafe lidera estatísticas de faltas cometidas e cartões recebidos, o que reforça a imagem de um futebol físico, quase hostil.

A formação mais utilizada por Bordalás é o 4-4-2. Clássico e rígido, o esquema é construído sobre duas linhas compactas, onde a prioridade é o bloqueio de espaços e a negação de qualquer liberdade ao adversário. Não há invenções, não há “jogo posicional” e muito menos construção lenta desde a defesa. A posse de bola, para ele, é consequência, não objetivo.

É um estilo que não conquista corações, mas costuma frustrar os adversários. Equipes como Real Madrid e Barcelona, que gostam de dominar territórios e ritmos, invariavelmente encontram dificuldades contra o Getafe. A intensidade com que o time marca e a agressividade com que disputa cada dividida geram desconforto e desconcentração. Bordalás entende como poucos como tirar um oponente do jogo, mental e fisicamente.

Uma reputação polêmica (e merecida)

Por tudo isso, Bordalás é amplamente considerado um dos técnicos mais “odiados” da atualidade. A fama vem não só dos torcedores rivais, mas também de técnicos e jogadores que criticam abertamente sua abordagem. Em 2021, Ronald Koeman, então técnico do Barcelona, disse que o futebol do Getafe era “anti-jogo”. Diego Simeone, do Atlético, costuma respeitá-lo, talvez por se ver um pouco refletido em sua escola de pensamento.

O próprio Bordalás não foge da polêmica. Já reclamou publicamente de que “o Getafe é tratado com preconceito” pelos árbitros e pela mídia, por ser um clube menor. Ele argumenta que, se um time como o Real Madrid jogasse com a mesma intensidade e estratégia, seria chamado de “eficiente”. Mas como é o Getafe, a palavra vira “violento”.

Apesar das críticas, ele não muda. E nem pretende.

Resultados sólidos com recursos limitados

O principal argumento que respalda Bordalás é a performance. Mesmo com um dos menores orçamentos da primeira divisão espanhola, o Getafe segue fazendo campanhas consistentes. Na temporada passada, a equipe teve um desempenho razoável, terminando na 13ª colocação. No entanto, os problemas ofensivos foram criticados por parte dos torcedores da equipe, mas nem esses sequer ousam pedir a demissão de Bordalás.

Isso se dá pelo fato de que o técnico ainda tem um grande respaldo. Em 2019-20, por exemplo, levou o time às oitavas de final da Liga Europa, eliminando o Ajax. Em La Liga, chegou a ficar entre os seis primeiros por boa parte do campeonato. Já em 2024-25, com um elenco recheado de operários e jovens promessas, ocupou a metade da tabela, um feito respeitável para quem lida com restrições financeiras e técnicas.

O segredo está no trabalho coletivo. Jogadores como Djené, Arambarri, Borja Mayoral e o experiente goleiro David Soria, longe de serem estrelas, tornaram-se fundamentais dentro do esquema de Bordalás. O técnico extrai o máximo de seus atletas, exigindo comprometimento absoluto com o plano de jogo.

No final, Bordalás é apenas fiel á sua identidade

O sucesso do estilo Bordalás vai além da tabela. Ele desconstrói a ideia de que só há uma forma correta de jogar futebol. Em tempos em que o toque refinado, a posse continua sendo parte do “futebol do futuro”, mesmo que o jogo posicional esteja aos poucos se esvaindo, o Getafe de Bordalás oferece o contraponto: um futebol pragmático, de contato, de suor. E que funciona.

Esse antagonismo é parte do que o torna tão odiado. Ele incomoda os puristas, os estetas, os treinadores midiáticos. Mas talvez seja justamente esse desconforto que explique sua eficácia: ninguém gosta de jogar contra o Getafe. Ninguém quer enfrentá-lo fora de casa em um campo apertado, sob pressão, com entradas duras e jogadores que não recuam em divididas.

José Bordalás não quer aplausos. Quer respeito. E, no futebol, isso se conquista com resultados — algo que ele entrega com regularidade. Se isso significa jogar de forma reativa, travar o jogo, ou fazer a falta que impede o contra-ataque, ele não hesita.

Em uma era de futebol globalizado e “instagramável”, Bordalás representa o técnico de rua, da velha guarda, que coloca a eficácia acima da estética. Pode ser odiado, mas é inegavelmente competente. E enquanto continuar frustrando os grandes com suas estratégias “feias”, continuará provando que, no futebol, ainda há espaço para quem joga fora do script.

(Foto: Getty Images)