Entrar em campo com a maior sequência invicta entre os clubes das cinco grandes ligas europeias parecia, à primeira vista, sinal de solidez. Mas o Liverpool que saiu derrotado em Bournemouth deixou claro que essa invencibilidade estava mais mascarando problemas do que refletindo um bom momento real.
A derrota por 3 a 2, com gol sofrido aos 95 minutos, escancarou falhas que já vinham aparecendo rodada após rodada. O time de Arne Slot agora soma cinco jogos sem vitória na Premier League, com quatro empates e uma derrota, sequência construída contra adversários teoricamente acessíveis como Leeds, Burnley, Fulham e o próprio Bournemouth.
O mais preocupante não é apenas a falta de vitórias, mas a sensação de que o Liverpool perdeu completamente aquela aura de time temido. Hoje, os rivais entram em campo acreditando que podem vencer, e muitas vezes conseguem.
Um Liverpool previsível e frágil
Contra o Bournemouth, o Liverpool mostrou novamente um futebol previsível, especialmente quando precisa construir jogadas com a bola rolando. Os gols vieram de bolas paradas, mas no jogo aberto o time criou pouco e sofreu demais na defesa.
Alan Shearer resumiu bem o momento ao dizer que o Liverpool está muito distante da equipe dominante da temporada passada. Os erros individuais se repetem, a defesa vacila em momentos decisivos e o controle emocional parece cada vez menor.
O erro de Virgil van Dijk no primeiro gol sofrido é simbólico. Um lance evitável, que expõe não apenas falha técnica, mas também falta de concentração. Ainda mais grave foi a decisão coletiva de seguir jogando mesmo com Joe Gomez lesionado, o que resultou no segundo gol do Bournemouth com o Liverpool momentaneamente com um jogador a menos.
A temporada resumida em pequenos detalhes
Arne Slot tentou explicar o lance dizendo que a equipe até manteve a posse de bola, mas perdeu no momento errado. A frase “talvez isso resuma a nossa temporada” soa quase como uma confissão. O Liverpool até controla jogos em certos momentos, mas sempre encontra uma nova forma de se complicar.
Não é um problema isolado. Já são três gols sofridos nos acréscimos nesta edição da Premier League, o maior número do clube em uma única temporada. Além disso, o time já perdeu pontos cinco vezes no tempo extra e sofreu cinco gols originados em cobranças de lateral, um dado alarmante para um elenco desse nível.
Esses números mostram que não se trata apenas de azar. Há falhas estruturais claras, tanto na organização defensiva quanto na tomada de decisão nos momentos-chave das partidas.
Desgaste físico pesa, mas não explica tudo
Após a partida, Slot destacou o desgaste físico e o calendário apertado. De fato, o Liverpool vinha de um jogo intenso fora de casa pela Champions League, algo que pesa, especialmente em um elenco com profundidade limitada.
Durante o jogo, três dos quatro defensores titulares deixaram o campo, seja por lesão ou precaução física. Mesmo assim, o Liverpool terminou a partida com jogadores experientes em campo e opções no banco como Wataru Endo, Andy Robertson, Curtis Jones e Hugo Ekitike.
Ou seja, o cansaço ajuda a explicar, mas não justifica completamente a queda de rendimento. O problema parece ir além do físico e passa pela falta de identidade clara dentro de campo.
Um alerta sério na tabela
O cenário fica ainda mais preocupante quando se olha para a classificação. Caso o Arsenal vença o Manchester United, o Liverpool ficará mais próximo da zona de rebaixamento do que do topo da tabela. Para o atual campeão, isso é um retrato duro de uma defesa de título mal conduzida até aqui.
A realidade é que a briga pelo título já acabou faz tempo. O objetivo agora é minimizar danos e tentar garantir uma vaga na próxima edição da Champions League, seja via top quatro ou até top cinco, dependendo do desempenho inglês nas competições europeias.
Mesmo isso, porém, não será simples se o time continuar entregando pontos dessa forma.
Um gigante em reconstrução forçada
O elenco do Liverpool tem qualidade suficiente para voltar a competir em alto nível na próxima temporada. Mas, no momento, falta organização, confiança e, principalmente, identidade. O time não impõe mais seu ritmo, não assusta e não controla jogos como antes.
A longa sequência invicta serviu como uma cortina de fumaça. Agora, com resultados negativos se acumulando, os problemas ficaram impossíveis de ignorar. O Liverpool segue sendo um clube gigante, mas hoje joga como um time comum, vulnerável e longe de ser temido.
Se nada mudar rapidamente, a temporada que começou com ambição pode terminar apenas com a sensação de alívio por ter sido salva.