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5 lições do empate do Brasil com a Austrália: o que Ancelotti precisa corrigir no novo ciclo

O primeiro jogo do Brasil depois da Copa do Mundo de 2026 terminou com um empate que, pelo contexto, pouco representa em termos de resultado e muito em termos de diagnóstico. O 1 a 1 com a Austrália, em Townsville, não era uma partida que definiria o futuro da Seleção, mas serviu para mostrar alguns dos problemas que Carlo Ancelotti terá de resolver durante o ciclo até 2030.

A Seleção saiu atrás no segundo tempo, depois de Nestory Irankunda marcar para os australianos, e precisou de um gol de Rayan nos acréscimos para evitar a derrota. O atacante do Bournemouth, que entrou na etapa final, apareceu justamente quando o Brasil precisava de uma solução diferente para transformar pressão em gol.

O resultado, portanto, deixa uma sensação curiosa. Há elementos positivos na atuação, principalmente na capacidade de recuperar a bola e pressionar a saída australiana, mas também ficou evidente que o Brasil ainda não encontrou a maneira correta de transformar seus quatro atacantes em um sistema ofensivo funcional.

Ancelotti iniciou o novo ciclo mantendo o 4-2-4 que já havia utilizado na preparação e na Copa do Mundo. A formação teve Hugo Souza; Matheuzinho, Marquinhos, Vitor Reis e Douglas Santos; Danilo Santos e Bruno Guimarães; Estêvão, Raphinha, Endrick e Vinicius Junior.

Mais do que o empate, porém, cinco lições ficaram evidentes.

1. O 4-2-4 pode funcionar, mas precisa ser utilizado corretamente

O problema não está necessariamente no desenho. O 4-2-4 pode ser uma arma extremamente agressiva para o Brasil, especialmente porque permite colocar quatro jogadores de enorme capacidade ofensiva em campo ao mesmo tempo. O próprio Ancelotti escolheu esse modelo como uma de suas principais estruturas no ciclo anterior.

A questão é que o 4-2-4 não pode significar simplesmente colocar quatro atacantes na última linha e esperar que eles resolvam a partida. Para funcionar, o Brasil precisa saber alargar e diminuir o campo nos momentos certos.

Na saída de bola, existe uma consequência matemática e tática óbvia: se o adversário utiliza três jogadores por dentro e o Brasil tem apenas dois meio-campistas, insistir em construir pelo corredor central significa aceitar uma inferioridade numérica. Contra um meio-campo com três homens, Bruno Guimarães e Danilo Santos não terão vantagem posicional apenas porque possuem qualidade técnica.

É possível, então, tirar uma página de algumas ideias associadas ao futebol de Gian Piero Gasperini: esvaziar determinados espaços para abrir outros.

Se o meio está congestionado, o Brasil não precisa necessariamente colocar mais gente ali. Pode fazer o contrário. Pode afastar os atacantes, abrir o campo e criar condições para que jogadores como Raphinha, Endrick ou Estêvão recebam em zonas intermediárias, de costas para a defesa, enquanto os demais movimentos criam linhas de passe ao redor deles.

O objetivo seria fazer o adversário escolher. Se o volante adversário acompanha o atacante que sai da última linha, abre-se espaço para quem vem de trás. Se o zagueiro acompanha Endrick, surge espaço para Raphinha atacar por dentro. Se ninguém acompanha, o atacante recebe de frente ou consegue girar.

Mas isso exige movimentação coordenada. E foi justamente o que faltou em vários momentos contra a Austrália. O Brasil teve dificuldade para conectar seus quatro atacantes porque eles frequentemente ficaram muito distantes uns dos outros. Vini Jr., principalmente, permaneceu bastante aberto pelo lado esquerdo, enquanto Endrick, Estêvão e Raphinha também precisavam encontrar seus próprios espaços.

A consequência foi uma equipe que tinha quatro atacantes no papel, mas nem sempre quatro jogadores participando da construção.bNa fase ofensiva, o princípio precisa ser outro: subir as linhas para manter a posse e aproximar os jogadores.

O 4-2-4 não pode virar uma espécie de 4-2-4 estático. Quando o Brasil chega ao campo adversário, os laterais precisam avançar, os pontas precisam alternar posições, os atacantes precisam sair da referência dos zagueiros e os meio-campistas precisam ocupar os espaços deixados por essas movimentações.

A ideia é criar uma sequência.bUm jogador vem buscar. Outro ataca a profundidade. Um terceiro ocupa o espaço entre lateral e zagueiro. O quarto abre o campo.

Sem isso, o 4-2-4 vira apenas uma coleção de talentos. Com isso, pode se transformar em uma estrutura extremamente difícil de defender.

2. O Brasil precisa parar de contar com Vini Jr. e Raphinha hipotéticos

Não se trata de questionar a qualidade de Vinicius Junior ou Raphinha. Os dois continuam sendo jogadores de enorme nível e Ancelotti deixou claro, antes deste novo ciclo, que os considera importantes para a Seleção. A primeira convocação pós-Copa manteve ambos justamente como parte da transição para 2030.

O problema é outro: o Brasil não pode construir seu futuro imaginando a versão ideal dos dois jogadores. É preciso trabalhar com aquilo que eles efetivamente entregam em campo.

Vini Jr. teve importância enorme na Copa, terminou o Mundial como artilheiro brasileiro com quatro gols e foi responsável por 41% das tentativas de drible da Seleção no torneio. Mas também existiram momentos em que sua participação coletiva foi limitada quando o jogo ficou mais congestionado.

Contra a Austrália, isso voltou a aparecer. Quando Vini permanece plantado na esquerda esperando receber no um contra um, o Brasil perde uma peça que poderia ajudar a criar superioridade em outras zonas. O problema não é ele jogar pela esquerda. É jogar pela esquerda sem que exista uma segunda movimentação capaz de aproveitar o espaço criado por ele.

O mesmo vale para Raphinha. Ancelotti pode contar com a melhor versão possível dos dois? Claro. Mas não pode montar um ciclo de quatro anos baseado na expectativa de que essa versão aparecerá em todos os jogos.

O novo ciclo precisa colocar os jovens no centro do projeto. Estêvão, Endrick e Rayan precisam receber minutos, responsabilidades e liberdade para errar. Jogadores como Vitor Reis precisam ser avaliados não como meros convidados de uma convocação, mas como possíveis peças da Seleção que chegará a 2030.

Essa é, inclusive, a lógica declarada por Ancelotti. Na convocação de setembro, o treinador chamou oito estreantes e afirmou que a prioridade seria observar jogadores jovens que terão idade para o próximo ciclo.

O empate com a Austrália reforça a necessidade dessa mudança. O Brasil não precisa abandonar seus veteranos. Precisa parar de depender deles.

3. Matheuzinho, Danilo e Mauro Júnior são boas notícias

Em meio às dificuldades ofensivas, o jogo também deixou algumas respostas positivas.

Matheuzinho fez sua estreia pela Seleção principal como titular e mostrou por que ganhou espaço na primeira convocação de Ancelotti. O lateral-direito foi uma das novidades do time que começou a partida e faz parte de uma geração que o treinador pretende observar durante o ciclo.

Sua presença é importante porque o Brasil precisa encontrar laterais capazes de participar da construção e, principalmente, dar amplitude para que o 4-2-4 não fique concentrado demais pelo centro.

Danilo Santos também merece atenção. O meio-campista do Botafogo começou ao lado de Bruno Guimarães e representa exatamente o tipo de jogador que Ancelotti precisa observar em uma posição que o próprio treinador apontou como uma das áreas de maior carência do elenco. Na convocação, o italiano reconheceu que o meio-campo é o setor em que a Seleção ainda precisa encontrar soluções.

E há ainda Mauro Júnior. O jogador do PSV não começou como titular, mas entrou durante a partida e representa uma alternativa interessante para a lateral esquerda. Ancelotti já havia destacado seu perfil ofensivo e sua tendência de atuar por dentro. Na temporada anterior pelo clube holandês, Mauro participou de 37 jogos, com um gol e 11 assistências.

São três peças diferentes, mas que apontam para a mesma direção: o Brasil precisa descobrir jogadores capazes de dar novas características ao sistema, não apenas substituir nomes antigos posição por posição.

4. A pressão alta continua funcionando, mas falta transformar recuperação em gol

Se existe uma característica que sobreviveu à Copa do Mundo, foi a pressão alta. O Brasil continua tendo capacidade para incomodar a primeira fase de construção adversária, recuperar a bola em zonas avançadas e transformar roubadas de bola em situações de ataque. Isso não surgiu por acaso durante o Mundial: a pressão alta foi uma das principais características defensivas da equipe, especialmente com jogadores como Rayan e Matheus Cunha. Das recuperações feitas pelos dois, saíram quatro dos nove gols brasileiros na Copa.

Contra a Austrália, o mecanismo continuou aparecendo. O problema está na segunda parte da equação. Roubar a bola não basta. É preciso saber o que fazer com ela depois.

O Brasil conseguiu pressionar, mas nem sempre conseguiu transformar a recuperação em uma finalização de alto valor. Em vários momentos, a Seleção recuperava a bola e encontrava uma Austrália novamente organizada poucos segundos depois.

É aqui que a movimentação ofensiva volta a ser fundamental. Quando a pressão funciona, a equipe adversária está desorganizada. O Brasil precisa aproveitar justamente esses segundos. Um atacante precisa atacar a profundidade. Outro precisa aproximar-se da bola. Um terceiro precisa ocupar a área.

A recuperação precisa virar sequência. E o gol de Rayan, no último lance, foi justamente um lembrete disso. O Brasil só conseguiu evitar a derrota quando voltou a colocar jogadores em zonas perigosas e insistiu até o último segundo.

A pressão alta, portanto, não é um problema a ser abandonado. Pelo contrário. É uma das bases sobre as quais Ancelotti pode construir o novo Brasil. Mas ela precisa deixar de ser apenas uma ferramenta para recuperar a posse e passar a ser o início de uma jogada ofensiva.

5. O Brasil precisa urgentemente testar novos goleiros

Talvez nenhum setor tenha deixado uma pergunta tão clara quanto o gol. Hugo Souza começou como titular diante da Austrália, enquanto Pedro Morisco e Otávio ficaram no banco. Os dois jovens foram convocados justamente como parte da renovação da posição depois de Alisson, Ederson e Weverton terem ficado fora da primeira lista pós-Copa.

O problema é que Hugo novamente não transmitiu a segurança que uma Seleção precisa ter.

Irankunda abriu o placar com uma cobrança de falta no segundo tempo, e a atuação de Hugo voltou a colocar em discussão se o goleiro do Corinthians deve ser tratado como solução de longo prazo ou apenas como uma das alternativas disponíveis.

Isso não significa que Morisco ou Otávio estejam automaticamente prontos para assumir a titularidade.

Significa que eles precisam jogar. A própria convocação mostra que Ancelotti quer conhecer outros perfis. O treinador definiu Hugo como um goleiro “muito ativo”, chamou Otávio de jogador de “personalidade” e descreveu Morisco como um goleiro para o futuro.

Agora é preciso transformar essas avaliações em minutos. Morisco já acumula experiência como titular do Coritiba e é um dos destaques do clube. Otávio, por sua vez, ganhou espaço no Cruzeiro depois da lesão de Cássio e permaneceu como titular mesmo após o retorno do veterano.

A próxima partida contra a Austrália, portanto, oferece uma oportunidade perfeita. Se Ancelotti realmente quer construir uma Seleção para 2030, não faz sentido passar toda a Data Fifa utilizando apenas Hugo Souza.

É preciso descobrir. É preciso comparar. É preciso errar agora, enquanto ainda existe tempo para corrigir.

(Foto: Rafael Ribeiro/CBF)