Cristiano Ronaldo na eliminação de Portugal na Copa do Mundo
Futebol Copa do Mundo

O peso de Cristiano Ronaldo virou um problema para a seleção de Portugal?

Cristiano Ronaldo construiu uma trajetória que poucos jogadores conseguirão repetir. Recordes, títulos, gols decisivos e a conquista da Eurocopa de 2016 colocaram o atacante em um lugar especial na história de Portugal. O problema é que o peso de tudo isso também pode representar um desafio para a seleção que precisa olhar adiante.

A eliminação na Copa do Mundo de 2026 voltou a colocar essa discussão em evidência. Aos 41 anos, Ronaldo encerrou mais uma participação em Mundiais sem conseguir ser o protagonista que já foi em outros momentos da carreira. Mais do que o desempenho individual, porém, a campanha deixou uma questão importante: até que ponto Portugal ainda precisa organizar seu jogo em função do maior ídolo de sua história?

Uma história gigante, mas com protagonismo cada vez menor

A relação de Cristiano Ronaldo com a Seleção Portuguesa atravessou diferentes gerações. Desde a estreia em grandes torneios, na Eurocopa de 2004, o atacante se tornou o principal rosto de uma equipe que passou a frequentar as fases decisivas das competições internacionais.

O ponto mais alto veio em 2016, quando Portugal conquistou a Eurocopa pela primeira vez. Mesmo deixando a final lesionado, Ronaldo teve participação importante na campanha e terminou o torneio com três gols. Dois anos depois, na Copa do Mundo de 2018, marcou um hat-trick contra a Espanha e voltou a demonstrar sua capacidade de decidir jogos.

O cenário, entretanto, mudou nas competições seguintes. Na Eurocopa de 2021, apesar de ter terminado como um dos artilheiros, Portugal caiu nas oitavas de final. Na Copa de 2022, perdeu espaço na equipe titular e viu Gonçalo Ramos assumir a posição durante a campanha. Já na Euro de 2024, disputou cinco partidas sem marcar gols, antes da eliminação para a França.

A conquista da Nations League em 2025 mostrou que Ronaldo ainda poderia contribuir em momentos importantes. Na Copa de 2026, porém, voltou a enfrentar dificuldades para sustentar o protagonismo. Depois de marcar contra o Uzbequistão, teve atuações discretas em outros compromissos e não conseguiu conduzir Portugal além das quartas de final, quando a equipe foi eliminada pela Espanha.

O retrospecto não apaga o que o atacante fez pela seleção. Mas mostra que a importância histórica de um jogador e sua capacidade atual de liderar uma equipe são questões diferentes.

Portugal precisa encontrar uma identidade além de Cristiano Ronaldo

O maior desafio português talvez não seja decidir se Ronaldo ainda merece estar na seleção, mas definir qual deve ser seu papel. A presença de um jogador com tamanho histórico naturalmente influencia decisões, expectativas e até a maneira como a equipe se comporta em campo.

Quando o planejamento passa a girar excessivamente em torno de um atleta, existe o risco de limitar o desenvolvimento de outras alternativas. Portugal tem nomes capazes de assumir responsabilidades ofensivas, como Gonçalo Ramos, e precisa encontrar maneiras de aproveitar melhor o potencial de sua nova geração.

A discussão sobre a utilização de Ramos e a centralização do ataque em Ronaldo durante a Copa de 2026 ilustra esse dilema. Não se trata de colocar um jogador contra o outro, mas de entender que a seleção precisa ter mais de uma referência e não pode depender exclusivamente de um nome.

O próximo treinador, Jorge Jesus, terá justamente esse desafio. Mais do que administrar a presença de um dos maiores jogadores da história do futebol, precisará construir um modelo que funcione independentemente de quem esteja em campo.

O legado não está em discussão, mas o futuro precisa ser planejado

Cristiano Ronaldo não precisa de uma nova Copa do Mundo para justificar sua importância. Seu legado está consolidado, e a conquista da Eurocopa de 2016 é apenas uma parte de uma trajetória que transformou o patamar competitivo de Portugal.

Isso não significa, entretanto, que a seleção deva permanecer presa ao passado. O respeito ao ídolo não pode impedir mudanças necessárias, especialmente quando o objetivo é preparar uma equipe competitiva para o próximo ciclo mundial.

A questão, portanto, não é simplesmente afastar Ronaldo ou desconsiderar tudo o que ele representa. É encontrar uma maneira de aproveitar sua experiência sem comprometer a evolução coletiva. Se ainda tiver condições de contribuir, poderá continuar sendo uma peça importante, mas não necessariamente o centro de todas as decisões.

Portugal tem uma geração talentosa e precisa dar espaço para que ela assuma responsabilidades. O maior reconhecimento à história de Cristiano Ronaldo talvez seja permitir que a seleção construa um futuro no qual não dependa exclusivamente dele.

Foto: Maria Lysaker/REUTERS