Durante mais de duas décadas, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo dividiram o protagonismo do futebol mundial. Acumularam recordes, prêmios individuais e títulos, alimentaram uma das maiores rivalidades da história do esporte e se tornaram símbolos de seus países. Agora, os dois também têm em comum o encerramento de suas trajetórias internacionais. A maneira como chegaram a esse momento, porém, não poderia ser mais diferente.
Messi anunciou sua aposentadoria da Seleção Argentina depois da Copa do Mundo de 2026. A decisão veio após uma campanha individual expressiva, embora a derrota para a Espanha na final tenha impedido uma despedida com mais um título. Ainda assim, o atacante entendeu que seu ciclo havia chegado ao fim e que era o momento de abrir espaço para uma nova geração.
Cristiano Ronaldo, por outro lado, confirmou sua saída de Portugal nesta quinta-feira (5), aos 41 anos, depois de meses de desgaste. O fim da trajetória do português foi marcado por divergências com o técnico Jorge Jesus, pela saída da concentração da seleção e por uma discussão que ultrapassou o campo: qual deve ser o espaço de um dos maiores jogadores da história quando já não consegue ser protagonista?
São despedidas diferentes para dois atletas que ajudaram a definir uma era.
Messi saiu depois de cumprir sua missão
A trajetória de Messi com a Argentina nem sempre foi marcada por conquistas. Durante anos, o atacante conviveu com críticas e frustrações em decisões importantes. Foram finais perdidas, cobranças sobre seu desempenho e até uma aposentadoria internacional anunciada em 2016, posteriormente revertida.
A mudança definitiva começou com a conquista da Copa América de 2021. Depois, o título mundial no Catar, em 2022, encerrou uma das principais discussões sobre sua carreira. Em 2024, a Argentina voltou a vencer a Copa América e consolidou uma geração que devolveu à seleção o protagonismo no cenário internacional.
Na Copa de 2026, Messi voltou a superar as expectativas. Mesmo aos 39 anos, teve participação decisiva na campanha argentina, com oito gols e quatro assistências, e conduziu a equipe a mais uma final de Mundial. A derrota para a Espanha impediu uma despedida com outro título, mas não diminuiu o tamanho de sua contribuição.
Ao anunciar a aposentadoria, o argentino reconheceu que o ciclo havia terminado e destacou a qualidade dos jovens que chegam à seleção. A mensagem foi coerente com o momento da equipe: depois de conquistar praticamente tudo, era hora de permitir que outros jogadores assumissem as responsabilidades.
Messi encerrou sua passagem com 207 partidas e 125 gols pela Argentina, além de uma Copa do Mundo, duas Copas América e o ouro olímpico de 2008. Mais do que os números, deixa uma seleção que voltou a vencer e encontrou uma identidade coletiva durante sua liderança.
Cristiano Ronaldo transformou o próprio adeus em uma crise
A despedida de Ronaldo teve outro roteiro. O português deixa a seleção como seu maior artilheiro e jogador com mais partidas: são 146 gols em 234 jogos. Também foi o capitão da equipe que conquistou a Eurocopa de 2016, o primeiro grande título da história do país, além de participar das campanhas vencedoras da Nations League em 2019 e 2025.
Seu legado, portanto, é incontestável. O problema está na maneira como os últimos capítulos foram escritos.
Depois da Copa de 2026, Ronaldo decidiu continuar defendendo Portugal. A escolha, por si só, não seria um problema. A situação ganhou outra dimensão quando o atacante passou a enfrentar dificuldades para manter a condição de titular e entrou em conflito com Jorge Jesus.
O episódio mais emblemático aconteceu na Nations League. Ronaldo ficou no banco durante a vitória sobre a Noruega, em uma partida na qual Gonçalo Ramos assumiu a posição e marcou o gol decisivo. Insatisfeito com a situação, o camisa 7 deixou a concentração portuguesa e posteriormente criticou a condução do caso pelo treinador.
O episódio expôs uma dificuldade que acompanhou o fim de sua trajetória: aceitar que a seleção poderia funcionar sem sua presença em campo. Em vez de uma transição natural, a discussão sobre seu espaço ganhou contornos de desgaste pessoal e institucional.
A aposentadoria anunciada nesta quinta-feira encerra essa discussão, mas não apaga a impressão deixada pelos acontecimentos recentes. Depois de tudo o que representou para Portugal, Ronaldo poderia ter escolhido uma saída menos turbulenta.
Dois legados históricos, duas maneiras de encerrar um ciclo
Comparar as despedidas não significa ignorar as diferenças entre as trajetórias. Messi também enfrentou críticas, passou por momentos difíceis e demorou a conquistar títulos pela Argentina. Ronaldo, por sua vez, não pode ser resumido aos episódios de seus últimos meses.
Os dois mudaram o patamar de suas seleções e ajudaram a marcar uma geração de torcedores. A diferença está na forma como lidaram com a passagem do tempo e com a necessidade de abrir espaço para novos protagonistas.
Messi encerrou sua história internacional depois de alcançar os principais objetivos que perseguiu durante a carreira. Ronaldo termina com números extraordinários e uma importância histórica igualmente indiscutível, mas com uma despedida marcada por um conflito que poderia ter sido evitado.
No futebol, o legado não é construído apenas pelo último jogo ou pela última declaração. Ainda assim, a maneira de sair também faz parte da história. Messi se despediu depois de cumprir sua missão e com o reconhecimento de uma nação. Ronaldo deixa Portugal como um dos maiores ídolos de sua história, mas com a imagem de um adeus muito mais turbulento do que precisava ser.
Foto: X/Argentina



