Brasileirão Futebol

Pezzolano cai, mas o Internacional precisa entender por que chegou tão perto do abismo

A derrota por 1 a 0 para o São Paulo, no Morumbis, foi o último ato de Paulo Pezzolano no comando do Internacional. Um dia depois de mais uma atuação insuficiente, o clube anunciou a demissão do treinador, encerrando uma passagem de pouco mais de nove meses e 46 jogos. A saída chega com o Colorado na zona de rebaixamento, depois de dez partidas consecutivas sem vencer no Campeonato Brasileiro e eliminado pelo Grêmio nas quartas de final da Copa do Brasil.

A troca, portanto, não acontece por causa de uma derrota isolada. O São Paulo apenas colocou o ponto final em um processo que vinha se deteriorando rodada após rodada. Pezzolano deixa o Internacional com 47,8% de aproveitamento no período, 18 vitórias, 12 empates e 16 derrotas, além de apenas uma vitória em cinco clássicos disputados. No Brasileirão, o retrospecto foi ainda mais preocupante: seis vitórias, dez empates e 12 derrotas em 28 partidas, campanha que manteve o clube na 18ª posição.

A derrota para o São Paulo foi o retrato do fim

O último jogo de Pezzolano acabou funcionando como uma síntese dos problemas que marcaram sua passagem. O Internacional teve dificuldades para executar passes simples, produziu pouco ofensivamente e, quando conseguiu controlar mais o jogo no segundo tempo, não transformou posse em chances claras. O gol do São Paulo nasceu de um erro individual de Maripán, que cometeu pênalti em Luciano, mas o problema colorado estava muito além daquele lance.

O time já vinha demonstrando dificuldade para sustentar uma ideia de jogo durante os 90 minutos. Contra o São Paulo, o roteiro voltou a aparecer: momentos de pressão sem grande ameaça, circulação pouco produtiva e uma dependência excessiva de ações individuais para criar perigo. A equipe até cresceu depois do intervalo, mas não conseguiu traduzir esse domínio territorial em uma sequência de oportunidades capazes de mudar o resultado.

Isso ajuda a explicar por que a demissão não pode ser taxada apenas como uma reação ao placar. O Inter não caiu diante de uma grande atuação do adversário. Perdeu uma partida na qual também teve dificuldades para jogar e, principalmente, não apresentou argumentos suficientes para indicar que aquele cenário seria diferente nas rodadas seguintes.

Pezzolano não conseguiu transformar tempo em evolução

Um dos elementos que mais pesam na avaliação do trabalho é que Pezzolano teve períodos importantes para desenvolver a equipe. O Internacional não disputou competições internacionais em 2026 e, portanto, teve semanas livres em diferentes momentos da temporada. Ainda assim, o time não conseguiu construir uma evolução consistente no Brasileirão.

A passagem também terminou sem uma conquista de maior peso. O Inter venceu a Recopa Gaúcha, mas foi vice-campeão estadual diante do Grêmio e acabou eliminado pelo rival na Copa do Brasil. A eliminação no mata-mata nacional foi particularmente dolorosa: depois do empate sem gols no Beira-Rio, o Colorado perdeu por 3 a 1 na Arena e viu desaparecer a última possibilidade de título relevante na temporada.

O problema, portanto, não foi simplesmente a ausência de resultados. Foi a dificuldade de enxergar uma evolução proporcional ao tempo de trabalho. Mesmo quando o Inter apresentava alguma atuação mais competitiva, faltava transformar esses momentos em uma sequência capaz de alterar a trajetória da temporada.

A derrota no Morumbis ainda expôs outro aspecto que acompanhou a reta final do trabalho: as decisões de Pezzolano passaram a ser tão questionadas quanto os resultados.

A mudança de posicionamento de jogadores como Mercado e Maripán, por exemplo, não conseguiu solucionar os problemas defensivos e terminou com o chileno cometendo justamente o erro que decidiu a partida. No ataque, a demora para colocar Sanabria também chamou atenção. O Internacional precisava de presença de área para tentar transformar o domínio do segundo tempo em chances de gol, mas o centroavante só entrou aos 33 minutos da etapa final.

Não é possível afirmar que uma alteração antecipada necessariamente mudaria o resultado. O ponto é outro: quando o treinador reconhece que sua equipe precisa de contundência, suas escolhas precisam oferecer ferramentas para atacar exatamente essa deficiência. Na reta final de sua passagem, Pezzolano não conseguiu convencer de que encontrava respostas suficientemente rápidas para os problemas que apareciam durante as partidas.

O próprio treinador reconheceu, depois da derrota para o São Paulo, que a missão de salvar o Internacional estava “cada vez mais difícil”. No dia seguinte, a diretoria decidiu que a mudança precisava acontecer.

A demissão muda o treinador, não a situação do Inter

A saída de Pezzolano pode interromper um ciclo de resultados ruins, mas não resolve automaticamente os problemas que levaram o clube até a 18ª colocação. O novo treinador encontrará uma equipe pressionada, com pouca margem de erro e uma tabela na qual cada ponto terá peso enorme na luta contra o rebaixamento.

A direção decidiu utilizar a pausa da Data Fifa para procurar um substituto. Até lá, o auxiliar técnico permanente Pablo Fernandez comandará as atividades no CT Parque Gigante. O próximo compromisso será apenas em 7 de outubro, contra o Corinthians, no Beira-Rio.

Esse intervalo é valioso justamente porque o Inter não pode tratar a troca como uma simples mudança de comando. Será necessário definir rapidamente que tipo de equipe o clube pretende ser nessa reta final. O treinador escolhido terá pouco tempo para implementar conceitos, mas encontrará uma quantidade razoável de dias de preparação antes do confronto direto com o Corinthians.

E o calendário deixa a urgência ainda mais evidente. O Internacional só voltará a campo em outubro e, depois disso, terá pela frente uma sequência na qual os confrontos diretos ganharão importância cada vez maior. A equipe precisa recuperar capacidade competitiva antes que a distância para os adversários aumente.

O problema agora é maior do que Pezzolano

A demissão de Pezzolano era uma decisão sobre o comando técnico. A reconstrução do Internacional, porém, é uma questão muito maior.

O treinador deixa o clube como o 18º técnico demitido no Campeonato Brasileiro de 2026, em uma temporada marcada por uma quantidade excepcional de mudanças nos bancos da Série A. Mas, no caso colorado, trocar o treinador não pode servir para encerrar a discussão sobre o planejamento que colocou o clube nessa situação.

O Inter passou boa parte da temporada sem conseguir transformar seu elenco em uma equipe consistente. A campanha estadual terminou com derrota para o principal rival, a Copa do Brasil acabou novamente diante do Grêmio e o Brasileirão transformou a reta final em uma luta contra o rebaixamento. Pezzolano é o responsável pelo trabalho dentro de campo, mas a crise esportiva não nasceu e não termina exclusivamente na figura do treinador.

Por isso, o próximo comandante precisará receber mais do que uma nova oportunidade. Precisará encontrar um ambiente capaz de sustentar uma reação. A diretoria terá de escolher um profissional adequado para uma missão emergencial, enquanto o elenco precisará responder dentro de campo.

A demissão de Pezzolano encerra uma tentativa que não funcionou como o Internacional esperava. Agora começa outra, provavelmente mais difícil: transformar uma mudança de treinador em uma mudança de trajetória.

O Colorado ainda tem tempo para reagir, mas não para continuar repetindo os mesmos erros. A queda de Pezzolano pode ser o primeiro movimento de uma reconstrução. Se for apenas uma troca de nome no banco, o problema que levou o Internacional ao Z-4 continuará exatamente onde estava.

(Foto: Ricardo Duarte/Internacional)