Lionel Messi está novamente na semifinal da Copa do Mundo, mas o confronto contra a Inglaterra representa muito mais do que apenas mais uma partida importante na busca pelo título. Aos 39 anos, o argentino terá a oportunidade de enfrentar pela primeira vez uma das seleções mais tradicionais do futebol, justamente em um duelo carregado de história para o seu país.
Em sua sexta Copa do Mundo, Messi já conseguiu ampliar um legado que parecia completo após o título conquistado no Catar. Com oito gols e duas assistências em seis partidas na atual edição, o camisa 10 se tornou o maior artilheiro e também o maior assistente da história do torneio. Agora, diante dos ingleses, pode acrescentar um capítulo diferente à sua trajetória, aproximando novamente sua imagem da figura mais simbólica do futebol argentino.
Embora a semifinal valha uma vaga na decisão, a importância da partida também passa por tudo o que envolve Argentina e Inglaterra. Messi nunca havia enfrentado o adversário em suas 205 aparições pela seleção. Desta vez, além de tentar levar seu país à segunda final consecutiva, o jogador entrará em campo em um confronto inevitavelmente ligado a Diego Maradona.
Messi tem a chance de viver um momento que ainda faltava
Antes do início da Copa do Mundo, existia uma dúvida sobre o que Messi ainda poderia acrescentar à carreira. Após levantar o título mundial em 2022, conquistar a Copa América no Maracanã e acumular recordes individuais, parecia difícil imaginar um novo feito capaz de mudar a forma como sua trajetória seria lembrada. No entanto, o argentino encontrou uma maneira de transformar novamente a competição em um palco para ampliar sua história.
Mesmo sem a mesma força física de outros momentos da carreira, Messi segue sendo a principal referência ofensiva da Argentina. Seus números no torneio ajudam a explicar isso, principalmente por terem sido alcançados por um jogador de 39 anos.
A semifinal contra a Inglaterra surge justamente neste cenário. O duelo representa uma oportunidade rara, já que Messi jamais enfrentou os ingleses pela seleção argentina. Após a vitória sobre a Suíça nas quartas de final, o camisa 10 reconheceu que a partida terá um peso especial, destacando a força do adversário e o fato de se tratar de um encontro inédito em sua carreira.
Para a Argentina, porém, o jogo ganha uma importância que vai além da estreia de Messi contra os ingleses. Lionel Scaloni tentou reduzir o peso histórico do confronto ao afirmar que se trata apenas de uma partida de futebol contra um adversário muito forte e comandado por um grande treinador. Porém, mesmo dentro do elenco argentino, existe o reconhecimento de que o duelo carrega lembranças dolorosas e uma rivalidade construída ao longo das décadas.
Argentina e Inglaterra começaram a desenvolver uma relação mais tensa em Copas do Mundo ainda nos anos 1960. Em 1966, após uma partida marcada por confusão e muita disputa, Alf Ramsey, então técnico inglês, chamou os jogadores argentinos de “animais”. Anos depois, novos episódios aumentaram ainda mais a rivalidade, incluindo a expulsão de David Beckham na Copa de 1998.
Apesar disso, nenhum encontro entre os países teve o mesmo impacto do jogo disputado em 1986. Naquele momento, Maradona transformou as quartas de final em uma das partidas mais lembradas da história da Copa do Mundo. O camisa 10 marcou dois gols completamente diferentes, mas igualmente importantes para construir a imagem que o acompanha até os dias atuais.
No primeiro, o argentino usou a mão para superar o goleiro Peter Shilton, em um lance que passou despercebido pela arbitragem. No segundo, atravessou a defesa inglesa com uma jogada individual histórica, deixando cinco adversários para trás antes de balançar a rede.
Os dois gols ajudaram a formar o personagem que Maradona se tornou para o futebol argentino. Em poucos minutos, o jogador reuniu talento, esperteza, provocação e genialidade. Enquanto os ingleses deixaram o confronto indignados com o erro de arbitragem, a Argentina encontrou naquela vitória um dos momentos mais marcantes de sua história esportiva.
Inglaterra pode aumentar ainda mais o legado de Messi
Messi já foi comparado com Maradona durante praticamente toda a carreira. Os dois carregaram o peso de serem os maiores jogadores argentinos de suas gerações, vestiram a camisa 10 e conduziram o país ao título da Copa do Mundo. Ainda assim, a relação de Maradona com a Inglaterra sempre representou uma diferença importante entre os dois.
O confronto de 1986 aconteceu apenas quatro anos depois da Guerra das Malvinas, disputada entre Argentina e Reino Unido. Embora Maradona tenha afirmado antes da partida que o duelo tratava apenas de futebol, posteriormente o jogador admitiu que a vitória representou uma espécie de vingança simbólica para os argentinos.
Este contexto fez com que o desempenho de Maradona ganhasse um peso ainda maior. Para boa parte da torcida argentina, o camisa 10 não venceu apenas uma seleção rival, mas também representou um sentimento nacional em um momento de dor recente. É justamente esse tipo de ligação que ajudou a transformar o jogador em uma figura quase impossível de ser separada da história do país.
A semifinal desta Copa do Mundo não terá a mesma carga política. Ainda assim, a lembrança das Malvinas e de Maradona continua presente no ambiente argentino. Após a classificação diante da Suíça, jogadores celebraram no vestiário prometendo vencer pelos territórios, por Diego e pela última Copa de Messi.
Desta forma, o camisa 10 terá a oportunidade de construir sua própria lembrança diante da Inglaterra. É verdade que uma vitória não repetiria tudo o que o jogo de 1986 representou, até porque as circunstâncias são diferentes. Porém, seria mais um momento simbólico em uma carreira que já conta com praticamente todas as conquistas possíveis.
O desafio, no entanto, será enorme. A Argentina chega à semifinal após apresentar atuações abaixo do esperado em diferentes momentos do torneio. No mata-mata da Copa, a equipe ainda não conseguiu convencer completamente, enquanto alguns jogadores importantes não tiveram o rendimento desejado. Neste cenário, Messi aparece novamente como o principal nome capaz de decidir. O argentino já marcou oito gols na Copa do Mundo e continua participando diretamente das jogadas mais perigosas da seleção. Mesmo com limitações físicas naturais da idade, o camisa 10 segue encontrando espaço para definir partidas e compensar problemas coletivos.
Do outro lado, a Inglaterra também enxerga a semifinal como uma oportunidade histórica. A seleção não chega à final de uma Copa do Mundo desde 1966 e conta com jogadores como Harry Kane e Jude Bellingham para tentar encerrar esse longo período. Além disso, o momento irregular da Argentina pode aumentar a confiança inglesa antes do confronto em Atlanta. Ainda assim, enfrentar Messi em um jogo deste tamanho significa lidar com um atleta que passou a carreira inteira superando expectativas. Afinal, antes do torneio, muitos acreditavam que o argentino já não tinha mais espaço para surpreender. Poucas semanas depois, o jogador alcançou novos recordes e voltou a colocar seu país entre as quatro melhores seleções do mundo.
Neste cenário, uma vitória sobre a Inglaterra não faria Messi superar automaticamente o tamanho simbólico de Maradona para os argentinos. O antigo camisa 10 possui uma relação com o país que também passa por acontecimentos fora de campo e por uma personalidade completamente diferente.
Porém, eliminar os ingleses e chegar à segunda final consecutiva da Copa do Mundo aumentaria ainda mais um legado que parecia encerrado. Messi já conquistou o título que faltava, tornou-se recordista do torneio e continuou sendo decisivo aos 39 anos. Agora, diante de um adversário que ocupa um lugar especial na história da Argentina, terá a chance de viver uma aventura pessoal comparável aos grandes capítulos deixados por Maradona.
Créditos da foto de capa: Maria Lysaker-Imagn Images.



