Lionel Messi está prestes a disputar sua sexta Copa do Mundo. Se entrar em campo no torneio de 2026, o argentino igualará um recorde histórico de participações em Mundiais e seguirá ampliando uma carreira que já desafia qualquer comparação. Mas existe algo ainda mais impressionante do que seus títulos, gols ou Bolas de Ouro: a capacidade de se reinventar.
Muitos jogadores envelhecem. Alguns poucos conseguem se adaptar. Messi fez algo diferente. Ao longo de mais de duas décadas no futebol profissional, o argentino mudou diversas vezes seu estilo de jogo para continuar sendo decisivo em um esporte que se tornou mais rápido, mais físico e muito mais tático.
A versão atual do camisa 10 da Argentina tem pouco em comum com aquele adolescente que estreou pelo Barcelona em 2003. O talento continua lá, claro. Mas a forma de utilizá-lo mudou completamente. E talvez seja justamente isso que explique por que, aos 38 anos, Messi continua sendo uma das figuras mais importantes do futebol mundial.
Do ponta driblador ao jogador que Guardiola transformou
Quando surgiu no Barcelona, Lionel Messi era um ponta-direita clássico. Recebia a bola aberto, encarava marcadores no x1 e buscava infiltrações cortando para o meio. Era um jogador explosivo, imprevisível e extremamente difícil de marcar.
Não demorou para que os grandes nomes do futebol percebessem o que estava surgindo.
Quando Ronaldinho viu Messi treinando pela primeira vez no Barcelona, afirmou que o argentino seria o melhor jogador do mundo. Na época, a declaração parecia exagerada. Hoje, é interessantíssima ver o que ele se tornou.
Nos primeiros anos da carreira, Messi atuava principalmente pelos lados do campo. Porém, treinadores como Frank Rijkaard já percebiam que o argentino precisava participar mais do jogo.
A lógica era simples: quanto mais vezes Messi tocasse na bola, melhor seria para o Barcelona. Essa ideia atingiu seu auge quando Pep Guardiola assumiu o comando da equipe em 2008.
Inicialmente, Messi continuou atuando pela direita. Mas Guardiola entendia que seu maior talento não estava apenas nos dribles ou na velocidade. Estava na capacidade de tomar decisões. Por isso, começou a levá-lo para regiões mais centrais do campo.
Foi uma mudança que transformaria não apenas a carreira do argentino, mas também a história do futebol moderno.
O falso 9 que mudou a forma de atacar
No dia 2 de maio de 2009, Guardiola tomou uma decisão que se tornaria histórica.
Contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, Messi deixou a ponta direita e passou a atuar como falso 9. Não era um centroavante tradicional. Em vez de permanecer entre os zagueiros, recuava constantemente para participar da construção das jogadas.
O resultado foi devastador. O Barcelona venceu por 6 a 2 e apresentou ao mundo uma das versões mais dominantes da carreira do argentino.
Os adversários simplesmente não sabiam como reagir. Quando Messi recuava, os zagueiros precisavam decidir se o acompanhavam ou se permaneciam em suas posições. Qualquer escolha criava espaços para o ataque catalão explorar.
Com Xavi, Iniesta, Yaya Touré, Thierry Henry e Samuel Eto’o ao seu redor, o argentino se transformou em uma máquina de destruir sistemas defensivos.
Entre 2011 e 2013, marcou impressionantes 96 gols em apenas 69 partidas de La Liga. Números que parecem saídos de um videogame.
Foi nesse período que Messi consolidou sua coleção de Bolas de Ouro e atingiu talvez o auge técnico de sua carreira.
Quando Messi deixou de ser apenas artilheiro
Com o passar dos anos, o Barcelona mudou. Xavi saiu. Iniesta saiu. Aos poucos, o meio-campo que dominava o futebol europeu começou a desaparecer. E Messi precisou se reinventar novamente.
Se antes ele era o principal finalizador, passou a ser também o principal criador. O argentino começou a atuar mais recuado, funcionando como um armador clássico, o famoso “enganche” do futebol sul-americano.
As assistências passaram a aparecer quase na mesma proporção dos gols. Na temporada 2019/20, por exemplo, registrou 25 gols e 22 assistências em apenas 33 jogos da La Liga.
Poucos jogadores da história conseguiram ser simultaneamente o principal artilheiro e o principal organizador de uma equipe.
Um analista argentino definiu essa transformação de maneira brilhante: “um artilheiro que virou Iniesta”.
A transformação que levou Messi ao título mundial
Enquanto evoluía taticamente nos clubes, Messi também enfrentava uma batalha emocional com a seleção argentina.
Durante anos, carregou o peso de ser comparado a Diego Maradona. Vieram derrotas dolorosas na final da Copa do Mundo de 2014 e nas Copas Américas de 2015 e 2016.
A pressão era enorme. Após perder a segunda final consecutiva para o Chile, chegou a anunciar sua aposentadoria da seleção. Mas voltou. E voltou diferente. Mais maduro, mais vocal e mais confortável no papel de líder.
A conquista da Copa América de 2021 foi um divisor de águas. A vitória sobre o Brasil no Maracanã encerrou um jejum de 28 anos sem títulos relevantes para a Argentina e retirou um enorme peso das costas do camisa 10.
Quando a Copa do Mundo de 2022 chegou, surgiu uma nova versão de Messi.
Ainda existiam momentos do driblador devastador. Ainda havia lampejos do falso 9 genial. Ainda aparecia o armador criativo. Mas agora tudo estava reunido em um único jogador.
Foi essa combinação que conduziu a Argentina ao tricampeonato mundial.
Hoje, no Inter Miami e na seleção argentina, Messi corre menos do que corria aos 20 anos. E isso não é uma crítica. É um sinal de inteligência.
Ele entende os espaços antes dos adversários, economiza energia e escolhe exatamente quando acelerar. É como um grande mestre de xadrez que já sabe vários movimentos à frente.
Por isso, talvez Pablo Aimar tenha razão quando disse que “o último Messi é sempre o melhor Messi”.
Afinal, a grande marca da carreira do argentino não está apenas nos títulos, nos gols ou nos recordes. Está na capacidade de se transformar constantemente.
Do ponta driblador ao falso 9 revolucionário. Do artilheiro ao armador. Do jovem talento ao líder campeão do mundo. E agora ao veterano que continua enxergando o jogo antes de todo mundo.
Poucos atletas foram tão dominantes por tanto tempo. Menos ainda conseguiram mudar tantas vezes sem perder a essência. É justamente por isso que Lionel Messi continua sendo um caso único na história do futebol.
Foto: Getty Images