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Por que o mercado de janeiro raramente entrega o que promete?

Pode parecer que o mercado de inverno anda cada vez mais sem graça, mas a verdade é que ele nunca foi exatamente um grande espetáculo constante. Ao longo dos anos, a janela de janeiro produziu alguns momentos icônicos, mas quase sempre mais por exceção do que por regra.

É impossível não lembrar de Andrey Arshavin desembarcando em uma Londres coberta de neve em 2008 para assinar com o Arsenal, num dia tão caótico que o prazo precisou ser estendido por 24 horas. Ou do episódio quase surreal de Peter Odemwingie, em 2013, dirigindo mais de 100 quilômetros na esperança de fechar com o QPR — algo que nunca aconteceu. Em 2011, sim, o mercado viveu seu auge: Liverpool fechou Andy Carroll e Luis Suárez no mesmo dia, um deadline day que virou referência.

Desde então, porém, os capítulos memoráveis foram ficando mais raros. O dia final da janela passou a ter mais expectativa do que ação. Em 2026, por exemplo, a Premier League registrou o deadline day mais quieto da história, com apenas sete negociações concluídas. Nos anos anteriores, os números também não empolgam: 13 acordos em 2024, 16 em 2023 e 14 em 2022.

Essa percepção de “mercado vazio” não acontece só na Inglaterra. Nas outras grandes ligas, o último dia de janeiro sempre foi tratado mais como ajuste fino do que como palco de grandes movimentos. Talvez o futebol inglês tenha apenas se acostumado mal com alguns picos fora da curva.

Gastos existem, mas não no último dia de mercado

Quando se olha para os números totais, a história muda um pouco. A janela de janeiro de 2026 teve £390 milhões gastos, um valor bem superior ao de 2024 (£95m) e apenas ligeiramente abaixo de 2025 (£421m). Ou seja, dinheiro não deixou de circular — ele só deixou de se concentrar no deadline day.

Em termos históricos, apenas três janelas de inverno nos últimos dez anos tiveram gastos maiores: 2018, 2023 e 2025. O problema é que boa parte desse investimento acontece ao longo do mês, diluindo o impacto emocional do último dia.

O deadline day, aliás, quase nunca foi um grande motor financeiro. Apenas nessas três temporadas citadas o gasto final superou a marca de £100 milhões. Na maioria dos anos, ele é apenas o fechamento de um processo que já vinha se desenhando semanas antes.

O comportamento dos grandes explica o cenário

Outro fator-chave é o perfil dos clubes do chamado big six. Arsenal e Liverpool, por exemplo, não contratam em janeiro desde 2023. Chelsea e Manchester United tiveram gastos discretos em 2025, bem longe dos excessos recentes. Em geral, os grandes só entram forte no mercado de inverno quando existe uma urgência clara.

O grande ponto fora da curva foi o Chelsea em 2023. O clube gastou £284,1 milhões, mais de um terço de todo o investimento da Premier League naquele janeiro. A contratação de Enzo Fernández, por £106,8 milhões, foi o símbolo de um mercado inflado por circunstâncias específicas: nova gestão, atraso no planejamento e um cenário pós-Copa do Mundo totalmente atípico.

Nos últimos dois anos, quem fugiu do padrão foi o Manchester City. Guardiola usou janeiro para remodelar o elenco, gastando pesado em 2025 e novamente em 2026, desta vez apostando em jogadores já testados na Premier League, como Antoine Semenyo e Marc Guéhi. Ainda assim, são movimentos pensados mais como correção estrutural do que como resposta ao calor do deadline day.

Uma correção natural após excessos

Depois de 2023, a queda brusca em 2024 parecia inevitável. Foram apenas £95 milhões gastos, o menor valor da última década, até abaixo do período afetado pela pandemia. O número de transferências também se estabilizou, ficando na faixa entre 75 e 80 acordos por janela.

Em 2026, o mercado voltou a crescer, mas sem o barulho de outras épocas. Isso levanta uma questão importante: será que o deadline day não criou uma expectativa artificial ao longo dos anos?

Se analisado friamente, janeiro nunca foi um mês de revoluções. Ele serve mais para ajustes pontuais, correção de erros do planejamento de verão e oportunidades específicas de mercado. Os grandes momentos ficaram na memória justamente porque foram raros.

Talvez nunca tenha sido tão especial assim

Então, o mercado de janeiro está ficando chato? Talvez a resposta mais honesta seja outra: ele sempre foi assim. Com algumas histórias icônicas, muito cálculo financeiro e pouca emoção concentrada em um único dia.

O que mudou foi a forma como os clubes planejam, gastam e comunicam. O futebol ficou mais racional, e o deadline day perdeu espaço como espetáculo. No fim das contas, o mercado de inverno segue cumprindo sua função — só não aquela que a nostalgia insiste em cobrar.