Após uma longa discussão sobre os motivos da audiência da NBA estar em declínio nas últimas temporadas, muito se foi questionado sobre o estilo de jogo predominante entre as equipes da maior liga de basquete do planeta. Enquanto muitos culpam a “era dos três pontos” como um motivo para a estagnação do interesse pelo esporte, há também quem aponte a falta de eficácia e importância da defesa em um contexto geral do jogo.
No entanto, afastando-se de toda a falácia que envolve o tema em questão, é essencial destacar: a defesa não apenas alcançou um nível de relevância sem precedentes na história do basquete, como também tem evoluído de forma notável nos últimos anos. E um conceito que está sendo debatido há mais de um ano pelo jornalista Joe Wolfond, do site The Score, é o cross-matching, ou, marcação cruzada.
O que é o cross-matching?
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O cross-matching consiste no ato de um atleta assumir a marcação de um outro atleta adversário com uma diferença considerável de estatura. Você já deve conhecer isso como “mismatch”, algo bastante comum na NBA, mas o conceito em questão envolve uma estrutura mais complexa e que depende também da ação de outro marcador. A principal ideia do cross-matching é otimizar a proteção do aro e minimizar a exposição em situações de risco, envolvendo na maioria das vezes a figura do pivô no setor defensivo.
De maneira resumida, a defesa de uma equipe procura um jogador que não seja uma grande ameaça ofensiva, como um arremessador inconsistente ou alguém que participa pouco das jogadas. Esse jogador pode ser um ala ou até um armador, independente do tamanho. Em vez de marcar o pivô adversário, o pivô da defesa foca nesse jogador fraco, mesmo que ele seja menor e jogue no perímetro.
O pivô, na prática, não vai perseguir o jogador por toda a quadra. Ele vai ficar perto da área do garrafão, ajudando na defesa e protegendo o aro. Desta forma, um ala ou jogador mais leve da defesa assume a marcação do pivô adversário, mesmo sendo menor e menos forte. Esse jogador tem mais agilidade para lidar com situações como pick-and-roll e pode usar sua velocidade para pressionar o pivô.
Como resultado, pivô do time que defende fica perto do garrafão, onde ele pode bloquear arremessos e contestar jogadas no aro, que é onde ele é mais útil. E o ala (ou jogador menor) que está no pivô adversário consegue trocar de marcação em jogadas de pick-and-roll. Mesmo se ele errar, o pivô da defesa ainda está no garrafão para ajudar.
O legado de Ime Udoka

Esta, por exemplo, é uma maneira bastante eficaz de defender uma equipe como o Cleveland Cavaliers, que é lider em pontos marcados através de jogadas de pick-n-roll por partida na atual temporada da NBA (24.1 pontos por jogo). E esta tática é usada por equipes como Boston Celtics, Charlotte Hornets e Houston Rockets como parte base de sua defesa, e traz também uma curiosidade bastante interessante.
O “pioneiro” do cross-matching em larga escala na NBA foi Ime Udoka, técnico do Rockets, quanto ainda estava no Boston Celtics. Mazzulla, que era assistente de Udoka no time celta e virou seu sucessor, continuou com a abordagem na equipe. E Charles Lee, treinador estreante no Hornets e ex-assistente de Mazzulla, usa a mesma estratégia.
O cross-matching na prática
Em análise feita pelo jornalista Joe Wolflond, na atual temporada, Udoka fez com que o pivô dos Rockets, Alpere Sengun, passasse jogos inteiros como o principal defensor de armadores que jogam sem a bola e são pouco produtivos em arremessos de três pontos, como Kris Dunn, do LA Clippers, e Josh Hart, do New York Knicks.

Inicialmente, isso pode representar uma dificuldade para Sengun quando esses jogadores mais ágeis têm a posse da bola e tentam atacá-lo em situações de espaço aberto, mas no conceito de cross-matching, o resultado é diferente, já que, caso um atleta como Kris Dunn receba a bola, ele não terá espaço para encontrar passes para o perímetro, arremessar de três ou forçar uma jogada para o garrafão.
Desta forma, Dunn terá que confiar em seu drible para tentar vencer a marcação de Sengun e conseguir uma infiltração. Claro, se trocarmos o nome de Dunn por James Harden, esta não parece uma tática tão interessante. Mas é justamente a busca pelo elo mais fraco que o cross-matching se baseia. E caso Dunn procure um passe para o pivô em um mismatch com um guard adversário, Sengun terá tempo de sobra para se reposicionar e conseguir contestar o garrafão.
O outro lado do cross-matching
Embora pivôs habilidosos sejam o principal motivo para o uso do cross-matching, essa estratégia coloca pequenos jogadores com baixo aproveitamento de arremessos de longa distância, como o próprio Kris Dunn, sob enorme pressão. Jogadores que não conseguem punir a defesa correm o risco de serem marginalizados, especialmente nos playoffs. E Alex Caruso, ex-Bulls e atual Thunder, é um dos principais exemplos disso.
O ala enfrenta sua pior temporada em aproveitamento de três pontos (30,1%). O mesmo se aplica para Monte Morris, do Phoenix Suns (30.3%), Cole Anthony, do Orlando Magic (30.3%), e de forma mais impactante, Terry Rozier, do Miami Heat (28.9%), todos se encaixando no perfil de “elo fraco” que o cross-matching busca.