Do jeito que as coisas estão andando em Anfield, o torcedor do Liverpool já deve ter começado a suspeitar que a Premier League da temporada passada foi um ponto fora da curva, alguma união de astros. Arne Slot, que chegou com boas ideias e um currículo interessante, agora tenta segurar um elenco que parece ter esquecido como se joga um futebol de alto nível. Estamos falando de seis derrotas nos últimos sete jogos.
A Premier League já conta com 12 rodadas, e com o Liverpool em 11º lugar. Pode ser chocante, só que o nível que os Reds estão apresentando dentro das quatro linhas, mesmo com todos os reforços e investimentos. O caos não veio do nada: a temporada começou com vitórias dramáticas, suadas, quase surreais. Mas os números agora mostram que aquilo não foi resiliência, foi pura sorte. Quando o encanto acabou, o time despencou junto.
O problema raiz: Liverpool agora é vulnerável ao óbvio
Não é preciso ser o Guardiola pra encontrar o ponto fraco do Liverpool nesta temporada de 2025/26. Já faz semanas que os adversários descobriram o caminho das pedras: bola longa, os buracos no meio-campo, pressão na segunda bola e um escanteio bem batido. Pronto, receita pronta para deixar Slot desesperado no banco de reservas.
A derrota para o Nottingham Forest foi exatamente isso, Sean Dyche fez questão de estudar muito bem a atual realidade dos Reds. E não foi a primeira vez: Manchester United, Chelsea, Crystal Palace… todo mundo encontrou sucesso com a mesma estratégia. Segundo dados recentes, o Liverpool é um dos times contra os quais mais se joga bola longa, sinal claro de que os adversários se sentem confortáveis explorando esse buraco tático.
E o pior? Funciona quase sempre.
Defesa perdida, ataque inofensivo… e o meio-campo que não existe
O setor defensivo do Liverpool virou um enigma que ninguém tem sido capaz de explicar. Van Dijk, que já foi mais sólido e confiável defensivamente, hoje parece apenas mais um zagueiro tentando sobreviver ao caos coletivo. Konaté vive um momento tão irregular que cada bola lançada na direção dele deixa o torcedor com falta de ar e ansiedade. E quando o assunto chega nas laterais? Um problema recorrente. A situação se agrava quando Arne Slot precisa improvisar Dominik Szoboszlai na direita, um talento que faz muito mais falta no meio do que ajuda fora de posição.
Quando o Liverpool perde a bola, fica completamente exposto. Quando tem a bola, se apresenta completamente previsível. O ataque, que deveria ser o setor mais temido da Premier League, tem produzido muito pouco: apenas três gols vindos dos atacantes, todos de Hugo Ekitike. A taxa de conversão está sofrível, e é até irônico perceber que Brighton e Bournemouth têm mais gols que os Reds, que investiram quase meio bilhão de libras na linha ofensiva nos últimos anos.
Salah vive um momento estranho, simplesmente aquém das apresentações de 2024/25, e Alexander Isak, contratação milionária, parece ainda não ter entendido bem o ritmo da equipe. A derrota para o Forest escancarou isso: ele perdeu todos os seus duelos no jogo e acumula o incômodo recorde de quatro derrotas nos seus quatro primeiros jogos como titular. E fica ainda mais incompreensível ver Federico Chiesa, o jogador com maior média de chutes no alvo por 90 minutos, ter apenas 139 minutos em campo na temporada. Há talento no elenco, mas não há coerência no uso desse talento.
Slot está falhando e precisa reagir agora
Está ficando cada vez mais difícil de passar pano para o atual treinador do Liverpool. Slot foi superado taticamente em praticamente todos os jogos recentes do Liverpool. Dyche, no Forest, deu uma aula simples e brilhante: “não vamos sair jogando; vamos dar bicão”. Funcionou tão bem que pareceu até maldade, não fizeram questão de ter a bola, deixaram o problema com os donos da casa.
Pior ainda foi a falta de resposta do treinador. Ekitike no banco, mudanças que não surtiram efeito, improvisações bizarras e um time que termina o jogo com dois meio-campistas na linha defensiva depois de um mercado onde o clube gastou £446 milhões. Como é que se gasta quase meio bilhão sem contratar zagueiro?
E agora, Slot?
Arne Slot conseguiu conquistar a PL em sua campanha de estreia, mas já não dá mais para ignorar: ele também está falhando. Contra o Nottingham Forest, foi engolido taticamente por Sean Dyche, que basicamente avisou para o time chutar para frente e ir atrás do rebote. E funcionou. O mais alarmante, porém, é a falta de reação do treinador.
As escolhas de início, como Ekitike no banco após marcar um golaço pela França, foram questionáveis; as mudanças durante o jogo não surtiram efeito; e a decisão de terminar o confronto com dois meio-campistas na linha defensiva simboliza perfeitamente a falta de estrutura após um mercado que custou 446 milhões de libras, mas não trouxe um único defensor consistente, muito menos um primeiro volante.
Agora Slot precisa fazer ajustes reais e urgentes. A troca natural é entre Isak e Ekitike, já que o francês vive momento melhor e oferece mais mobilidade. Szoboszlai precisa voltar ao meio-campo, onde equilibra o time e potencializa Gravenberch e Mac Allister. Joe Gomez ou o jovem Calvin Ramsay podem assumir a lateral direita até Bradley voltar, devolvendo ao time um mínimo de segurança defensiva. Do outro lado, Robertson pode trazer estabilidade que Milos Kerkez, no momento, não entrega.
Essa janela de transferências contou com a chegada de dois novos laterais para o Liverpool, um em cada lado, mas eles não andam justificando a titularidade. Ainda mais quando o assunto do nível defensivo chega na mesa…
E há também a questão Salah. Mesmo que seu histórico imponha respeito, o momento técnico dele não ajuda a equipe. Slot pode dar minutos a Curtis Jones ou Chiesa pelo lado direito, oferecendo mais proteção ao setor defensivo e variando o repertório ofensivo. Não é uma decisão simples, nunca é quando uma estrela é cotada para sentar no banco de reservas, e provavelmente renderá manchetes, mas talvez seja necessária para frear a decadência evidente.
A corda já está bem esticada
No próximo domingo, o Liverpool enfrenta o West Ham pela Premier League, que está na beira da zona de rebaixamento. É o tipo de jogo que, em qualquer temporada normal, seria três pontos garantidos. Mas em 2025, com esse Liverpool? Nada é garantido. Nada mesmo.
Slot precisa acertar agora, imediatamente, ou o sonho do bicampeonato vira um pesadelo no meio da temporada. Anfield já sente a apatia. E se o time não reagir, essa apatia pode virar crise, daquelas bem difíceis de estancar.
A bola está com Slot. E, sinceramente, não pode ser mais um lançamento longo errado.
Foto: Sky Sports