Robert Kubica Le Mans
Automobilismo WEC

Robert Kubica: da tragédia na Itália para a glória em Le Mans

Após 14 anos de uma jornada marcada por dor, superação e persistência, Robert Kubica finalmente escreveu seu nome entre os maiores campeões da história do automobilismo. Neste domingo, o piloto polonês venceu pela primeira vez as 24 Horas de Le Mans, a mais prestigiada prova do Mundial de Endurance (WEC). Ao lado de Yifei Ye e Phil Hanson, Kubica cruzou a linha de chegada no comando da Ferrari 499P #83 da equipe AF Corse, encerrando uma trajetória que já parecia encerrada em 2011, quando um acidente quase lhe tirou a carreira — e a vida.

Com o triunfo, Kubica se tornou o primeiro polonês a vencer Le Mans, uma façanha que carrega mais do que valor esportivo: ela simboliza a realização de um sonho que muitos acreditavam ter sido esmagado entre as ferragens de um carro de rali, há mais de uma década.

Um talento precoce que encantou a Fórmula 1

Kubica estreou na Fórmula 1 em 2006 pela BMW-Sauber e logo mostrou a que veio. Em 2008, venceu o GP do Canadá e chegou a liderar o campeonato mundial durante parte da temporada. Sua velocidade, inteligência tática e agressividade controlada o colocavam como uma das grandes apostas para o futuro da categoria. Muitos analistas e pilotos, como Fernando Alonso e Lewis Hamilton, apontavam o polonês como um campeão mundial em potencial.

Mas em fevereiro de 2011, a carreira de Kubica tomou um rumo inesperado. Durante o Ronde di Andora, uma prova de rali amador na Itália, seu carro perdeu o controle e colidiu com uma barreira metálica que perfurou o cockpit e atingiu seu braço direito. Ele ficou preso às ferragens por mais de uma hora. Quando foi retirado, a gravidade das lesões chocou o mundo. Seu braço e mão estavam destruídos, e os médicos cogitaram a amputação.

O lento, doloroso e improvável retorno às pistas

Após várias cirurgias, fisioterapia e anos fora das pistas, Kubica começou a reescrever sua história. Primeiro, voltou aos ralis — inclusive vencendo provas em solo europeu no WRC2. Depois, ensaiou um retorno à Fórmula 1 como piloto de testes da Renault e da Williams. Contra todas as expectativas, retornou oficialmente à F1 em 2019 como titular da Williams.

Mesmo com limitações físicas, já que seu braço direito jamais voltou ao estado ideal, Kubica demonstrou uma resiliência incomum. Concluiu o campeonato inteiro, somou um ponto e, acima de tudo, provou que ainda podia competir no mais alto nível do automobilismo. Mas sua paixão por correr não parou por aí.

A partir de 2021, Kubica passou a competir em provas de endurance. Tornou-se piloto da equipe WRT e conquistou o título da European Le Mans Series em sua temporada de estreia. No mesmo ano, fez sua primeira tentativa em Le Mans, na classe LMP2, mas perdeu a vitória na última volta devido a uma falha técnica no carro — uma das derrotas mais dolorosas da história recente da prova.

Nos anos seguintes, Kubica se consolidou no Mundial de Endurance (WEC), sendo vice-campeão da LMP2 em 2022 e 2023. A consagração definitiva chegou em 2024, quando a Ferrari anunciou sua entrada como piloto oficial da AF Corse na categoria Hypercar, a mais nobre do endurance.

Le Mans 2025: liderança, experiência e frieza até o fim

A edição de 2025 foi repleta de drama. Com a Ferrari #83 largando do 13º lugar, poucos apostavam em vitória. Mas Kubica, ao lado dos talentosos Yifei Ye (China) e Phil Hanson (Reino Unido), impôs um ritmo sólido e constante. Durante a madrugada, com pista molhada e múltiplas entradas do safety car, a estratégia da AF Corse se destacou. Quando o amanhecer chegou, a Ferrari já brigava pela liderança com os protótipos da Porsche e da Toyota.

Nos turnos finais, Kubica assumiu o volante com menos de cinco horas restantes. Ele chegou a dizer que não tinha condições físicas para terminar a prova, mas, com um stint de quase quatro horas, ele continuou. Demonstrando controle total do carro e uma leitura cirúrgica do tráfego, manteve a liderança até a bandeira quadriculada.

Com 387 voltas completadas, o #83 cruzou a linha de chegada 14 segundos à frente da Porsche #6, e a consagração foi definitiva.

Uma vitória histórica por múltiplos motivos

A vitória de Robert Kubica nas 24 Horas de Le Mans não foi apenas um marco pessoal, mas também um capítulo importante na história do automobilismo. Ele se tornou o primeiro piloto polonês a vencer a tradicional prova francesa, uma conquista que coloca seu país no mapa das maiores competições de endurance do mundo. Ao seu lado, Yifei Ye também fez história ao se tornar o primeiro chinês a conquistar o troféu em Le Mans, representando o avanço global do automobilismo e a crescente presença asiática em categorias de elite.

Além dos feitos individuais dos pilotos, o triunfo teve peso coletivo para a equipe e para a montadora. A Ferrari alcançou sua terceira vitória consecutiva em Le Mans, consolidando de vez seu retorno triunfal à principal classe do Mundial de Endurance após décadas longe da linha de frente. O domínio da marca italiana reforça sua tradição nas corridas de longa duração e mostra que o projeto da 499P é não apenas competitivo, mas duradouro.

Outro elemento significativo foi o fato de a equipe vencedora, a AF Corse, ser uma equipe cliente, e não a estrutura oficial de fábrica da Ferrari. Essa foi a primeira vez na era da classe Hypercar que uma equipe privada conquistou a vitória geral em Le Mans, e a primeira vez desde 2005 que uma equipe cliente venceu Le Mans.

No final, Kubica não é apenas um campeão de Le Mans. Ele é o símbolo vivo de que a resiliência, o trabalho e a paixão podem vencer até as maiores tragédias. Sua jornada, de um hospital na Itália ao topo do pódio em La Sarthe, inspira atletas e fãs em todo o mundo. Talvez ele possa olhar para trás e pensar que tudo valeu a pena.

E valeu mesmo. Porque poucos venceram tanto, mesmo quando tudo parecia perdido.

Foto: Fabrizio Boldoni / DPPI