Na decisão, estiveram presentes mais de 105 mil pessoas no Morumbi.
Futebol Brasileirão Copa do Mundo de Clubes Libertadores

Lendas da Libertadores: o “mestre” Telê Santana guiou Raí e Muller para dominar a América 2 vezes seguidas!

Ganhar jogando bonito e ofensivamente: esse foi o São Paulo de Telê Santana, que dominou a América do Sul por dois anos. Entre 1992 e 1993, o Tricolor Paulista elevou o patamar do futebol brasileiro no cenário mundial, conquistando duas Libertadores e dois Mundiais de Clubes. Com craques como Raí, Müller e outras feras, a equipe deixou um legado inesquecível para o futebol nacional, especialmente para o ‘Time da Fé’.

Já conhecido em solo nacional, Telê Santana, antes de assumir a equipe do Morumbi, tinha um currículo robusto. Ganhador do Campeonato Brasileiro de 1971, com o Atlético Mineiro, e treinador da Seleção Brasileira nas Copas de 1982 e 1986, o comandante encantou o mundo inteiro exibindo times que praticavam um futebol que unia plasticidade e ofensividade. Tais atribuições ficaram ainda mais proeminentes naquela ‘Canarinho’, que influenciou futuros técnicos, como Pep Guardiola e Johann Cruyff.

Telê Santana comandando o São Paulo no Mundial de Clubes de 1992, vencido pelo Tricolor Paulista.
Telê Santana comandando o São Paulo no Mundial de Clubes de 1992, vencido pelo Tricolor Paulista. Foto: Peter Robinson/EMPICS — Reprodução.

 

Telê foi preconizador de uma frase digna do cânone da Seleção Brasileira, lugar que apenas técnicos como Zagallo, João Saldanha e Carlos Alberto Parreira tem passaporte carimbado.

É difícil alcançar a perfeição, mas não é difícil aproximar-se dela — pregava o mestre Telê

 

Não é fácil sustentar o peso de ser um dos maiores ídolos da história do São Paulo. Telê nos deixou no dia 21 abril de 2006 devido a falência múltipla de órgãos, em decorrência de uma infecção abdominal. Em tributo, relembramos nesta série especial sobre a Libertadores as duas campanhas lendárias do São Paulo, em 1992 e 1993, que configurou o ‘Time da Fé’ como bicampeão do continente.

1992: A primeira vez a gente nunca esquece!

Pelo menos 11 jogadores do elenco são-paulino, de 1992, atuaram na Seleção Brasileira.
Pelo menos 11 jogadores do elenco são-paulino, de 1992, atuaram na Seleção Brasileira. Foto: Acervo/UOL Esporte — Divulgação.

 

Grupo 2: Times de dois países apenas — Brasil e Bolívia

A frustração de ter perdido para o Independiente, na final de 1974, traumatizou a torcida tricolor. Era a primeira vez que o São Paulo chegava em uma final da competição, no entanto, o sonho da ‘Glória Eterna’ se desmanchou quando os Rojos bateram os paulistas na terceira partida — conhecida também como “jogo desempate”. A redenção viria em 1992, na segunda passagem de Telê Santana pelo clube do Morumbi.

A trajetória do campeão iniciou-se na fase de grupos. O São Paulo se classificou diretamente para a Libertadores via Campeonato Brasileiro do ano anterior (1991) — conquistado pelo próprio ‘Time da Fé’. O grupo do Tricolor Paulista teve a presença do compatriota Criciúma, clube campeão da Copa do Brasil de 1991, e que, era treinado por Luiz Felipe Scolari. Além dos catarinenses, San José e Bolívar, ambos bolivianos, completaram o grupo 2 daquela Libertadores.

A estreia do São Paulo não foi nada agradável. O primeiro jogo, contra o Criciúma, comandado por Levir Culpi, foi um verdadeiro passeio dos carvoeiros, que ganharam por 3 a 0. O jogo foi disputado no Heriberto Hülse, às 21h15 de uma sexta-feira — incomum nos dias de hoje.

O time de Telê Santana conseguiu reverter o saldo de gols negativo na segunda rodada. O São Paulo venceu o San José, fora de casa, por 3 a 0. O jogo foi realizado no estádio de José Bermúdez, na cidade de Oruro — curiosamente, uma das maiores altitudes da América do Sul. Este sim, foi o primeiro teste de resistência para os são paulinos, mas ainda havia um jogo na Bolívia: contra o Bolívar, também em um local em que o ar é rarefeito.

No seu segundo desafio sob as condições insalubres, o São Paulo não foi vitorioso no Estádio Hernando Siles. Embora a altura em que o estádio é localizado seja menor que Oruro, o time Bolivarista conseguiu se aproveitar dos efeitos da altitude e abriu o placar no primeiro tempo, com Hirano. Mas, aos 38 minutos da segunda etapa, os brasileiros chegaram a igualdade com Raí. Com ambas as missões acima do nível do mar concluídas, agora restava ao Tricolor Paulista fazer o dever de casa, literalmente.

No returno, a vantagem era de que o Morumbi seria o palco dos três jogos restantes da equipe de Telê Santana. Por incrível que pareça, em todos eles o ‘Trikas’ conseguiu a vitória tranquila diante dos rivais, com exceção de uma: o San José.

A partida contra Los Santos na segunda jornada foi o jogo fora de casa, em tese, com menos sustos — algo que não se repetiu na quinta ronda. O empate foi amargo. Os paulistas começaram na frente, com Palhinha, aos 29 minutos do primeiro tempo. Mas, Divar Condarco, no final da partida, igualou o marcador e jogou um “balde de água fria” nos torcedores são paulinos.

Mesmo assim, nada disso foi suficiente para tirar a classificação do São Paulo, que bastava vencer, em casa, o Bolívar para avançar. Na última rodada, o ‘Time da Fé’ construiu um placar seguro e encaminhou sua ida para as oitavas de final. Os gols da vitória foram marcados por Antônio Carlos e Macedo, um em cada tempo do certame.

Fase de mata-mata: Nacional, Criciúma e Barcelona-EQU

O São Paulo avançou para as oitavas sendo o segundo colocado do Grupo 2, atrás apenas do Criciúma. O oponente da vez, na próxima fase, seria o Nacional do Uruguai. Tradicionalíssimos em Libertadores e campeões da ‘Glória Eterna’ por três vezes, os uruguaios rendiam sempre jogos truncados e muito cruentos. Mas, com toda essa bagagem, Telê Santana e seus subordinados não tomaram conhecimento e superaram os Decanos por um agregado de 3 a 0 — vencendo a ida por 1 a 0, e na volta por 2 a 0.

Nas quartas de final, o Tricolor Paulista reencontrou um velho conhecido: o Criciúma. No primeiro jogo, no Morumbi, Macedo marcou o gol que garantiu a vantagem ao São Paulo para a partida de volta — o tento saiu aos 37 minutos do segundo tempo. No duelo em Santa Catarina, o Tigre saiu na frente com Soares, logo aos 10 minutos. No entanto, Palhinha, artilheiro daquela edição, deixou tudo igual e garantiu o São Paulo nas semifinais.

À medida que a equipe se aproximava da grande final, um antigo trauma voltava à tona, trazendo apreensão e calafrios. Mas, como diz qualquer treinador: “o foco é aqui e agora”. Para exorcizar o fantasma da decisão de 1974, o Tricolor precisava, primeiro, superar o Barcelona de Guayaquil. Assim como nas quartas contra o Criciúma, o São Paulo teria que decidir fora de casa, no Equador.

O time competitivo dos Amarillos não deixava dúvidas de que este seria o desafio mais difícil antes da final. Enfrentando um jogo físico e veloz, Telê Santana sabia que era essencial construir uma boa vantagem na ida para minimizar os riscos na volta. Por isso, escalou força máxima, com exceção de Raí, que estava lesionado.

Na ausência do camisa 10, Palhinha, Müller, Rinaldo e Macedo assumiram a responsabilidade de balançar as redes. Logo aos cinco minutos, Müller abriu o placar no Morumbi. E se o São Paulo precisava de um goleador, tinha o melhor deles naquela edição: Palhinha, contratado naquela temporada junto ao América-MG, ampliou a vantagem aos 11 minutos, incendiando a torcida são-paulina. Ainda no primeiro, Rinaldo fechou a conta e decretou o 3 a 0 e uma boa vantagem para o ‘Time da Fé’.

Em Guayaquil, o jogo poderia ter sido menos agitado. O São Paulo sustentou a pressão no primeiro tempo, mas no segundo acabou cedendo dois gols aos equatorianos. O ‘BSC’ foi as redes com Gavica e Gilson de Souza, mas não suficientes para reverter o agregado. São Paulo na final e novamente teriam chance de se consagrar, pela primeira vez, campeões da Libertadores.

A grande final: São Paulo x Newell’s Old Boys

Time do São Paulo na final da Libertadores de 1992 – Foto: Acervo/Gazeta Press

A final de 1992 colocou frente a frente dois técnicos que marcariam o futebol moderno: Telê Santana, pelo São Paulo, e Marcelo Bielsa, pelo Newell’s Old Boys. A primeira partida, realizada no Gigante de Arroyito, foi de intensa pressão dos argentinos — apesar do mando ser do Los Leprosos, o jogo aconteceu no estádio do arquirrival Rosario Central.

O Newell’s contava com dois jogadores que, anos depois, também fariam história como treinadores: Gerardo ‘Tata’ Martino e Mauricio Pochettino. Titulares absolutos, ambos foram peças-chave na campanha que levou o time à final, eliminando o América de Cali nas semifinais. Para o São Paulo, o desafio seria imenso: além de enfrentar um time talentoso, era preciso suportar a atmosfera hostil e minimizar os danos antes da decisão no Morumbi.

No primeiro tempo, os Rojinegros abriram o placar com Eduardo Berizzo, aos 39 minutos. A partida seguiu disputada, mas o placar permaneceu inalterado, garantindo a vitória do Newell’s. Apesar do revés, o Tricolor Paulista mantinha o otimismo: a derrota por um gol de diferença ainda era reversível, especialmente com o artilheiro da Libertadores no elenco.

No Morumbi, o São Paulo precisava de pelo menos um gol para levar a decisão para os pênaltis. O clima era tenso e, no melhor estilo Brasil x Argentina, o jogo foi marcado por muita disputa física e cartões distribuídos para ambos os lados: sete no total, sendo três para os comandados de Telê e quatro para os de Bielsa — destes, três para o trio de ataque argentino.

A única bola na rede no tempo regulamentar veio dos pés de Raí. O camisa 10 converteu um pênalti e manteve vivo o sonho da Glória Eterna. Com o empate no placar agregado, a decisão foi para os pênaltis.

Raí, Ivan e Cafu converteram para o São Paulo, mas Ronaldão desperdiçou sua cobrança. Pelo Newell’s, Zamora e Llop marcaram, enquanto Mendoza, Berizzo e Gamboa falharam. No fim, por 3 a 2, o Tricolor conquistou sua primeira Libertadores. No ano seguinte, a história se repetiria, desta vez diante do Universidad Católica, do Chile.

1993: Eu já vi esse filme antes

Dentre as três conquistas da Libertadores do São Paulo, a de 1993 foi a única em que o Tricolor decidiu fora de casa.
Dentre as três conquistas da Libertadores do São Paulo, a de 1993 foi a única em que o Tricolor decidiu fora de casa. Foto: Rádio CBN/Globo — Divulgação.

Campeão e vaga direta para edição seguinte

Em 1993, o São Paulo iniciou sua campanha na Libertadores como o atual campeão. A temporada prometia ser longa, com mais times na disputa pelo título, e o Tricolor Paulista era o time a ser batido. No fim das contas, a história se repetiu — ou melhor, ganhou uma continuação digna de parte dois.

Como prescrito no regulamento, o time campeão da edição anterior entrava diretamente na fase de oitavas de final. Esta notícia foi boa, pois o calendário do São Paulo estava repleto de compromissos como o Paulistão, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e, claro, a Libertadores — além do torneio Rio-São Paulo, mas este o clube decidiu desistir.

Direto para o mata-mata: Newell’s, Flamengo e Cerro Porteño

Nas oitavas de final, o time de Telê Santana reencontrou o Newell’s Old Boys, reeditando a final de 1992. Dessa vez, porém, houve vencedores no tempo normal. No jogo de ida, na Argentina, os donos da casa venceram por 2 a 0, com gols de Ariel Cozzoni e Alfredo Mendoza.

Na volta, a capital paulista aguardava um “troco” da ida, relembrando a consagração tricolor do ano anterior. Com um elenco ainda mais forte e preparado, o São Paulo não decepcionou e aplicou uma vitória incontestável. O show começou com Dinho, que abriu o placar aos 29 minutos do primeiro tempo, em um chute desviado na defesa adversária. Pouco depois, foi a vez do “Rei” Raí balançar as redes. Em uma cobrança de falta magistral, o camisa 10 bateu com extrema categoria para fazer 2 a 0.

A realeza brilhou novamente na segunda etapa. Aos 30 minutos, Raí recebeu de Cafu na entrada da área e finalizou cruzado. Mais uma vez, a bola desviou e tirou o goleiro argentino do lance: 3 a 0.

Aos 38, foi a vez do jovem Cafu deixar o dele. O camisa 11 arrancou pela direita, tabelou com Palhinha e, após um passe espetacular do artilheiro da Libertadores de 1992, tocou na saída de Scoponi para fechar a goleada. Placar final: São Paulo 4 x 0 Newell’s Old Boys.

Na fase seguinte, o São Paulo enfrentou o Flamengo, então campeão brasileiro. A ida, no Maracanã, foi um jogo pegado, com os jovens do Mengão, liderados pelo experiente Júnior, dando trabalho ao Tricolor Paulista. No fim do primeiro tempo, Palhinha recebeu um passe em profundidade de Cafu e tocou por cima do goleiro Gilmar, marcando um golaço. No segundo tempo, em um lance semelhante ao do gol são-paulino, Nélio empatou a partida ao deslocar o arqueiro Zetti.

Na volta, no Morumbi, o time de Telê Santana soube administrar bem a partida e garantiu a classificação com uma vitória por 2 a 0. Müller abriu o placar aos 24 minutos da primeira etapa, e, no segundo tempo, aos 23, Cafu – um dos destaques da campanha tricolor – fez o segundo, sacramentando a vaga nas semifinais contra o Cerro Porteño.

A semifinal foi o confronto mais equilibrado do São Paulo na Libertadores de 1993. No jogo de ida, no Morumbi, Raí brilhou mais uma vez e marcou o único gol da partida, garantindo a vantagem para o Tricolor. Na volta, no Paraguai, o Cerro Porteño, comandado pelo brasileiro Paulo César Carpegiani, pressionou até o fim, mas o São Paulo segurou o resultado magro e avançou para mais uma grande final.

A chance do bicampeonato: São Paulo x Universidad Católica

Em 1993, o Tricolor paulista conquistava seu segundo título seguido pela Copa Libertadores (Divulgação / São Paulo FC)
Equipe do São Paulo no bicampeonato em 1993. Foto: São Paulo/Divulgação

Diferentemente de 1992, na edição de 1993 o São Paulo disputaria a finalíssima fora de casa, no Chile. Por isso, construir uma boa vantagem no jogo de ida, no Morumbi, era fundamental, já que o clima em Santiago prometia ser hostil. Mas, diante de sua torcida, o Tricolor Paulista deu um show e goleou a Universidad Católica por 5 a 1.

A festa começou com um presente dos chilenos: aos 30 minutos, Daniel López marcou contra e abriu o placar para o time de Telê Santana. Pouco depois, o lateral Vítor, de bico, ampliou para 2 a 0. A vantagem já era excelente, mas o que viria na segunda etapa superaria qualquer expectativa. No segundo tempo, Gilmar, Raí e Müller completaram a goleada tricolor. No fim da partida, Juan Almada descontou para os chilenos, de pênalti. Placar final: São Paulo 5 x 1 Universidad Católica.

Na volta, em Santiago, a Universidad Católica ainda tentou esboçar uma reação diante de mais de 39 mil torcedores. Lunari abriu o placar aos nove minutos e, aos 15, Almada, novamente de pênalti, fez o segundo. Apesar da pressão chilena, o São Paulo soube segurar o resultado.

O jogo terminou 2 a 0 para os donos da casa, mas o agregado de 5 a 3 garantiu ao Tricolor sua segunda estrela da América. A Glória Eterna agora tinha uma “parte dois”, conquistada em solo chileno.

O reinado tricolor e o fim em 1994

Treinando jogadores como Palhinha, Müller e Raí, Telê Santana viveu o auge de sua carreira como treinador de clubes. Não à toa, há um busto em sua homenagem no Morumbi. A terceira conquista seguida não veio pois o time esbarrou no Velez Sarsfield, perdendo a final de 1994 (história que será contada em outro capítulo da série) encerrando um ciclo vitorioso histórico do clube.

A idolatria é imensa: duas Libertadores, dois Mundiais, um Brasileirão, entre outras conquistas. Ele é considerado por muitos o maior treinador da história do São Paulo e um dos mais influentes do século XX.

Além da estátua, a voz de Telê foi eternizada nos alto-falantes do Morumbi, com frases motivacionais para convocar a torcida nos momentos difíceis e nas glórias.

Esta foi mais uma história da série especial “Lendas da Libertadores”, da Playmaker Brasil. Até o início da fase de grupos da edição de 2025, o portal trará muitas outras histórias sobre os mitos que conquistaram a Glória Eterna.

Foto: Acervo Gazeta Press — Divulgação.