Ligas transfronteiriças
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Ligas transfronteiriças: do Pacífico à Europa, o futebol começa a pensar fora da própria fronteira

Ligas transfronteiriças não são exatamente uma novidade no futebol mundial, mas nos últimos anos o tema voltou com força ao debate. Em um esporte cada vez mais globalizado, onde diversos outros fatores andando sendo tão importante quanto ao jogo dentro das quatro linhas, com transmissões internacionais, mercados digitais e torcedores espalhados pelo mundo, a pergunta que começa a ganhar espaço é simples: por que os campeonatos ainda precisam ficar presos a fronteiras nacionais?

A mais nova tentativa de responder isso vem da Oceania. Neste fim de semana, a bola rola para a OFC Professional League, uma competição inédita que reúne clubes de sete países diferentes: Nova Zelândia, Austrália, Fiji, Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Taiti e Vanuatu. O projeto nasce com um objetivo ambicioso: profissionalizar o futebol da região e colocar seus clubes frente a frente com os melhores do mundo, na tentativa de elevar o nível das competições, e também, as engrandecer.

E não é exagero. O campeão da liga garante vaga na Copa Intercontinental da Fifa e também no novo Mundial de Clubes, mais conhecido como Copa do Mundo de Clubes. Estamos falando de bastante dinheiro envolvido, e no caso, mais holofotes para quem estiver interessado em colocar a cara.

Um experimento que pode mudar o jogo

A nova liga reúne apenas oito clubes, mas já chama atenção pela logística e pelo planejamento. As partidas iniciais acontecem em Auckland, no imponente Eden Park, antes de passarem por outros quatro países até os playoffs finais, previstos para maio.

Segundo Stuart Larman, diretor da OFC, o apoio financeiro da confederação, cobrindo viagens, hospedagem e transporte, permite que os clubes foquem em algo essencial: futebol. E isso, convenhamos, já é um baita avanço.

“A qualidade vai surpreender”, garantiu Larman. Para ele, a criação de ligas transfronteiriças também abre portas para um mercado pouco explorado de jogadores, que passam a atuar em jogos realmente competitivos, com calendário e visibilidade.

Muito se fala sobre essa ideia soar ousada na Oceania, já levando a considerar a possibilidade de ocorrer na Europa. Entretanto, não estamos falando em algo para bater de frente com as grandes competições europeias, a intenção maior é dar espaço para os times que estão dentro das pequenas competições do Velho Continente.

A crise silenciosa das ligas menores

Enquanto as grandes ligas europeias nadam em dinheiro de TV, outras sobrevivem no modo economia criativa. É o caso da Letônia. Maksims Krivunecs, presidente da Virsliga, foi direto ao ponto: o campeonato não tem nenhum contrato de transmissão.

Zero. Nada. Nem uma câmera ligada.

Nesse cenário, pensar em ligas transfronteiriças deixa de ser sonho e vira plano estratégico. A proposta de Krivunecs é criar uma Liga Báltica, reunindo clubes da Letônia, Estônia e Lituânia em um modelo híbrido, sem extinguir os campeonatos nacionais.

A ideia é simples: mais jogos competitivos, mais interesse comercial, mais valor de mercado para jogadores e clubes. E, claro, mais chances de fazer frente a ligas do top-30 europeu, ou pelo menos, tentar diminuir a distância que os cerca neste assunto.

Como funcionaria a Liga Báltica?

O formato proposto é engenhoso. Cada país mantém seu campeonato nacional, mas com menos jogos. Os quatro melhores avançam para uma fase internacional, enfrentando clubes dos outros países em jogos de ida e volta.

Os pontos são carregados, os confrontos seguem equilibrados e todos continuam brigando por algo até o fim da temporada, seja título, vaga europeia ou permanência, abrindo espaço para mostrar que não é certa a presença de todos o tempo inteiro.

Esse tipo de estrutura é fundamental para que as ligas transfronteiriças não entrem em conflito com as regras da Uefa, que exige critérios claros para distribuição de vagas continentais.

E vale lembrar: clubes da região já provaram que podem competir. O RFS, da Letônia, venceu o Ajax na Liga Europa recentemente.

Não seria a primeira vez que veríamos algo deste tipo ocorrer. Bélgica e Holanda estudaram a BeNeLiga. Países do Atlântico Norte discutiram uma liga envolvendo Escócia, Portugal e Escandinávia. Nada foi adiante, seja por política, resistência interna ou medo de perder identidade.

Mas o cenário mudou. Hoje, o abismo financeiro entre ligas só cresce. E, goste ou não, ligas transfronteiriças aparecem como uma possível resposta à desigualdade estrutural do futebol europeu.

Foto: Getty Images