O Barcelona voltou a tropeçar na própria estratégia. A insistência de Hansi Flick em manter uma linha defensiva avançada e uma pressão sufocante sobre os adversários, que funcionou bem em parte da temporada passada, agora parece ter se transformado em um problema crônico. O treinador alemão prometeu ajustes em maio, mas a prática mostra que o time continua caindo nos mesmos erros. Diante do Brugge, fora de casa, o sistema simplesmente desabou.
Em apenas 16 minutos de jogo, o Barça já tinha levado dois gols — ambos em jogadas nas costas da defesa, com o time belga explorando com facilidade os espaços deixados. No primeiro, Koundé errou o posicionamento e acabou quebrando a linha de impedimento. No segundo, um escanteio a favor do Barcelona virou um contra-ataque mortal: Forbs saiu cara a cara com Szczesny após um recuo lento e desorganizado dos catalães. O terceiro gol veio em outro lance previsível — um lateral seguido de mais um passe em profundidade, dessa vez superando Balde.
O começo da partida entrou para a história pelos motivos errados. Nunca antes o Barcelona havia sofrido dois gols em apenas 16 minutos e meio em um jogo da Champions. A fragilidade defensiva é gritante: o time já tomou gols em nove jogos consecutivos em todas as competições, somando 14 no total. É a pior sequência defensiva desde março de 2013, quando o clube levou 21 gols em 13 partidas.
Quando a tática vira teimosia
Mesmo diante dos números alarmantes, Flick continua apostando na mesma estratégia. A linha alta, que deveria servir para sufocar o adversário, virou um convite para o contra-ataque. Contra o Brugge, o Barça só conseguiu deixar o rival em impedimento uma única vez em todo o jogo. Isso diz muito sobre a ineficácia da proposta. E, para piorar, o time marcou três gols — o suficiente para vencer em condições normais —, mas voltou para casa apenas com um empate, repetindo o que já havia acontecido nas semifinais da última Champions contra a Inter de Milão.
O cenário é familiar: o Barcelona até cria e balança as redes, mas sua defesa compromete o resultado. A vulnerabilidade é tamanha que, em jogos recentes, o time precisou marcar quatro gols para vencer, como no clássico contra o Real Madrid, vencido por 4 a 3. Mesmo quando o ataque funciona, a retaguarda parece desmontar ao menor erro de marcação ou falha de posicionamento.
A paciência da torcida começa a se esgotar, e as críticas vindas de fora só aumentam. Ex-jogadores de peso, como Thierry Henry e Toni Kroos, já haviam alertado que o estilo de Flick era arriscado demais para o nível europeu. E depois da partida, Ruud Gullit foi ainda mais direto ao classificar a estratégia como “kamikaze”.
Críticas internas e necessidade urgente de ajustes no Barcelona
Dentro do elenco, a insatisfação também é evidente. Frenkie de Jong, um dos líderes do grupo, não poupou palavras após o empate: “Temos que fazer as coisas muito melhor. Há detalhes que precisamos ajustar, mas nem sempre conseguimos colocar em prática dentro de campo. Somos fracos nas transições, falta vigilância, falta pressão no alto e posicionamento lá atrás. É um pouco de tudo.”
O volante ainda fez questão de lembrar que o Barcelona precisa parar de viver do passado. “O que aconteceu no ano passado tem que ficar para trás. Não fomos o melhor time da Europa, não ganhamos a Champions e já sofremos muitos gols. Se você toma três gols, é muito difícil vencer”, disse.
O diagnóstico é claro: o modelo de Flick, baseado em uma linha de defesa adiantada e muita intensidade sem bola, só funciona se todos os jogadores executarem o plano com precisão. E, neste momento, isso está longe de acontecer. A equipe parece desconectada entre defesa e meio-campo, e qualquer erro individual se transforma em uma chance clara para o adversário.
Com resultados inconsistentes e uma defesa cada vez mais exposta, o técnico alemão começa a ser pressionado a repensar seu estilo. Talvez seja hora de equilibrar a ousadia com um pouco de prudência — antes que o Barcelona veja suas ambições na Champions ruírem novamente.