A derrota por 3 a 1 para o Corinthians na Arena do Grêmio teve cara de encerramento de ciclo, mesmo que a direção gremista siga publicamente sustentando o trabalho de Luís Castro. O problema é que, ao chegar à pausa para a Copa do Mundo, o treinador português não apresenta argumentos sólidos para justificar essa permanência. E talvez o mais preocupante seja justamente isso: o Grêmio não parece um time que está perto de encontrar um caminho.
Quando Luís Castro foi contratado, a ideia era clara. O Grêmio buscava um técnico capaz de modernizar processos, valorizar jovens jogadores, implementar um modelo de jogo mais associativo e construir algo sustentável a médio prazo. Era um discurso compreensível para um clube que vivia entre reconstruções e tentativas frustradas de encontrar estabilidade após os anos de Renato Portaluppi. O problema é que estamos praticamente na metade da temporada e ainda é difícil responder qual é exatamente a identidade desse time.
Derrota para o Corinthians expõe a fragilidade do time de Luís Castro

Contra o Corinthians, isso ficou evidente mais uma vez. O Grêmio abriu o placar cedo com Gabriel Mec, uma das grandes promessas da base, mas rapidamente perdeu o controle emocional e tático da partida. O Corinthians passou a dominar território com circulação de bola e intensidade. O empate ainda no fim do primeiro tempo parecia inevitável diante da forma como o jogo se desenhava. Na segunda etapa, o time paulista transformou a superioridade em gols e praticamente atropelou um Grêmio que parecia sem respostas.
O mais preocupante não foi sequer o placar. Foi a sensação de impotência. Em vários momentos da partida, a equipe demonstrava desorganização defensiva, dificuldades para pressionar sem abrir espaços e uma enorme distância entre os setores. A expulsão do goleiro Thiago Beltrame agravou a situação, mas o cenário já era ruim antes disso. As vaias da Arena, os gritos de “olé” da própria torcida contra o time e os pedidos pela saída do treinador mostraram um ambiente que parece cada vez mais desgastado.
E talvez seja justamente aí que surge a principal discussão. Porque trabalhos em reconstrução exigem paciência. Nem todo projeto pode ser avaliado apenas pelos resultados imediatos. O problema é que a evolução precisa ser perceptível. O torcedor aceita sofrer quando consegue enxergar para onde o time está caminhando. No caso do Grêmio, essa percepção não existe.
Luís Castro chega ao final de maio sem encontrar um time e uma forma de jogar definidos. O meio-campo continua sendo uma incógnita, as escalações mudam constantemente e a equipe parece alternar sistemas sem conseguir dominar nenhum deles.
Isso ajuda a explicar por que muitos já classificam o trabalho como o pior da Série A neste momento. Não necessariamente porque o Grêmio tenha a pior campanha. Existem equipes em situações mais complicadas. A diferença é que vários desses clubes possuem limitações claras de elenco. O Grêmio não.
O elenco gremista tem problemas, é verdade. Há carências defensivas evidentes, um setor ofensivo inconsistente e um excesso de jogadores veteranos em determinadas posições. Mas também existe talento. Gabriel Mec desponta como uma das maiores joias do futebol brasileiro. Braithwaite continua sendo um atacante útil. Arthur Melo retornou para agregar qualidade técnica. Há jovens interessantes surgindo da base. Ainda assim, o desempenho coletivo permanece pobre.
Trabalho de Luís Castro pode se apoiar no argumento de tempo

Por outro lado, também existem argumentos para a manutenção do treinador.
O principal deles é que a direção comprou uma ideia de projeto. Luís Castro foi contratado justamente para romper ciclos anteriores e apostar em algo mais estrutural. Demiti-lo agora significaria admitir um erro de planejamento poucos meses depois de iniciar o processo. Além disso, a pausa para a Copa oferece algo raro no calendário brasileiro: tempo.
Talvez seja exatamente esse o argumento utilizado internamente para manter o treinador. Afinal, trocar de comando agora significaria reiniciar processos justamente quando finalmente haverá semanas livres para treinamento.
Quando o Botafogo apostou na continuidade de Luís Castro, ele construiu um tom interessante que estava na liderança do Brasileirão antes de sua saída repentina. Mas a pergunta continua válida: quantos sinais de evolução realmente existem?
O Corinthians de Fernando Diniz oferece um contraste interessante. O trabalho também passou por turbulências, críticas e oscilações. A diferença é que, mesmo nos momentos ruins, é possível enxergar algumas ideias sendo construídas. Contra o Grêmio, o Corinthians teve controle territorial, dominou a posse de bola e produziu uma de suas melhores atuações fora de casa no campeonato.

Já o Grêmio parece terminar o semestre exatamente da mesma forma que começou: cercado de dúvidas.
Talvez a pausa salve Luís Castro. Talvez as semanas sem jogos permitam que o treinador finalmente transforme conceitos em desempenho. Talvez o retorno de alguns jogadores e a abertura da janela de transferências ajudem a corrigir problemas estruturais do elenco.
Mas existe uma diferença entre manter um treinador por convicção e mantê-lo por falta de alternativas. Hoje, olhando para o futebol apresentado, para a posição na tabela, para o ambiente criado na Arena e para a ausência de evolução coletiva, é difícil defender que o trabalho de Luís Castro mereça tranquilidade. A permanência pode fazer sentido como aposta institucional. Como avaliação esportiva do que foi produzido até agora, porém, ela parece cada vez mais difícil de justificar.
O Grêmio entra na pausa fora da zona de rebaixamento, mas sem qualquer sensação de segurança. E talvez essa seja a pior notícia possível para um clube que iniciou o ano falando em reconstrução: após meses de trabalho, ainda não existe clareza sobre o que exatamente está sendo construído.
Créditos da foto de capa: Lucas Uebel/Grêmio FBPA



