Basquete NBA

A longevidade de Stephen Curry e adaptação dos Warriors

Aos 37 anos, Stephen Curry deveria estar partindo rumo ao pôr do sol em sua turnê de despedida. Ele quase certamente ainda seria um Warrior, mas seus poderes mágicos estariam se esgotando à medida que ele graciosamente cedesse os holofotes para o núcleo jovem em ascensão. Afinal, armadores menores começam sua rápida decadência aos 30 e poucos anos, ou assim diz o ditado.

Junte os problemas no tornozelo no início da carreira e os quilômetros literalmente gastos em cada jogo devido à sua movimentação implacável sem a bola (3,8 quilômetros por jogo na temporada passada, com uma velocidade ofensiva média de 7,7Km/h), e você não seria exatamente ridicularizado por pensar que Curry não seria mais uma peça central do campeonato em sua 17ª temporada na NBA.

No entanto, aqui estamos, em 2025, e cada movimento que o Golden State Warriors fez nos últimos anos foi a serviço de Curry, que ainda é um dos poucos astros da NBA capazes de ser o melhor jogador de um time campeão.

É por isso que os Warriors trocaram Andrew Wiggins por Jimmy Butler. É por isso que assinaram uma extensão de quatro anos com Draymond Green. É por isso que garantiram um contrato de dois anos com Al Horford, de 39 anos. É por isso que jogaram duro com Kuminga que, em outros times, poderia estar ganhando significativamente mais dinheiro como um futuro pilar da franquia, acabando por fechar um contrato com opção de troca para 2026-27, após negociações difíceis.

“No fim das contas, o time ainda é de Stephen Curry. O que for preciso para ajudar o Steph a vencer, é o que faremos”, disse Jackson-Davis no Media Day na segunda-feira. “O técnico [Steve Kerr] sempre se preocupa em vencer. Ele sempre se preocupa em ajudar o Steph, porque sabemos que quando o Steph faz o que faz, a probabilidade de vencer é muito, muito alta.”, completou.

De fato, quando Curry “faz o que faz”, o Golden State é pura elite. Em 31 jogos após a troca de Butler na temporada passada, os Warriors marcaram 122 pontos a cada 100 posses de bola com Curry em quadra (o equivalente ao ataque número 1 da liga), em comparação com apenas 109 sem ele.

A movimentação, o QI e, claro, a capacidade de arremesso sobrenatural tornam todos os jogadores do time melhores, como tem sido o caso durante praticamente toda a carreira de Curry. Só este recorte já mostra o efeito do “veterano”.

Na temporada passada, ele teve uma média de pontos e converteu mais cestas de três pontos do que em sua primeira temporada como MVP, em 2014-15, aos 26 anos. Ele também se tornou o único armador com 36 anos ou mais na história da NBA a ter uma média de mais de 24 pontos por jogo, segundo o Stathead.

Stephen Curry tem caráter e compromisso com o time e os treinamentos

O lendário compromisso com o treinamento e a manutenção do corpo são, em grande parte, responsáveis ​​por sua longevidade produtiva. Assim como LeBron James, Curry encontra maneiras novas e inovadoras de estender sua carreira, deixando seus companheiros de equipe mais jovens impressionados e inspirados.

“Quando você vê um cara como o Steph treinando, acho que ele tem 37 anos, certo? E você o vê treinando mais do que caras de 20 anos, seu físico é incrível”, disse o ala brasileiro dos Warriors, Gui Santos, no Media Day. “Então você simplesmente diz: ‘É, eu tenho que treinar cada vez mais. Então, quando eu chegar nessa idade, serei bom como ele. Isso é impossível, mas damos o nosso melhor.”, concluiu.

Curry manter sua produção em um nível tão alto já é um milagre, mas é preciso muito mais para permanecer sendo o rosto da mesma franquia por 17 temporadas. Enquanto contemporâneos como James, Butler e Kevin Durant passaram por vários times, Curry superou tudo com o Golden State, passando pelos altos e baixos de quatro títulos e pelos baixos de ser o pior time da liga.

Caráter é um aspecto subestimado em relação a longevidade e, ao que tudo indica, o caráter de Curry é tão puro quanto seu arremesso. “Ele é um desses caras, o jeito como fala e como se comporta, você simplesmente o observa e olha para ele”, disse o armador do Warriors, Buddy Hield.

“Você tem que ser uma esponja, porque ele faz tudo corretamente. Ele é provavelmente um dos melhores caras com quem já convivi. Não estou falando de jogadores de basquete, na verdade. Só da vida em geral.”, completou.

Pergunte a praticamente qualquer companheiro de equipe e você ouvirá alguma repetição da mesma resposta. É por isso que jogadores como Butler, Horford e, antes deles, Durant, estão dispostos a virar suas vida, tanto no basquete quanto na vida pessoal, para jogar ao lado de 30 no Golden State. Os jogadores querem vencer por Curry, e ele quer vencer por eles. Isso é liderança.

É raro na NBA, nos esportes e no mundo polarizado em que vivemos ver alguém tão universalmente admirado. Aliás, Curry encontrou a palavra perfeita para isso durante o Media Day.

Stephen Curry falou sobre sua longevidade no Media Day dos Warriors
Stephen Curry falou sobre sua longevidade no Media Day dos Warriors (Imagem: Reprodução Media Day Golden State Warriors)


“Acho que tudo o que fazemos por aqui é único, com certeza. Então, isso meio que contribui para essa jornada”
, disse Curry. “Ter relevância realista para o campeonato por tanto tempo é único. Tentar manter isso por tanto tempo é único. … Eu estar na posição em que estou, no meu estágio da carreira, é único.”, seguiu. “Tipo, a questão toda é que… você tem que aceitar o lado bom e o caos também, porque é meio sem precedentes.”, finalizou o raciocínio.

Os Warriors tiveram um recorde de 23-8 após adquirir Butler na temporada passada, com a melhor classificação defensiva da liga durante esse período. Eles então surpreenderam o Houston Rockets na primeira rodada dos playoffs antes de perder para o Minnesota Timberwolves nas semifinais da conferência, com Curry jogando apenas 13 minutos em toda a série devido a uma distensão muscular sofrida no Jogo 1.

Como se precisássemos de um lembrete, isso apenas confirmou o que a diretoria dos Warriors e todos os que acompanham a NBA sabemos: este time só irá tão longe se Stephen Curry os levar, mesmo neste estágio avançado de sua carreira.

“Acho que ainda não superei essa decepção [dos playoffs], porque você sempre se pergunta: e se?”, disse Curry no Media Day. “… Como jogador, você sempre pensa nesse tipo de coisa. Isso te motiva a entender o que você pode fazer este ano para se colocar em uma posição melhor. Acho que ainda carrego isso, o que é, na minha opinião, saudável e uma coisa boa.”, seguiu.

“… Estou apenas me divertindo, mas também ansioso por hoje e por este novo ano, porque sei que não tenho muitos outros pela frente nesse sentido. Então, estou animado para dar tudo de mim no que está por vir este ano.”, encerrou o craque.

(Imagem de capa: Getty Images)