frança x marrocos
Copa do Mundo

Marrocos reencontra a França para provar que a campanha histórica de 2022 foi apenas o começo

França e Marrocos voltam a se encontrar em uma Copa do Mundo quatro anos depois de protagonizarem um dos confrontos mais simbólicos da edição disputada no Catar.

Desta vez, o duelo acontece nas quartas de final e carrega um significado diferente para os marroquinos. Se em 2022 a seleção africana entrou em campo vivendo um sonho que parecia improvável, agora chega acreditando que pertence definitivamente à elite do futebol mundial.

Naquela ocasião, a França venceu por 2 a 0 e encerrou a campanha da primeira seleção africana da história a alcançar uma semifinal de Copa do Mundo. A derrota não apagou o feito, mas deixou uma sensação de trabalho inacabado entre jogadores e torcedores. Parte importante daquele grupo continua defendendo o país e terá uma nova oportunidade diante do mesmo adversário.

Por isso, o reencontro é tratado no Marrocos como uma espécie de revanche esportiva.

Não apenas pela eliminação de quatro anos atrás, mas pela possibilidade de confirmar uma transformação que começou muito antes da campanha no Catar. O país não quer mais ser visto como uma surpresa. Quer provar que se tornou uma potência capaz de competir regularmente contra as maiores seleções do planeta.

A trajetória nesta Copa reforça essa ambição. O Marrocos conseguiu segurar o Brasil e depois superou Escócia, Holanda e Canadá até garantir uma vaga entre os oito melhores. Agora, a França surge novamente no caminho.

De grande surpresa a candidato que convive com altas expectativas

Marrocos
Foto: Getty Images

A principal mudança entre o Marrocos de 2022 e o atual está na maneira como a própria seleção é enxergada.

Há quatro anos, chegar à semifinal parecia um milagre. O país nunca havia avançado tanto e nenhuma seleção africana tinha alcançado aquela fase. Cada vitória aumentava a dimensão de uma campanha que parecia superar todos os limites históricos.

Agora, o cenário mudou completamente.

Segundo o jornalista marroquino Hamza Shteiwy, qualquer resultado abaixo de uma nova presença nas semifinais dificilmente seria considerado uma grande conquista. A frase mostra o tamanho da transformação. O que antes parecia impossível passou a ser uma expectativa.

Essa confiança não é baseada apenas na memória da Copa de 2022. Desde o torneio no Catar, o futebol marroquino continuou acumulando resultados importantes. A seleção principal chegou à sexta posição do ranking da Fifa, enquanto a equipe sub 20 conquistou a Copa do Mundo da categoria.

Os resultados ajudam a sustentar a ideia de que o crescimento não aconteceu por acaso.

Durante anos, a Federação Real Marroquina de Futebol investiu em infraestrutura, formação de jogadores e desenvolvimento das categorias de base. O objetivo era criar um projeto nacional capaz de produzir resultados de forma contínua, em vez de depender de uma única geração.

A campanha atual fortalece essa percepção. O Marrocos enfrentou adversários de diferentes características e continuou competitivo. Conseguiu resistir ao Brasil, eliminou a Holanda e não permitiu que o sucesso de 2022 fosse tratado como um acontecimento isolado.

É por isso que o duelo contra a França representa muito mais do que a busca por uma vaga na semifinal. O Marrocos quer provar que o Catar não foi o ponto máximo de sua história, mas o início de uma nova realidade.

França tem mais talento individual, mas Marrocos aposta na força coletiva

hakimi
Foto: Fadel Senna/AFP

O desafio, porém, é enorme.

A França chega às quartas de final como uma das seleções mais completas da competição. Liderada por Kylian Mbappé e formada por um elenco repleto de jogadores que atuam no mais alto nível do futebol europeu, a equipe apresentou um dos estilos de jogo mais envolventes do torneio.

Individualmente, os franceses são considerados superiores. O próprio Shteiwy reconhece essa diferença.

O Marrocos, no entanto, acredita que pode equilibrar o confronto em setores importantes. O meio de campo é apontado como uma região na qual os africanos conseguem competir em condições semelhantes. A estratégia passa por pressionar a França desde os primeiros minutos, repetindo o comportamento apresentado contra o Brasil.

A principal força marroquina está na capacidade de fazer os 11 jogadores atuarem como uma única unidade.

Esse aspecto já era evidente em 2022. Naquela Copa, o Marrocos eliminou Espanha e Portugal antes de enfrentar a França. A organização defensiva, a intensidade e o comprometimento coletivo permitiram que a equipe competisse contra adversários tecnicamente superiores.

Quatro anos depois, existe uma diferença importante. O Marrocos já sabe que consegue vencer grandes seleções.

A confiança também vem das arquibancadas. Voos lotados estão levando torcedores do Marrocos aos Estados Unidos, enquanto membros da enorme comunidade marroquina espalhada pelo mundo também viajaram para acompanhar a seleção. Existe a expectativa de que os Leões do Atlas tenham uma presença muito forte nas arquibancadas em Boston.

Essa ligação entre seleção e torcida se tornou uma das características mais marcantes do projeto marroquino.

A presença das mães e a força emocional de uma seleção

Um dos elementos mais particulares da ascensão do Marrocos é o papel das famílias dos jogadores, especialmente das mães.

Na Copa de 2022, algumas das imagens mais marcantes da campanha aconteceram depois das partidas. Achraf Hakimi foi fotografado abraçando sua mãe, enquanto Sofiane Boufal dançou com a dele no gramado. As cenas se tornaram símbolos da ligação entre os jogadores, suas famílias e o país.

A atual Copa voltou a produzir momentos semelhantes. Depois de marcar o pênalti decisivo contra a Holanda, Ismael Saibari correu diretamente para as arquibancadas para abraçar a mãe emocionada.

A presença das mães não é tratada pela federação como um simples detalhe.

O presidente da Federação Real Marroquina de Futebol, Fouzi Lekjaa, já definiu a iniciativa como uma das estratégias de apoio psicológico mais eficazes adotadas pela entidade. A ideia é que a proximidade familiar ajude os atletas a suportar a pressão dos grandes torneios e fortaleça o sentimento de pertencimento.

Quando a seleção retornou ao país após a Copa de 2022, jogadores e mães foram recebidos juntos pelo rei Mohammed VI. O momento mostrou como a família passou a fazer parte da própria imagem pública da seleção.

Essa filosofia ajuda a explicar uma equipe que construiu sua identidade não apenas com tática e talento. O projeto combina investimento nas categorias de base, melhoria de infraestrutura, planejamento esportivo e uma preocupação com o lado emocional dos jogadores.

A frase do jornalista Hameed Bel Hassan resume essa visão: “A oração de uma mãe, realmente não existe nada que se compare”.

Um confronto que envolve história, identidade e uma conta em aberto

(Photo by Patrick Smith – FIFA/FIFA via Getty Images)

França x Marrocos também carrega significados que ultrapassam as quatro linhas.

Os dois países compartilham uma relação histórica longa e complexa, marcada pelo colonialismo e por décadas de migração. A França abriga uma das maiores comunidades marroquinas da Europa, e muitas das famílias que estarão em Boston viajarão justamente do território francês.

Essa ligação aparece também dentro do elenco.

Vários jogadores marroquinos poderiam ter defendido a França, mas escolheram representar o país de seus pais ou avós. Alguns chegaram a atuar pelas seleções francesas de base antes de optar pelo Marrocos.

Para esses atletas, a partida envolve uma questão de identidade. Eles enfrentarão uma seleção que poderiam ter representado, mas escolheram defender o país de suas origens familiares.

Nenhum duelo individual representa melhor essa história do que Achraf Hakimi contra Kylian Mbappé. Amigos próximos e antigos companheiros de clube, os dois estarão novamente em lados opostos em uma das partidas mais importantes da Copa.

Mas a grande questão não está apenas nesse confronto.

O Marrocos quer descobrir até onde pode chegar o projeto que mudou sua posição no futebol mundial. Em 2022, a seleção surpreendeu o planeta ao alcançar uma semifinal. Quatro anos depois, voltou às fases decisivas depois de enfrentar Brasil e superar Escócia, Holanda e Canadá.

A França foi o país que encerrou o sonho marroquino no Catar. Agora, aparece novamente no caminho.

Só que o Marrocos que chega a Boston é diferente daquele que entrou em campo há quatro anos. Naquela época, a equipe tentava fazer história. Desta vez, tenta confirmar que a história já mudou.

No Catar, o Marrocos mostrou ao mundo que era capaz de chegar longe. Em Boston, terá a oportunidade de provar que aquilo não foi o fim de uma campanha extraordinária, mas o começo de uma nova era.

(Foto de capa: FIFA via Getty Images)

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Kaique