Liam Rosenior Chelsea
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Liam Rosenior no Chelsea: bastidores, ideias e o desafio de dar identidade aos Blues

Essa história de Liam Rosenior no Chelsea tinha tudo para ser um roteiro de filme, tudo mesmo. Em 2019, o novo treinador dos Blues estava confortável em um estúdio da Sky Sports, analisando o caos quase crônico do mesmo clube londrino e soltando uma frase que envelheceu como vinho, dependendo do seu ponto de vista. “Chega uma hora em que você precisa bancar um treinador por dois anos e deixar ele construir algo”, disse o então comentarista.

E agora estamos aqui, sete anos depois, o roteiro deu uma daquelas voltas completas: Rosenior é o novo técnico do Chelsea e agora é ele quem precisa construir algo em Stamford Bridge. Com seu contrato até 2032, se o tempo for levado a sério, pelo meu pouco conhecimento de matemática, vai além de dois anos…

A confirmação do acordo com o Strasbourg coloca no comando dos Blues um treinador jovem, inglês, sem experiência prévia na Premier League como técnico principal, mas com uma reputação crescente de estudioso, meticuloso e formador de jogadores. Em um clube conhecido por trocar de técnico como quem troca de camisa, isso já diz bastante sobre onde ele estará pisando.

Um Chelsea que troca muito… até demais

Desde que Todd Boehly assumiu o controle do clube, o Chelsea virou uma verdadeira montanha-russa no banco de reservas. Thomas Tuchel durou pouco mais de três meses. Graham Potter passou dos 200 dias, mas sem convicção. Mauricio Pochettino teve só uma temporada. Enzo Maresca, mesmo com dois títulos, não completou dois anos. Agora, Rosenior se torna o quinto técnico efetivo do projeto BlueCo em menos de cinco anos.

Ou seja: estabilidade não é exatamente o forte do ambiente, apesar de todos os pontos serem voltados para projetos… Mas, curiosamente, Rosenior chega em um contexto diferente dos antecessores. Ele não tem o peso de um Tuchel, nem o status global de um Pochettino. Também não vem com o selo “discípulo direto de Guardiola”, como Maresca. E talvez justamente aí esteja o ponto.

De zagueiro estudioso a técnico “obsessivo por detalhe”

Quem conviveu com Rosenior ao longo da carreira costuma repetir a mesma palavra: detalhe. Curtis Davies, ex-companheiro e jogador comandado por ele no Hull City e no Derby Count, conta que ainda como atleta, o inglês já era diferente. Enquanto muitos relaxavam, Rosenior lia livros do Guardiola e tentava entender o porquê das coisas em campo, sem querer colocar em comparação, mas colocando, algo semelhante a Filipe Luís no Brasil.

Essa curiosidade virou método quando ele encerrou a carreira no Brighton e decidiu, conscientemente, parar de jogar para aprender a treinar. Foi auxiliar nas categorias de base, trabalhou com Simon Rusk e rapidamente criou fama de treinador corajoso, daqueles que não fogem da responsabilidade e bancam ideias, existem muitos por aí com essa mentalidade, Ruben Amorim, Ange Postecoglou… vou parar por aqui pra não pesar o assunto.

No Derby, viveu o caos financeiro do clube e precisou lançar jovens quase por obrigação. No Hull, mesmo em um cenário instável (cinco técnicos em quatro anos), quase levou o time aos play-offs da Championship. Já no Strasbourg, talvez seu maior desafio, fez algo raro: um técnico inglês jovem dando certo fora do país, com uma média de idade baixíssima, simplesmente menos de 22 anos.

Strasbourg como laboratório (e vitrine) de Rosenier e Chelsea

No clube francês, Rosenior encontrou um ambiente perfeito para testar suas ideias. Resultado? Um Strasbourg intenso, organizado e propositivo. Na última temporada, terminou em sétimo lugar na Ligue 1, garantindo vaga na Conference League, feito alcançado pouquíssimas vezes na história do clube, valendo lembrar que ficaram por um fio de algo maior, perdendo uma vaga numa outra competição internacional devido a um tropeço completamente inesperado.

Os números ajudam a explicar o hype: equipe entre as que mais trocam passes, com alto volume no próprio campo, forte no drible, competitiva defensivamente e eficiente ofensivamente. Não é só “bonito de ver”, é funcional. E isso chamou (muita) atenção em Londres.

A ideia central é clara: posse de bola sob pressão. Os times de Rosenior gostam de sair jogando desde trás, mesmo quando o risco é alto. Ele prefere errar tentando executar sua ideia do que abrir mão dela sem convicção. Mas isso não significa teimosia cega, apesar de em certos pontos ser.

Quem trabalhou com ele garante que Rosenior sabe adaptar, algo que pode ser interessantíssimo. Ele pode passar a semana inteira preparando um plano e mudá-lo no meio do jogo, se achar necessário. A diferença é que, quando muda, ele assume o erro. E isso, no futebol, gera respeito.

Outro ponto-chave são os “não negociáveis”: intensidade, disciplina tática e trabalho sem bola. Não importa se é jovem promessa ou estrela consolidada, quem não compra a ideia, dança, algo que tem tudo para ser uma faca de dois gumes.

Aqui entra talvez o maior encaixe entre Rosenior e o Chelsea atual. Ao longo da carreira, ele se destacou no desenvolvimento de jovens: Viktor Gyökeres, Robert Sánchez, Fabio Carvalho, Liam Delap, Andrey Santos, Martial Godo… a lista cresce rápido.

Agora, imagine esse perfil trabalhando com nomes como Cole Palmer, Enzo Fernández, Moisés Caicedo e Estêvão. É exatamente isso que empolga a diretoria. Rosenior não é visto como um “yes-man”, mas como alguém que entende o projeto e sabe potencializá-lo.

Ele vai mandar ou só obedecer?

A pergunta inevitável: Rosenior será apenas mais um técnico “alinhado” demais com a diretoria? Quem o conhece descarta isso. Ele não é explosivo, não é midiático, mas tem convicções fortes. E, ironicamente, isso já ficou claro naquela fala de 2019 sobre o próprio Chelsea.

Ele sabe que o sucesso passa por atravessar momentos ruins sem apertar o botão de pânico. Resta saber se o clube aprendeu isso também. Depois de ter cortado alguns nomes, deram um contrato de sete temporadas para Rosenior, talvez ele tenha entregue algo que a diretoria tanto buscava, ou foi só mais uma movimentação sem sentido dos Blues.

Assumir o Chelsea nunca é simples. Assumir o Chelsea jovem, sem experiência prévia na Premier League e em um clube traumatizado por instabilidade… é quase missão suicida. Mas Rosenior parece o tipo de treinador que gosta desse desafio.

Agora, a bola está com a equipe londrina: vai bancar o discurso ou repetir o roteiro? Liam Rosenior já deixou claro que sabe onde está pisando. Falta saber se o clube está pronto para, finalmente, deixar alguém construir.

Foto: Getty Images