Depois de 20 anos ininterruptos no Paris Saint-Germain – entrou ainda garoto e sai como homem feito – Presnel Kimpembe está prestes a encerrar uma das trajetórias mais emblemáticas do clube. O zagueiro francês, que chegou a ser titular da seleção campeã do mundo e um dos defensores mais promissores da Europa, está de malas prontas para assinar com um clube do Catar. A transferência deve ser confirmada nas próximas horas e representa o fim de uma era no Parc des Princes, coroada com a conquista da Champions League na última temporada.
Kimpembe acabou de completar 30 anos, mas carrega nos ombros um peso físico enorme. Desde 2022, as lesões têm sido uma sombra constante. Primeiro, forçou o corpo antes do Mundial do Catar para estar na convocação de Didier Deschamps e acabou lesionando o joelho. Depois, em 2023, veio o golpe mais duro: uma ruptura no tendão de Aquiles que o afastou por meses e o impediu de recuperar o nível que o consagrou. Esses problemas transformaram os últimos dois anos em um verdadeiro calvário e empurraram um ídolo ao ostracismo.
Apesar de tudo isso, seu legado em Paris é incontestável. O francês estreou oficialmente pelo PSG em 2014/15 e, desde então, construiu uma carreira sólida e de alto nível, formando uma das duplas de zaga mais temidas da Europa ao lado de Marquinhos. O torcedor nunca vai esquecer atuações como a da vitória por 4 a 0 sobre o Barcelona, em 2017, quando Kimpembe “anulou” Messi e ganhou respeito mundial. Esse jogo é até hoje um cartão de visitas para explicar quem ele foi.
De promessa a “Maestro Kimpembe”
O rendimento do defensor não passou despercebido. Em 2018, ele fez parte do elenco da França campeão mundial na Rússia. Nos vestiários de Les Bleus, ganhou o apelido de “Maestro Kimpembe” e se transformou em um dos líderes silenciosos do grupo, respeitado tanto pelos colegas de seleção quanto pelos companheiros de clube. Esse respeito era tamanho que até Luis Enrique, que lhe deu apenas 76 minutos na temporada passada, fazia questão de valorizar sua importância interna.
Com o PSG, Kimpembe disputou 241 partidas, marcou três gols e conquistou 20 títulos, incluindo a tão sonhada Champions League – troféu que faltava no museu do clube. São números que falam por si só. Não é exagero dizer que ele ajudou a definir a identidade do PSG moderno, aquele que se reinventou como potência europeia depois da chegada do investimento qatari.
Agora, o ciclo se fecha. O zagueiro deve assinar com um clube do Catar, numa liga administrada pelo mesmo fundo (Qatar Sports Investments) que controla o PSG. Essa ligação facilitou as conversas e garantiu uma saída respeitosa para um jogador que dedicou a vida ao clube parisiense. Para ele, é a chance de continuar jogando, mesmo longe da elite europeia, sem a pressão e o desgaste do nível máximo.
O que a saída significa para o PSG
Analiticamente, a saída de Kimpembe vai além da perda de um zagueiro. Ela simboliza a transição de um projeto. O PSG está mais jovem, mais internacionalizado e menos dependente dos nomes que marcaram o início da era QSI. O clube perde um de seus “homens da casa”, formado em suas categorias de base e que conhecia como poucos a cultura interna. Esses jogadores funcionam como pontes entre gerações e estilos – algo que nem sempre é visível no campo, mas é essencial no vestiário.
Para Kimpembe, é também um alívio. Depois de anos de luta para recuperar o corpo, ele terá um ambiente menos exigente para tentar prolongar a carreira. A liga do Catar não tem o mesmo ritmo ou intensidade da Ligue 1 ou da Champions League, o que pode ajudá-lo a reencontrar prazer em jogar e talvez recuperar parte de seu nível técnico.
O PSG, por sua vez, já vinha se preparando para isso. A contratação de novos zagueiros e a evolução de jovens talentos indicavam que a diretoria sabia que a era Kimpembe estava no fim. Mas nada apaga o fato de que ele foi peça-chave em momentos decisivos, símbolo de uma geração que colocou o clube em outro patamar no cenário europeu.
Um adeus sem rancor
O adeus de Kimpembe não tem gosto amargo. Ao contrário de outras saídas polêmicas, esta parece ser construída com respeito mútuo. Ele deixa o PSG como campeão da Champions, campeão mundial com a França e ídolo de uma torcida exigente. A imagem de “Maestro Kimpembe” permanece: um jogador que, no auge, combinava força física, leitura de jogo e liderança silenciosa.
Do ponto de vista do torcedor, ver um ídolo ir para o Catar é um lembrete de que o futebol está mudando, de que carreiras são finitas e de que a reconstrução é inevitável. Mas também é uma oportunidade de celebrar uma história rara: a de um garoto da base que virou lenda do time principal.
Para o próprio Kimpembe, essa mudança representa uma nova etapa de vida. Longe da pressão parisiense, poderá cuidar do corpo, explorar um novo contexto cultural e esportivo e talvez preparar os últimos capítulos de sua carreira. Independentemente do que acontecer, ele já está garantido na história recente do campeão da Champions.
No fim das contas, Kimpembe sai do PSG como entrou: fiel às suas raízes, discreto fora de campo e gigante dentro dele. Um exemplo de que nem sempre é preciso gritar para ser líder e de que, mesmo num futebol cada vez mais marcado por transferências milionárias, ainda há espaço para trajetórias longas, de lealdade e entrega. O PSG perde um símbolo; o Catar ganha um campeão. E o futebol europeu despede-se de mais um de seus zagueiros icônicos.