Lutas UFC

Lerone Murphy ainda não fez o suficiente para disputar o cinturão

A reação de Lerone Murphy ao anúncio de que Diego Lopes seria novamente o desafiante ao cinturão de Alexander Volkanovski não passou despercebida. O inglês afirmou ter “perdido o amor pelo MMA momentaneamente” ao ver o brasileiro receber uma revanche imediata, sentimento que traduz frustração e a percepção de que, talvez, merecesse estar naquela posição.

E embora sua indignação seja compreensível, especialmente num momento em que ele vive excelente fase e acumula vitórias convincentes, ainda não é possível afirmar que Murphy fez o suficiente para já ser o próximo da fila.

Ele está perto, muito perto, mas falta uma vitória que consolide sem contestações o seu status de desafiante número um. E quando se olha para a divisão do peso-pena como um todo, o quadro mostra algo ainda mais evidente: o verdadeiro injustiçado da decisão do UFC foi Movsar Evloev, e não Murphy.

A trajetória recente de Murphy é de alto nível. As vitória dominantes sobre Josh Emmett e Aaron Pico, e a capacidade de se manter invicto no UFC mostram um atleta em grande evolução, tecnicamente sólido e fisicamente consistente. O inglês também tem o mérito de ter aceitado desafios em momentos difíceis e de ter mostrado resistência mental em lutas duras que poderiam tê-lo colocado em risco.

Não há dúvida de que ele está entre os melhores da categoria e que, em um futuro próximo, a disputa de cinturão será uma realidade inevitável. No entanto, apesar do seu cartel brilhante e do impacto que vem causando, o UFC tradicionalmente exige do candidato ao título um “statement win” contra um nome estabelecido do top-3, algo que Murphy ainda não possui.

Ele venceu bons lutadores, veteranos duríssimos e o fez de forma convincente, mas ainda não superou um rival direto na corrida pelo cinturão, alguém que estivesse exatamente no mesmo terço superior da divisão e cuja derrota lhe garantisse, sem debates, o caminho para Volkanovski.

Murphy não foi tão “prejudicado” quanto Movsar Evloev

Lerone Murphy e Movsar Evloev são os próximos da fila pelo cinturão dos penas
Lerone Murphy e Movsar Evloev são os próximos da fila pelo cinturão dos penas (Imagem: Louis Grasse/PxImages)

Se Murphy tem motivos para frustração, Evloev tem razões ainda mais fortes. O russo, invicto e consistente como poucos, já havia construído um caminho extremamente claro para chegar ao title shot. Seu estilo de luta, baseado em grappling sufocante, capacidade de controle e volume técnico, faz dele um dos adversários mais difíceis da categoria.

O russo derrotou Diego Lopes em uma luta equilibrada, mas ainda assim clara, e tem acumulado vitórias sobre oponentes de alto nível em sequência. Além disso, Evloev sempre se manteve ativo, disposto a enfrentar quem o UFC colocasse à sua frente, e manteve um nível de performance que o destaca como um dos poucos lutadores cujo caso para disputar o cinturão se baseia puramente em mérito esportivo, não em marketing, hype ou conveniência comercial.

Outro ponto que precisa ser mencionado é que até mesmo Alexander Volkanovski e membros de sua equipe reconheceram publicamente que Evloev e Murphy eram os nomes mais lógicos para a próxima disputa de cinturão. A escolha por Diego Lopes, embora defensável do ponto de vista do entretenimento ou da popularidade repentina do brasileiro, não é a mais coerente em termos competitivos.

Volkanovski venceu Lopes recentemente em uma luta apertada, mas ainda assim marcada por controle técnico e leitura estratégica. A revanche imediata não era uma exigência esportiva, e isso faz com que os lutadores que estavam há mais tempo escalando a hierarquia, como Evloev, parecerem ainda mais prejudicados pela decisão.

No caso de Murphy, falta-lhe exatamente aquilo que Evloev já tem: uma vitória que formalmente o coloque acima de seus concorrentes diretos. A frustração do inglês é legítima, mas, olhando friamente para a lógica interna do esporte, Murphy ainda precisa de mais um combate, uma luta classificatória, algo que solidifique sua posição e que o retire da zona do “candidato plausível” para a do “desafiante incontestável”.

Lerone Murphy mesmo sabe disso. Em entrevistas recentes, expressou o desejo de fazer uma eliminatória no início de 2026, de preferência no Reino Unido, o que mostra que, mesmo com toda a indignação, ele compreende onde está seu lugar no momento.

Movsar Evloev, por outro lado, não precisa de mais uma prova. Já passou pelo teste que Murphy ainda deve enfrentar. Se consolidou como top absoluto da divisão. Venceu o próprio Diego Lopes. E demonstrou que tem capacidade de anular estilos diferentes, de impor ritmo e de manter constância em suas performances. Se o UFC estivesse seguindo exclusivamente a métrica técnica e meritocrática, o nome dele seria o próximo da fila sem maiores dúvidas.

Com tudo isso, é natural que Lerone Murphy se sinta prejudicado pela decisão do UFC, mas isso não muda o fato de que seu caminho até o cinturão pede, sim, mais um passo. Precisando apenas de uma vitória definitiva contra um adversário do topo da categoria, ele está a um passo do objetivo.

Entretanto, o quadro mais amplo revela que o maior prejudicado não foi ele, e sim Movsar Evloev, que já reuniu todos os argumentos esportivos para ser o desafiante e viu sua vez ser adiada por uma decisão mais voltada ao entretenimento do que ao mérito competitivo. O futuro do peso-pena ainda é brilhante para Murphy, mas o presente deveria ser de Evloev.

(Imagem de capa: Chris Unger/Zuffa LLC)