Mancini virou o jogo justamente quando a Itália precisava reagir
Poucas coisas mudam tão rapidamente no futebol quanto a percepção sobre um treinador. Roberto Mancini sabe disso melhor do que ninguém.
Em pouco tempo, o técnico passou de nome questionado a uma das principais figuras da recuperação da Itália. A seleção que carregava dúvidas sobre seu futuro agora começa a apresentar respostas, e a vitória por 3 a 1 sobre a Turquia, pela Nations League, reforçou justamente essa sensação.
O resultado não resolve todos os problemas dos Azzurri, mas mostra que existe um caminho.
A equipe voltou a competir com organização, abriu espaço para jogadores mais jovens e recuperou atletas que haviam perdido protagonismo. Mais do que isso, conseguiu transformar uma sequência positiva em algo que uma seleção em reconstrução precisa ter: confiança.
Mancini ainda não devolveu à Itália o status de grande candidata a tudo. O que fez foi talvez mais importante neste momento: criou condições para que ela volte a acreditar que pode chegar lá.
A vitória contra a Turquia mostrou uma Itália com mais alternativas
O placar de 3 a 1 ajuda a dimensionar a atuação, mas a principal evolução apareceu na maneira como a Itália encontrou seus gols e administrou os diferentes momentos da partida.
Di Lorenzo participou diretamente do primeiro, com assistência para Scamacca, que mostrou qualidade para finalizar e colocar os Azzurri em vantagem. A Turquia reagiu e encontrou o empate depois de uma desatenção defensiva, mas a Itália não perdeu completamente o controle.
Na segunda etapa, Calafiori apareceu para recolocar a equipe na frente. Depois, Pio Esposito fechou o placar ao completar uma combinação entre Doumbia e Romano.
O detalhe mais interessante está justamente na variedade dessas respostas.
A Itália não precisou depender de uma única estrela para construir a vitória. Jogadores experientes participaram, mas nomes que representam a renovação também tiveram influência direta no resultado.
É um sinal importante para Mancini, porque uma seleção competitiva precisa aumentar o número de jogadores capazes de assumir responsabilidade.
Os jovens começaram a deixar de ser apenas promessa
Uma reconstrução de verdade não acontece quando um treinador simplesmente convoca jogadores jovens. Ela começa quando esses atletas recebem responsabilidade e passam a fazer parte das soluções.
É isso que começa a acontecer na Itália.
Kayode ganhou espaço, os irmãos Esposito aparecem cada vez mais no radar, Doumbia participa do meio-campo e Vergara foi novamente utilizado em uma posição ofensiva na qual Mancini enxerga potencial para o futuro.
Nem todos estão prontos, e a própria partida contra a Turquia mostrou isso. Kayode participou do segundo tempo e acabou envolvido na jogada do empate turco, enquanto Vergara precisou deixar o campo por causa de um problema muscular.
Essas oscilações fazem parte do processo.
A diferença é que Mancini parece disposto a aceitar os riscos naturais de uma renovação. Em vez de esperar que os jovens estejam completamente prontos para então dar-lhes espaço, o treinador utiliza essas partidas para acelerar a adaptação ao nível internacional.
É assim que uma nova geração começa a deixar de ser promessa e passa a construir uma história própria.
A recuperação também passa por quem já estava no elenco
A renovação italiana não depende apenas de descobrir novos talentos.
Mancini e Bastoni voltaram a apresentar segurança, Barella recuperou importância e outros jogadores que atravessavam períodos de questionamento começam a encontrar novamente um lugar dentro da seleção.
Esse equilíbrio entre renovação e recuperação é um dos pontos mais interessantes do trabalho de Mancini.
Uma seleção nacional não possui o mesmo tempo de treinamento de um clube. Não é possível construir tudo do zero em poucas semanas. Por isso, recuperar jogadores que já conhecem o alto nível pode ser tão importante quanto abrir espaço para os mais jovens.
Contra a Turquia, a Itália conseguiu combinar experiência e juventude sem deixar que uma coisa anulasse a outra. Romano respondeu bem à oportunidade como titular, Doumbia ganhou espaço para mostrar sua intensidade e Tonali entrou para ajudar a dar mais controle à equipe na reta final.
A Itália começa, portanto, a encontrar uma combinação que parecia difícil há pouco tempo: experiência suficiente para sustentar o time e juventude suficiente para projetar o futuro.
Mancini deixou de ser parte do problema para voltar a ser parte da solução
Talvez essa seja a transformação mais significativa desse momento.
O treinador que em determinado período carregava parte da responsabilidade pela crise italiana agora aparece associado à reconstrução da equipe.
Isso não significa que os problemas anteriores tenham desaparecido, nem que quatro partidas sejam suficientes para confirmar uma nova era. A Itália ainda precisará mostrar a mesma competitividade contra adversários mais fortes e transformar boas atuações em regularidade.
Mas o trabalho atual merece ser reconhecido. Mancini conseguiu recuperar jogadores, dar espaço a jovens e manter referências importantes dentro da equipe. Com isso, criou uma seleção menos dependente de nomes específicos e com mais possibilidades para construir diferentes partidas.
A vitória sobre a Turquia é consequência desse processo, não a prova definitiva de que ele está concluído.
E essa diferença é importante.
Donnarumma continua sendo uma das bases da seleção
Em qualquer processo de reconstrução, algumas referências precisam permanecer. Donnarumma é uma delas.
O goleiro teve outra atuação segura contra a Turquia e, mesmo sem terminar a partida com o famoso clean sheet, voltou a transmitir a confiança necessária para uma equipe que ainda está encontrando seus novos protagonistas.
A presença de jogadores como Donnarumma, Bastoni, Barella e Tonali ajuda justamente a reduzir o peso sobre os mais jovens.
Kayode pode errar sem que todo o projeto seja colocado em dúvida. Romano pode assumir uma segunda oportunidade como titular sem precisar resolver a partida sozinho. Esposito pode entrar e ganhar confiança depois de marcar.
Essa mistura é fundamental para uma seleção que pretende fazer a transição sem transformar cada erro em uma crise.
A nova Itália ainda precisa provar que essa evolução é sustentável
O momento é positivo, mas seria precipitado tratar a vitória sobre a Turquia como a confirmação definitiva de que a Itália voltou ao lugar que deseja ocupar.
A reconstrução ainda está em andamento.
Vergara precisa transformar potencial em regularidade. Kayode terá de aproveitar novas oportunidades. Os irmãos Esposito ainda precisam consolidar seu espaço. Jogadores como Romano e Doumbia também terão de provar que conseguem sustentar o nível diante de adversários mais fortes.
Enquanto isso, os líderes da equipe precisarão continuar oferecendo estabilidade.
Esse é o desafio de Mancini: fazer com que a renovação não produza apenas entusiasmo, mas uma seleção capaz de competir consistentemente.
Por enquanto, os sinais são positivos.
A maior vitória de Mancini foi devolver confiança à Itália
O mais importante nessa recuperação talvez não esteja em uma formação específica ou em um jogador que tenha assumido o protagonismo.
Está na sensação de que a Itália voltou a ter futuro.
Os jovens começaram a receber espaço, jogadores experientes recuperaram importância e os resultados deram ao trabalho de Mancini o ambiente necessário para continuar avançando.
É curioso pensar que o treinador também tenha passado por sua própria transformação nesse processo. A mesma seleção que em algum momento parecia cobrar respostas dele agora começa a enxergá-lo como uma das figuras capazes de conduzir essa nova fase.
A vitória por 3 a 1 sobre a Turquia não coloca a Itália automaticamente entre as melhores seleções do mundo.
Mas mostra que os Azzurri voltaram a caminhar nessa direção.
E, depois de um período em que era difícil enxergar de onde surgiria a próxima grande seleção italiana, recuperar essa esperança talvez seja o primeiro passo para construir algo realmente importante.
Foto: ANSA/EPA



